Master: decisão de Toffoli sobre perícia atropela autonomia da PF e amplia mal-estar com o STF
Escolha direta de especialistas sem consulta à corporação é vista como gesto incomum e gera insatisfação na Polícia Federal
247 - A decisão do ministro Dias Toffoli de indicar diretamente quatro peritos da Polícia Federal para atuar em uma apuração sensível provocou forte reação nos bastidores da corporação e agravou o clima de tensão com o Supremo Tribunal Federal (STF), informa Julia Duailibi, do G1. A iniciativa foi interpretada internamente como um gesto político duro, que teria sinalizado afastamento da participação institucional da PF no processo.
Nos bastidores, integrantes da cúpula policial resumiram a leitura do episódio com a seguinte frase: "Não quero a participação institucional de vocês". O procedimento adotado por Toffoli ao apresentar uma lista fechada de nomes sem consulta prévia à direção-geral da Polícia Federal é incomum.
Tradicionalmente, o rito administrativo prevê que o STF encaminhe a solicitação de perícia ao Instituto Nacional de Criminalística, órgão que reúne mais de 200 peritos federais. A partir daí, caberia à própria direção do instituto designar os profissionais conforme a especialidade exigida pelo caso. Ao avançar com indicações diretas, o ministro teria, segundo interlocutores da PF, ultrapassado a autonomia administrativa da instituição, alimentando o mal-estar interno.
Apesar do ruído político e institucional, a apuração aponta que os nomes escolhidos possuem elevado nível de qualificação técnica. A avaliação interna é de que, do ponto de vista profissional, os peritos indicados têm pleno domínio das áreas mais complexas envolvidas na investigação.
Entre os destaques está o atual chefe da perícia em informática da Polícia Federal, reconhecido como o criador do IPED (Indexador e Processador de Evidências Digitais). O sistema é considerado uma das principais ferramentas tecnológicas da corporação e esteve no centro de grandes investigações recentes, como a Lava Jato e a apuração dos atos de 8 de janeiro.
O IPED funciona como um agregador de provas digitais. A partir da apreensão de um celular, por exemplo, o software processa dados de múltiplas plataformas — como WhatsApp, e-mails e galerias de imagens — e reúne todo o conteúdo em uma base única. Isso permite buscas por palavras-chave em milhares de arquivos ao mesmo tempo, cruzando informações que estariam dispersas em diferentes aplicativos.
Além do chefe da área, Toffoli indicou o subchefe da perícia em informática, que atua diretamente no desenvolvimento e na aplicação do IPED. Outro nome da lista é um perito com formação voltada à economia e ao mercado financeiro, o que sugere atenção especial à complexidade das operações bancárias analisadas no chamado caso Master. Um quarto perito também foi incluído, mas sua especialização específica não foi claramente identificada por fontes da área.


