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BNDES quer Brasil Soberano 2 para defender exportações e setores estratégicos do país

Mercadante propõe ampliar apoio estatal diante das tarifas dos Estados Unidos e das distorções no comércio internacional

Aloizio Mercadante (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

247 – O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, defendeu nesta terça-feira (17) a criação de uma nova versão do Plano Brasil Soberano para proteger empresas brasileiras diante da escalada protecionista dos Estados Unidos. A informação foi publicada originalmente pela Sputnik Brasil.

Segundo Mercadante, a proposta não deve se limitar ao apoio tradicional às exportações. A ideia, de acordo com ele, é que o programa também contemple setores com déficits comerciais, áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento nacional e segmentos afetados pelos desdobramentos de conflitos internacionais. “A nossa avaliação é que precisamos de um Brasil Soberano 2”, afirmou.

A defesa de um novo plano ocorre em meio à permanência de tensões comerciais com os Estados Unidos, mesmo após mudanças recentes na política tarifária americana. O Brasil Soberano original, lançado em agosto de 2025, foi estruturado como um pacote de financiamento voltado a empresas exportadoras atingidas pelo chamado tarifaço americano, que chegou a impor taxas de até 50% sobre produtos brasileiros.

Em fevereiro, uma decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou uma medida do governo do presidente Donald Trump. Em resposta, Washington instituiu uma tarifa global de 15%. Para Mercadante, no entanto, a alteração não resolveu o problema central enfrentado pelo Brasil, já que diversos segmentos seguem submetidos a taxas superiores às de concorrentes internacionais.

Ao resumir essa assimetria, o presidente do BNDES fez uma distinção entre uma tarifa generalizada e uma política discriminatória contra determinados países ou setores. “Quando é para todos, não desequilibra a relação de comércio. O problema é quando você tem uma tarifa superior a dos seus concorrentes”, declarou.

Protecionismo dos EUA pressiona indústria brasileira

Mercadante também chamou atenção para a manutenção da chamada Seção 232 da legislação dos Estados Unidos, mecanismo que permite a imposição de tarifas sob o argumento de segurança nacional. Na prática, esse instrumento continua afetando setores centrais da indústria brasileira e reforça, segundo sua avaliação, a necessidade de uma resposta coordenada do Estado.

De acordo com ele, áreas como siderurgia, alumínio e cobre ainda enfrentam tarifas de até 50%. Já a indústria automotiva e o setor de autopeças seguem submetidos a taxações em torno de 25%. O impacto dessas barreiras vai além do comércio exterior e atinge cadeias produtivas inteiras, com reflexos sobre investimentos, emprego e competitividade.

A avaliação de Mercadante é que esse cenário produz distorções relevantes no comércio internacional. Em vez de um ambiente regido por regras equilibradas, o que se consolida, segundo a leitura do BNDES, é um quadro de competição desigual, em que países periféricos e emergentes acabam arcando com custos maiores para acessar mercados estratégicos.

Novo plano deve ir além das exportações

Ao defender o Brasil Soberano 2, Mercadante sinalizou que o governo pretende ampliar os instrumentos de financiamento e apoio à produção nacional. O novo desenho do programa, conforme sua fala, buscaria adaptar o país a uma ordem econômica internacional mais instável e mais marcada por medidas unilaterais de proteção comercial.

Nesse contexto, o plano teria alcance mais amplo do que o formato original. Além de socorrer exportadoras atingidas pelas tarifas americanas, o objetivo seria fortalecer setores em que o Brasil apresenta fragilidade comercial e estimular áreas consideradas estratégicas para a soberania econômica nacional.

A formulação também dialoga com uma mudança mais estrutural no ambiente global. O avanço do protecionismo, o uso político de tarifas e os impactos econômicos de conflitos internacionais vêm impondo novos desafios aos países que dependem de cadeias globais de valor e de acesso competitivo aos grandes mercados.

Competição internacional e soberania econômica

A fala de Mercadante deixa claro que o centro da proposta é garantir condições menos desiguais para as empresas brasileiras. O presidente do BNDES destacou que o esforço do governo deve mirar não apenas a defesa imediata das exportações, mas também a preservação de cadeias produtivas estratégicas para o desenvolvimento econômico do país.

Essa visão reforça a ideia de que a política industrial e a política de comércio exterior não podem ser tratadas de forma isolada. Ao contrário, diante de um cenário internacional mais hostil, o Estado passa a ser chamado a atuar como instrumento de defesa da capacidade produtiva nacional.

Ao propor uma nova etapa do Plano Brasil Soberano, Mercadante coloca no centro do debate a necessidade de uma estratégia de longo prazo para proteger a indústria brasileira de choques externos e de práticas comerciais assimétricas. A proposta, tal como apresentada, sugere uma ampliação do papel do BNDES no financiamento de setores sensíveis e na sustentação da competitividade do país.

Num momento em que o comércio mundial é atravessado por disputas geopolíticas, guerras tarifárias e argumentos de segurança nacional mobilizados por grandes potências, a defesa de mecanismos de proteção à economia brasileira ganha peso político e econômico. Para o comando do BNDES, o Brasil precisa responder a esse cenário com mais coordenação, crédito e planejamento.

A mensagem de Mercadante é direta: sem instrumentos públicos robustos, o país corre o risco de ver setores estratégicos perderem espaço em uma disputa internacional cada vez mais marcada por barreiras, discriminação e protecionismo. É nesse contexto que o Brasil Soberano 2 surge como aposta para reforçar a capacidade de reação da economia nacional.

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