Endividamento atinge 67% dos brasileiros e 21% já estão com parcelas em atraso, mostra Datafolha
Pesquisa revela avanço do aperto financeiro, uso frequente de crédito caro e dificuldade crescente das famílias para fechar as contas no Brasil
247 – Pesquisa Datafolha mostra que o endividamento já faz parte da realidade de dois em cada três brasileiros. Segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo, 67% da população afirmam ter algum tipo de dívida financeira, como empréstimos, financiamentos ou parcelamentos. Desse total, 21% dizem estar com pagamentos em atraso, num retrato que expõe o peso do crédito caro e da renda comprimida sobre o orçamento das famílias.
O estudo, realizado nos dias 8 e 9 de abril com 2.002 pessoas de 16 anos ou mais em 117 municípios, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%, também mostra que o problema não se restringe às dívidas bancárias. Há um ambiente disseminado de aperto financeiro, cortes de consumo e sensação de perda de bem-estar, em meio à alta do custo de vida e à dependência crescente do crédito.
Crédito caro e inadimplência em alta
Entre os brasileiros que recorreram a empréstimos com amigos e familiares, 41% disseram estar devendo. Já no caso do cartão de crédito parcelado, 29% dos endividados nessa modalidade relataram inadimplência. Em seguida aparecem os empréstimos em banco, com 26%, e os carnês de lojas, com 25%.
Outro dado que chama atenção é o uso do crédito rotativo, uma das modalidades mais caras do mercado. Segundo o Datafolha, 27% dos entrevistados afirmam usar o rotativo com diferentes graus de frequência. Desse grupo, 5% dizem recorrer a esse mecanismo com alta frequência, enquanto 22% o utilizam às vezes ou raramente.
O crédito rotativo é acionado automaticamente quando o consumidor paga apenas o valor mínimo da fatura do cartão, empurrando o restante da dívida para frente com juros elevados. De acordo com dados do Banco Central citados pela reportagem, essa linha cobra, em média, juros mensais de 14,9%, embora desde 2024 exista uma norma que limita a dívida do cartão ao dobro do valor original.
A economista Isabela Tavares, da Tendências Consultoria, resumiu o quadro em declaração literal à reportagem: "A inclusão financeira dos últimos anos e o aumento dos juros bancários acabaram elevando muito o comprometimento de renda e a própria inadimplência".
A avaliação ajuda a entender o fenômeno atual: mais brasileiros passaram a ter acesso ao sistema financeiro, mas essa ampliação se deu num ambiente de juros altos, inflação persistente e alimentos pesando mais no orçamento doméstico.
Contas básicas também entram no vermelho
A pesquisa revela ainda que o endividamento não se limita ao sistema bancário. Entre os entrevistados, 28% afirmaram estar com contas de consumo e serviços em atraso.
As dívidas mais citadas nesse grupo foram telefone, celular e internet, lembradas por 12% dos inadimplentes. No mesmo patamar aparecem IPTU, IPVA e carnê-leão, também com 12%. Em seguida vêm contas de luz, com 11%, e de água, com 9%.
Os números indicam que a pressão financeira já alcança despesas básicas do cotidiano. Quando a inadimplência chega a contas como energia, água e conectividade, o problema deixa de ser apenas contábil e passa a refletir uma erosão mais profunda da capacidade de sustento das famílias.
Quase metade vive situação apertada ou severa
O Datafolha também montou um índice de aperto financeiro com base em oito tipos de restrição recentes no orçamento, como redução de consumo, atraso em contas, inadimplência e mudança de hábitos.
O resultado mostra que 27% dos brasileiros vivem uma situação financeira classificada como apertada, enquanto 18% enfrentam condições severas. Somados, os dois grupos chegam a 45% da população.
Outros 36% se encaixam na categoria moderada. Apenas 19% foram classificados como isentos ou leves, isto é, com nenhuma ou apenas uma restrição identificada.
O dado ajuda a explicar por que o mal-estar econômico vai além dos indicadores formais de renda. Mesmo quando há algum ganho nominal, o comprometimento crescente com dívidas, contas e crédito corrói a sensação de segurança material.
