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Arminio Fraga vê fim da ordem global e alerta para riscos fiscais no Brasil

Ex-presidente do BC afirma que o mundo entrou em fase de turbulência geopolítica e diz que situação macroeconômica brasileira “não vai acabar bem”

Armínio Fraga vê o fim da ordem global (Foto: Brasil 247)

247 – O economista Arminio Fraga afirmou que a ordem global construída após a Segunda Guerra Mundial chegou ao fim e que o cenário internacional entrou em uma fase de maior instabilidade, marcada pela volta do Estado-nação, pelo enfraquecimento de instituições multilaterais e por tensões entre grandes potências.

Em entrevista ao jornal Valor Econômico, Fraga, sócio-fundador da Gávea Investimentos e ex-presidente do Banco Central, foi direto ao analisar o momento histórico: “É um mundo onde a ordem global acabou. Não adianta tentar pintar um quadro mais róseo. Acabou mesmo.”

Segundo ele, o sistema internacional que sustentou décadas de integração econômica e prosperidade perdeu força. “De repente a gente acorda com a volta do Estado-nação e com tudo aquilo que dá medo, em que vale mais a força do que a forma institucional”, afirmou.

Fraga citou a fragilização da OMC, do FMI e do Banco Mundial, além das guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, da crise climática, da ameaça de novas pandemias e dos impactos ainda imprevisíveis da inteligência artificial. Para o economista, o mundo vive uma transição hegemônica em que os Estados Unidos já não exercem sozinhos o papel de liderança global.

“Os EUA não são mais o G1. Temos a China com grande peso e numa situação de guerra fria meio escondida. Temos a Europa tentando se consolidar e agora sendo empurrada ao rearmamento. E a Rússia, que, economicamente não tem muito poder, mas militarmente tem”, disse.

Risco de estagflação e endividamento global

O economista também demonstrou preocupação com o endividamento global das nações. Para ele, o atual ambiente de guerras, choques de oferta e tensões geopolíticas pode abrir espaço para um cenário de estagflação, com crescimento fraco e inflação persistente.

“Está todo mundo muito endividado. Isso pode criar certas tensões econômicas”, afirmou.

Fraga observou que os mercados ainda parecem trabalhar com algum otimismo em relação à possibilidade de uma acomodação das crises, mas advertiu que não há garantias. “É um choque de oferta muito grande. Então, já está criando essa situação de estagflação”, disse.

Críticas à política fiscal brasileira

Ao tratar do Brasil, Arminio Fraga reconheceu o bom desempenho recente da economia, com crescimento nos últimos três anos e desemprego baixo, mas fez duras críticas ao quadro fiscal e ao nível de juros pagos pela dívida pública.

“Acho preocupante um país que está com 80% do PIB de dívida pagando na média perto de 8% acima da inflação, uma economia que já mostra sinais de estresse”, afirmou.

O ex-presidente do Banco Central disse que o Banco Central tem atuado com dose elevada de juros, mas ressaltou que a política monetária precisa de apoio fiscal. “O Banco Central precisa de ajuda fiscal, mas imensamente. Não é coisa pequena”, declarou.

Fraga lembrou que, nos governos anteriores do presidente Lula, o Brasil registrou superávits fiscais, o que permitiu ao país enfrentar melhor a crise de 2008. “Foi uma lição que devíamos ter aprendido”, lamentou.

Para ele, a atual situação macroeconômica é preocupante. “Hoje penso que essa situação macroeconômica não vai acabar bem. O que vai acontecer? Difícil prever”, afirmou.

Apesar das críticas, Fraga reconheceu iniciativas do Ministério da Fazenda. “Mesmo alguns economistas mais ortodoxos dizem que o Ministério da Fazenda está trabalhando bem e fez muita coisa boa. É fato e merece crédito. Mas o mais importante, na parte fiscal, não fez”, disse.

Brasil tem vantagem em energia limpa

Na entrevista, Fraga também avaliou que o Brasil ocupa posição privilegiada na transição energética, por possuir uma matriz limpa e grande potencial em energia eólica, solar, hidrelétrica e biomassa.

“O Brasil está muito bem nessa área, e isso é bom para o Brasil e para o mundo”, afirmou.

Ele advertiu, no entanto, que um choque no preço do petróleo ainda pode afetar o país por meio dos custos. Também criticou a possibilidade de subsídios excessivos em um cenário de restrição fiscal. “O cobertor é curto porque não tem espaço fiscal para nada”, disse.

Carbono, biodiversidade e restauração florestal

Fraga é um dos principais investidores e conselheiros da re.green, empresa brasileira de restauração ecológica com projetos na Amazônia e na Mata Atlântica. A companhia pretende recuperar 1 milhão de hectares e financiar parte da expansão por meio da venda de créditos de carbono.

O economista afirmou ver grande potencial no Brasil verde. “Sempre fui apaixonado pelo Brasil verde, pelo meu Rio de Janeiro verde. Sempre achei, e continuo a achar, que é a nossa cara”, declarou.

Para ele, o mercado de carbono é parte da solução climática, embora dependa de compradores e de regras mais claras. “Nosso financiamento vem, principalmente, da venda de créditos de carbono, precisamos que haja comprador”, explicou.

Fraga também destacou a biodiversidade como um ativo estratégico do país. “Existe um elemento também da maior importância, que ainda não é suficientemente valorizado, que é a biodiversidade. Onde o Brasil também é campeão. É um ativo enorme”, disse.

Concessões florestais podem abrir nova fronteira

O economista citou como marco recente o leilão de uma concessão florestal em Rondônia, na Floresta Nacional do Bom Futuro, vencido em parte pela re.green. Segundo ele, a iniciativa pode abrir uma nova fronteira de captura de carbono no Brasil.

“As áreas públicas degradadas no Brasil são imensas. Para nós foi muito importante entrar. Entramos com muita convicção, sabendo dos riscos”, afirmou.

Fraga defendeu que a segurança dessas áreas é responsabilidade do Estado. “Segurança é uma questão de Estado. O Estado deveria ter o monopólio da força e estamos do lado do Estado nessa parada”, disse.

Para ele, se a experiência for bem-sucedida, o potencial é muito grande. “Essa experiência, sendo boa, o céu é o limite. Pode ser algo enorme”, afirmou.

Subsídio para quem captura carbono

Ao tratar do sequestro de carbono, Fraga disse que, do ponto de vista econômico, seria natural haver algum tipo de incentivo para quem captura carbono, assim como há mecanismos que penalizam emissões em outros mercados.

“Nós queremos reprimir o desmatamento e a emissão de gases-estufa. No sistema europeu, empresas são obrigadas a reduzir a sua pegada de carbono, o que, na prática, é um imposto. Deveria, simetricamente, ser natural um subsídio no caso de quem se dispõe a capturar carbono”, afirmou.

Ele ressaltou que hoje a remuneração vem principalmente de empresas estrangeiras que compram créditos por obrigação, estratégia ou reputação. Mas advertiu que a demanda ainda está distante do necessário para restaurar áreas degradadas em larga escala.

“Nós temos uma lista de compradores, mas não é a lista necessária para reflorestar o Brasil degradado”, concluiu.

Confira os principais pontos da entrevista:

A visão de Armínio
A visão de Armínio(Photo: Brasil 247)

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