Master pagou R$ 11 milhões a ex-ministro de Bolsonaro
Banco Master repassou valores a Ronaldo Bento e empresas ligadas a ele nos últimos dois anos
247 - O Banco Master, à época controlado por Daniel Vorcaro, transferiu R$ 11 milhões nos últimos dois anos ao ex-ministro da Cidadania Ronaldo Vieira Bento e a empresas ligadas a ele, segundo dados analisados a partir da declaração de Imposto de Renda da instituição financeira enviada pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado do Senado. De acordo com o Intercept Brasil, Bento, que comandou o Ministério da Cidadania entre março e dezembro de 2022, deixou o governo Jair Bolsonaro (PL) e passou a atuar na iniciativa privada em empresas relacionadas ao mercado de crédito consignado, modalidade diretamente impactada por decisões tomadas durante sua passagem pela pasta.
Bento é advogado, ex-agente da Polícia Federal e filiado ao Republicanos desde 2023. Em 2022, durante o governo Bolsonaro, participou da implementação da autorização para empréstimos consignados destinados a beneficiários do Auxílio Brasil, programa que havia substituído o Bolsa Família. Esse tipo de operação permite a concessão de crédito com desconto automático das parcelas na folha de pagamento ou no benefício recebido.
Depois de deixar o Ministério da Cidadania, atual Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, o ex-ministro assumiu cargos em empresas vinculadas ao ambiente de negócios do Banco Master. Entre elas estavam o Banco Pleno e a Mettacard Administradora de Cartões, companhias relacionadas ao conglomerado investigado pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes financeiras.
Repasses do Master a Bento e empresas ligadas a ele
Do total de R$ 11 milhões transferidos pelo Banco Master, R$ 773,3 mil foram pagos diretamente a Ronaldo Vieira Bento como pessoa física. O restante foi destinado a empresas nas quais ele era administrador ou mantinha algum tipo de ligação societária.
A maior fatia dos repasses foi para a Meta Consultoria, empresa da qual Bento é sócio. Criada em junho de 2023 e sediada em um edifício na Asa Sul, em Brasília, a companhia recebeu R$ 6,2 milhões do Master em 2025. A empresa declara atuar com consultoria em gestão empresarial, preparação de documentos e outros serviços administrativos especializados.
Em novembro de 2024, a Meta Consultoria se uniu à CLT Participações para criar a Beta Serviços Financeiros, encerrada em março deste ano. Durante o período em que a sociedade esteve ativa, a CLT recebeu R$ 1,2 milhão do Banco Master.
A Mettacard, empresa licenciada pelo Master e voltada à oferta de cartão de benefícios consignado para servidores públicos, aposentados e pensionistas, recebeu R$ 2,98 milhões no período em que Ronaldo Vieira Bento atuou como administrador. Ele foi eleito para o cargo em agosto de 2024 e renunciou em 10 de dezembro do mesmo ano, menos de um mês após a deflagração da primeira fase da Operação Compliance Zero, quando Daniel Vorcaro foi preso no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos.
Banco Pleno, Mettacard e crédito consignado
O Banco Pleno era o antigo Banco Voiter, adquirido pelo Master em fevereiro de 2024 e vendido em julho de 2025 ao empresário Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro. Bento assumiu a diretoria-presidência do Pleno nesse intervalo.
Em fevereiro deste ano, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial do Banco Pleno por comprometimento financeiro, deterioração de liquidez, quebra de normas e descumprimento de decisões. A medida também levou à indisponibilidade dos bens de Ronaldo Vieira Bento, além de controladores e outros ex-administradores da instituição.
A Mettacard oferecia um cartão de benefícios consignado, modalidade semelhante a um cartão de crédito por permitir compras e saques, mas com cobrança de juros menores e desconto automático da parcela mínima do saldo devedor na folha de pagamento.
A empresa anunciava convênios com prefeituras de sete municípios, além do Instituto de Previdência do Município de São Gonçalo, da Macapá Previdência, do Tribunal de Contas do Estado do Paraná e do governo do Paraná.
Em 24 de novembro do ano passado, o governo paranaense bloqueou o lançamento de novos descontos em folha relacionados aos cartões da Mettacard e da Credcesta, outra empresa licenciada pelo Banco Master. O objetivo declarado era proteger servidores contra suspeitas de fraude e descontos indevidos, no contexto das investigações da Polícia Federal.
O Sindicato Estadual dos Servidores Públicos da Agricultura, Meio Ambiente, Fundepar e Afins, o Sindiseab, denunciou o caso de um servidor que tomou empréstimo de R$ 1,2 mil e passou a dever cerca de R$ 8 mil. Em nota publicada em dezembro do ano passado, a entidade afirmou: “Os cartões de benefícios foram oferecidos aos servidores, há um tempo atrás, e muitos aderiram, principalmente, os servidores que recebem os menores salários”.
