Rachas internos no clã Bolsonaro expõem disputa por 2026 e ampliam tensão no PL
Críticas públicas, embates por palanques estaduais e disputa por protagonismo marcam ofensiva de Flávio rumo ao Planalto
247 - O avanço da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) ao Palácio do Planalto tem sido acompanhado por uma escalada de conflitos dentro do próprio clã e do entorno bolsonarista. Divergências públicas, cobranças veladas e disputas sobre a montagem de chapas estaduais mantêm a família em permanente tensão política, relata o jornal O Globo.
O episódio mais recente colocou em lados opostos o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, além do deputado Nikolas Ferreira. Em entrevista ao SBT News, dos Estados Unidos, onde está há cerca de um ano, Eduardo criticou a atuação de Michelle e Nikolas na pré-campanha do irmão. “Eu, pelo menos, não vi nenhum apoio da Michelle, nenhum post a favor do Flávio. Ela compartilha o Nikolas a toda hora. Nikolas e Michelle estão jogando o mesmo jogo. Você vê um lado a lado, compartilha o outro e se apoia na rede social. Estão com amnésia, talvez, não sei por qual motivo”, afirmou.
Indiretas nas redes e reação pública
No sábado (21), Michelle publicou nas redes sociais uma imagem de banana frita, dizendo que levaria o alimento ao marido. Entre aliados de Eduardo, a postagem foi interpretada como provocação, em referência ao apelido pejorativo “bananinha”, usado contra ele por críticos.
Em resposta, Eduardo compartilhou no X a publicação de um apoiador que, ao divulgar uma foto dele ao lado de Flávio nos Estados Unidos, escreveu: “Continuem fritando banana enquanto o Flávio e o Eduardo estão trabalhando duro para resgatar o país”.
Também no sábado, Nikolas visitou Jair Bolsonaro na Papudinha e comentou as críticas. “Primeiro, eu discordo que eu tenha amnésia e que a Michelle tenha amnésia. Eu me lembro muito bem de todos os anos que eu fui atacado injustamente”, declarou. Em seguida, acrescentou: “Bater em mim eu já estou acostumado. Já tem mais de três anos que eles estão aí nessa saga. Mas, sabe, deixa a Michelle viver o calvário dela. Eu acho que o Eduardo não está bem”.
Na segunda-feira (23), a esposa de Eduardo, Heloísa, também se manifestou nas redes sociais. Segundo ela, em publicação feita sem o conhecimento do marido, o deputado “não está bem”, mas ponderou: “É humano, carrega uma cobrança e um peso absurdo nas costas, além da dor da saudade”.
Disputa por palanques e influência nos estados
As críticas de Eduardo à madrasta expõem um pano de fundo mais amplo: a insatisfação com a atuação de Michelle na articulação de candidaturas estaduais, muitas vezes em desacordo com as costuras partidárias alinhadas à estratégia nacional de Flávio.
Em Santa Catarina, Michelle atuou para viabilizar a candidatura da deputada Caroline de Toni (PL) ao Senado, movimento que contrariou o PP do senador Esperidião Amin, que busca a reeleição. O PL já lançou no estado a pré-candidatura de Carlos Bolsonaro ao Senado.
No Distrito Federal, a ex-primeira-dama incentivou a formação de uma chapa ao Senado com a deputada Bia Kicis (PL), o que interferiu na articulação que previa o apoio ao governador Ibaneis Rocha (MDB).
Já no Ceará, Michelle posicionou-se contra uma aliança defendida por Flávio com Ciro Gomes, recentemente filiado ao PSDB, para disputar o governo estadual em uma frente anti-PT.
Outro movimento estratégico envolveu o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que chegou a ser cotado para disputar a Presidência. Michelle era apontada como possível vice em sua chapa, cenário que perdeu força com a consolidação do nome de Flávio. Ambos atuaram junto a ministros do Supremo Tribunal Federal para viabilizar a transferência do ex-presidente para a Papudinha, onde ele está detido, e agora buscam a conversão da pena em prisão domiciliar.
Flávio tenta conter ruídos
Em meio aos embates familiares, Flávio Bolsonaro procurou adotar um tom conciliador nas redes sociais. “Tá todo mundo querendo vencer a discussão. Mas o que precisamos é ganhar a eleição”, escreveu.
Apesar do crescimento nas pesquisas, o senador ainda enfrenta resistências internas e precisa harmonizar interesses divergentes dentro da própria família e do PL.
Embate com Valdemar expõe disputa de comando
A tensão também alcançou a cúpula partidária. Após visita ao pai na prisão, Carlos afirmou que o ex-presidente prepara “uma lista de pré-candidatos ao Senado, aos governos e a outras participações políticas igualmente relevantes”.
A declaração provocou reação do presidente do PL, Valdemar Costa Neto. Em entrevista ao Poder360, ele delimitou competências internas: “Debatemos tudo, mas o Senado é o Bolsonaro que indica. Sempre foi. Nós indicamos os governadores. Todos nós damos palpites em tudo. É normal. Sempre ouvimos nossos parceiros”.
Carlos respondeu nas redes: “A fala não foi minha, foi do (ex-)presidente Jair Bolsonaro e ninguém disse que não conversamos com ninguém e que ninguém poderia indicar governadores”. E completou: “Creio que o PL poderia dar uma força inclusive em outras situações. Me parece que as coisas estão meio desencontradas sem querer querendo”.
Vice ideal e autocrítica sobre 2022
Valdemar também fez uma avaliação sobre a eleição de 2022, afirmando que a escolha do general Braga Netto como vice foi um “erro” e que Bolsonaro deveria ter optado por uma mulher para ampliar o eleitorado feminino.
“Nós não podemos perder os votos que nós perdemos no passado. O Bolsonaro quis pôr como vice o Braga Netto, que é um homem do bem, decente, correto, mas que não dava um voto para ele”, declarou durante evento do grupo Esfera Brasil.
Agora, segundo o dirigente, a vice ideal para Flávio poderia ser a senadora Tereza Cristina (PP-MS) ou o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), embora o mineiro mantenha a intenção de disputar a Presidência.
Com a pré-candidatura de Flávio formalizada após manifestação pública do pai, o clã Bolsonaro tenta alinhar estratégias para 2026. No entanto, as divergências internas, disputas por protagonismo e embates sobre o controle partidário indicam que o principal desafio pode estar dentro de casa, antes mesmo da corrida eleitoral ganhar as ruas


