Tarcísio rejeita obediência a Flávio e ainda vê trunfo para assumir candidatura presidencial
Aliados veem tensão com o clã e avaliam que eventual prisão domiciliar de Jair Bolsonaro pode redesenhar a disputa pelo Planalto
247 - O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), passou a reagir com maior firmeza às recentes declarações do senador Flávio Bolsonaro (PL) e do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL), que condicionam a reeleição do governador ao apoio da família Bolsonaro. Nos bastidores, auxiliares de Tarcísio avaliam que esse tipo de manifestação configura uma tentativa de impor tutela política ao chefe do Executivo paulista, ignorando o capital político que ele acumulou no estado desde a eleição. A interpretação é de que as falas públicas funcionam como um recado indireto para limitar sua autonomia no xadrez eleitoral, segundo o Metrópoles.
Um auxiliar próximo ao governador afirma que a irritação tem sido crescente. “Ele quer mostrar que não é subserviente, afinal já conquistou capital político próprio em São Paulo. As constantes declarações dos Bolsonaros afirmando que Tarcísio precisa deles em São Paulo têm soado como ameaça velada”, disse. No entorno do Palácio dos Bandeirantes, também pesaram entrevistas em que os filhos do ex-presidente sustentaram que “Flávio precisa de Tarcísio e vice-versa” ou que o governador “não tem escolha” sobre apoiar uma eventual candidatura do senador à Presidência da República.
O desgaste ganhou força após Tarcísio cancelar a visita que faria a Jair Bolsonaro (PL), preso na Papudinha, na quinta-feira (22). Auxiliares interpretaram o gesto como um sinal direto de descontentamento com Flávio Bolsonaro. Horas antes, o senador havia afirmado que o encontro serviria para Bolsonaro reforçar ao governador que sua reeleição em São Paulo seria peça-chave da estratégia nacional para derrotar o PT.
“Ele quer de fato mandar um recado que ficou muito incomodado com as declarações do Flávio, e que sabe da importância do palanque dele para o Flávio no Estado de São Paulo”, afirmou uma fonte palaciana. Segundo aliados, essa declaração teria sido decisiva para o cancelamento da visita. Na agenda oficial do governador naquele dia, constavam apenas “despachos internos”, leitura reforçada como sinal de insatisfação.
Em meio à crise com setores do bolsonarismo, o governo paulista anunciou mudanças na Casa Civil, responsável pela articulação política. O então secretário Arthur Lima assumiu a Secretaria da Justiça, enquanto Roberto Carneiro, presidente estadual do Republicanos, passou a comandar a Casa Civil. A troca busca ajustar o perfil político da pasta em ano eleitoral e fortalecer o diálogo com deputados e partidos da base.
Apesar do atrito, interlocutores negam rompimento definitivo. “O Tarcísio tem um ‘chefe’, que é o Bolsonaro. Ele não quer interlocutores. É uma briga por espaço e não uma ruptura. Ele está apenas marcando posição. No fundo, o Tarcísio gostaria de ser mais escutado”, avaliou um aliado. Outra fonte disse que o governador esperava que o encontro com Bolsonaro ocorresse mais adiante. “É um erro ele encontrar Bolsonaro agora. O ideal seria encontrá-lo quando a candidatura de Flávio já tiver tido tempo para tentar se consolidar politicamente".
Mesmo assim, no fim da tarde da quinta-feira, Tarcísio afirmou nas redes sociais que visitará Bolsonaro na próxima quinta-feira (29). Reforçou que é candidato à reeleição e, sem citar Flávio, declarou trabalhar por uma “direita unida e forte para tirar a esquerda do poder”. “Qualquer informação diferente desta não passa de especulação”, afirmou.
No campo eleitoral, aliados do governador avaliam que Flávio Bolsonaro ainda não conseguiu convencer o mercado financeiro nem partidos do centrão sobre a viabilidade de sua candidatura presidencial. “Até agora acho que Flávio não conseguiu convencer ninguém. O PP dizendo que ficará neutro, MDB dizendo que ficará neutro, Republicanos dizendo que ficará neutro, PSD lançando candidato”, disse um aliado. Outro interlocutor acrescentou: “A candidatura de Flávio ainda é uma incógnita no mercado. MDB e PSD não estão apoiando. União Brasil também não saiu da moita. (Caso não avance a candidatura do senador), como Tarcísio vai voltar atrás se apoiar enfaticamente o Flávio?”.
Além das dúvidas eleitorais, Tarcísio estaria concentrado em acelerar entregas administrativas e estruturar a própria campanha à reeleição. Auxiliares citam a necessidade de organizar alianças, definir substituições no secretariado e resolver insatisfações de prefeitos e partidos da base, como o PP, que já demonstrou irritação com o governo estadual.
Paralelamente, aliados do governador passaram a enxergar a possibilidade de prisão domiciliar de Jair Bolsonaro como um elemento capaz de mudar o cenário nacional, relata Igor Gadelha, do Metrópoles. Nos bastidores, a aposta é que, em casa, o ex-presidente estaria mais suscetível à influência de lideranças políticas e familiares que defendem a candidatura de Tarcísio ao Palácio do Planalto, em detrimento do projeto presidencial de Flávio Bolsonaro.
Segundo esse grupo, a expectativa é de que Bolsonaro, em regime domiciliar, dialogue mais com aliados próximos e com a própria esposa, Michelle Bolsonaro, apontada como possível candidata a vice em uma eventual chapa encabeçada pelo governador paulista. De acordo com relatos, Michelle tem atuado em articulações conjuntas com Tarcísio junto a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar viabilizar a mudança no regime de cumprimento da pena.
Aliados de Flávio Bolsonaro, por sua vez, avaliam que a estratégia pode ter efeito inverso. Para eles, a prisão domiciliar permitiria a Jair Bolsonaro acompanhar mais de perto o crescimento da candidatura do filho, reforçando sua aposta. Entre bolsonaristas, cresceu nas últimas semanas a expectativa de que o ministro do STF Alexandre de Moraes autorize o ex-presidente a cumprir pena em casa.
Enquanto o desfecho permanece incerto, Tarcísio mantém publicamente o discurso de que seu foco é a reeleição em São Paulo. Nos bastidores, porém, aliados reconhecem que o apoio do governador à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência segue cauteloso e limitado, à espera de uma definição mais clara sobre os rumos do bolsonarismo na disputa nacional.