Um ex-administrador da Mettacard disse, sob anonimato, que a empresa teria baixa atividade em comparação com a Credcesta, apontada como mais capilarizada e com maior carteira de clientes. Segundo essa avaliação, o cartão da Mettacard funcionaria como uma espécie de “plano B” do Master, a depender da estratégia de mercado.
Ex-ministro passou sem escrutínio em comissões do Congresso
Ronaldo Bento foi citado mais de uma vez na CPMI do INSS e na CPI do Crime Organizado, mas os pedidos para aprofundar a investigação sobre sua atuação não avançaram. Requerimentos envolvendo o ex-ministro acabaram sem efeito prático nas comissões do Congresso.
Na CPMI do INSS, o deputado federal Rogério Correi (PT-MG) apresentou um requerimento para convocar Bento. A comissão, inicialmente voltada à apuração de descontos indevidos em aposentadorias e pensões, ampliou seu foco para incluir empréstimos consignados e suspeitas envolvendo o Banco Master. O pedido, apresentado em dezembro do ano passado, não foi apreciado pela mesa diretora.
A CPMI foi encerrada em março deste ano sem aprovação de relatório final. Rogério Correia afirmou: “Ronaldo Bento foi um ministro tampão. Foi escolhido a dedo para fazer um trabalho sujo na véspera das eleições, que foi colocar milhões [de reais] à disposição de quem era beneficiário do Bolsa Família para fazer empréstimo consignado, endividando essas famílias, e buscando com isso angariar votos para Jair Bolsonaro”.
Na CPI do Crime Organizado, o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) apresentou um requerimento para convocar Ronaldo Bento. O pedido chegou a ser aprovado, mas a comissão terminou em abril deste ano sem ouvi-lo e também sem aprovar relatório final.
Em 18 de março, durante reunião da CPI, o senador Humberto Costa (PT-PE) apresentou um requerimento para acessar os sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático do ex-ministro da Cidadania. O pedido, porém, foi retirado na mesma reunião. A assessoria de imprensa de Humberto Costa informou que a retirada foi “fruto de um acordo entre governo e oposição, com anuência do presidente e do relator”. A equipe do senador acrescentou: “Vários requerimentos foram retirados da pauta nesse dia”. Questionada sobre o acordo, a assessoria respondeu que se tratou de um “acordo verbal” e afirmou: “Não tem acordo em relação a uns, não tem acordo em relação a outros, centra-se numa pauta comum e retiram-se as divergências para posterior discussão. Rotina nas Casas”.
Auxílio Brasil e a expansão do crédito consignado
A autorização para empréstimos consignados vinculados ao Auxílio Brasil foi feita por meio da medida provisória nº 1.106/22, apresentada por Bolsonaro em março de 2022, durante a gestão de João Roma no Ministério da Cidadania. A regulamentação e a operação da modalidade ocorreram depois, já sob Ronaldo Vieira Bento, após a transformação da MP na lei nº 14.431/22, sancionada por Bolsonaro em agosto daquele ano.
Na época, Bento defendia a medida como forma de ampliar o acesso ao crédito para pessoas em situação de vulnerabilidade. Em setembro de 2022, no programa A Voz do Brasil, ele declarou: “O empréstimo consignado chega para se somar às demais políticas sociais como mecanismo de superação da pobreza para população em situação de extrema pobreza ou de pobreza no nosso país”.
Um relatório de avaliação da CGU (Controladoria-Geral da União), de agosto de 2023, identificou R$ 8,4 milhões em descontos indevidos do Auxílio Brasil ao analisar apenas contratos firmados com a Caixa Econômica Federal entre novembro de 2022 e março de 2023.
Segundo o documento, 93% dos contratos de empréstimo consignado vinculados ao programa social foram fechados em outubro de 2022, durante a gestão de Bento e antes do segundo turno das eleições. O então Ministério da Cidadania era responsável por habilitar as instituições financeiras autorizadas a operar esse tipo de crédito.
À época, mais de 21,6 milhões de pessoas recebiam o Auxílio Brasil, o equivalente a cerca de um terço das famílias brasileiras. A justificativa do governo era oferecer crédito com taxa máxima de juros de 3,5% ao mês a famílias já endividadas. De acordo com a CGU, 3,6 milhões de pessoas contrataram empréstimos nessa modalidade.
Defesa de Bento nega irregularidade
O Intercept informou que procurou Ronaldo Vieira Bento por ligações e mensagens de texto, inicialmente sem resposta. Nove dias depois, após nova tentativa, a assessoria de imprensa do ex-ministro enviou uma nota afirmando que os pagamentos mencionados pela reportagem se referem à remuneração pelo trabalho de Bento na assessoria da instituição financeira.
“A remuneração, devidamente declarada ao fisco, é compatível com os valores do mercado. Não há qualquer irregularidade nas operações citadas”, informou a assessoria do ex-ministro.
A reportagem também procurou a assessoria de Jair Bolsonaro, a Mettacard, a CLT Participações e a Meta Consultoria por e-mail e mensagens, mas não recebeu retorno até a publicação. A assessoria de Daniel Vorcaro informou que ele não iria se manifestar sobre o tema.