Brasileiros cortam lazer, comida e até remédios
Para enfrentar a deterioração do orçamento, a maioria dos entrevistados afirmou ter sido obrigada a rever hábitos de consumo. Segundo o levantamento, 64% disseram que cortaram gastos com lazer.
Além disso, 60% reduziram a quantidade de vezes que comem fora de casa, e outros 60% passaram a trocar marcas por opções mais baratas. Já 52% afirmaram ter diminuído a quantidade de alimentos comprados.
O aperto avança ainda para outras áreas essenciais. Metade dos entrevistados, 50%, relatou redução no consumo de água, luz e gás. Outros 40% disseram ter deixado de pagar alguma conta, 38% deixaram de pagar dívidas e o mesmo percentual, 38%, afirmou ter reduzido a compra de remédios.
O conjunto desses dados revela uma dinâmica preocupante: o ajuste das famílias já não ocorre apenas em itens supérfluos, mas atinge alimentação, saúde e consumo básico. É o tipo de contenção que afeta diretamente a qualidade de vida e o bem-estar.
Problemas financeiros lideram as preocupações pessoais
Quando questionados espontaneamente sobre seu principal problema pessoal hoje, os brasileiros apontaram majoritariamente questões ligadas ao dinheiro. Somando itens como falta de renda, endividamento, custo de vida, salário baixo e previdência, os aspectos financeiros aparecem como principal preocupação para 37% dos entrevistados.
Dentro desse grupo, a resposta mais frequente foi "questões financeiras/falta de dinheiro/renda", citada por 27%. Em seguida surgem "endividamento (empréstimos, contas, aluguel)", com 5%, e "custo de vida/inflação/impostos", com 2%.
Na sequência, aparecem saúde, com 18%, questões relacionadas ao trabalho, com 8%, e problemas familiares e pessoais, com 5%. Falta de tempo e frustração pessoal foram mencionadas por 3%, enquanto problemas sociais do país somaram 2%. Já 14% disseram não ter problemas.
O retrato confirma que o debate econômico continua atravessando a vida cotidiana de forma decisiva. A preocupação com dinheiro não aparece como tema abstrato, mas como experiência concreta de aperto, dívida e perda de poder de compra.
Cartão de crédito ganha centralidade no orçamento
A pesquisa informa que 57% dos brasileiros usam cartão de crédito. Dentro desse universo, 13% disseram parcelar compras de supermercado sempre ou frequentemente, enquanto 4% afirmaram fazer o mesmo com contas de água e luz.
O levantamento também identificou práticas que mostram um grau maior de estrangulamento financeiro. Entre os usuários de cartão, 5% disseram pagar a fatura de um cartão com o limite de outro sempre ou frequentemente, e 10% afirmaram fazer isso às vezes.
A economista Isabela Tavares voltou a destacar a combinação explosiva entre expansão do crédito e alta dos preços. Em declaração literal, afirmou: "Mas os juros começaram a subir no mesmo momento. Isso, somado aos preços em alta dos alimentos, fez as pessoas recorrerem mais a modalidades de crédito emergenciais."
Essa dinâmica ajuda a explicar por que o cartão, que em tese deveria funcionar como instrumento de organização financeira, acabou se transformando para muitos em mecanismo permanente de sobrevivência.
Oferta digital de crédito impulsiona consumo por impulso
O Datafolha também investigou como os brasileiros percebem os mecanismos de oferta de crédito. Entre os entrevistados, 68% concordam que as ofertas de crédito por celular ou internet facilitam muito o endividamento por impulso.
Mais da metade, 51%, declarou concordância total com a afirmação de que é difícil viver sem usar o cartão de crédito para fechar as contas do mês.
Para Lauro Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV e professor da FGV EAESP, o cenário atual é resultado de vários fatores combinados. Segundo ele, a maior oferta de crédito após a abertura do mercado ajuda a explicar o alto endividamento. Também pesam o ambiente macroeconômico, com juros básicos de 14,75% ao ano, inflação acumulada de 4,14% em 12 meses, e a falta de educação financeira.
A leitura é relevante porque aponta uma contradição estrutural: o crédito se expandiu e chegou com mais facilidade à população, mas isso ocorreu sem proteção suficiente diante dos juros elevados e da fragilidade do orçamento doméstico.
Sem reserva e com pouco controle de gastos
Quando o assunto é planejamento financeiro, 44% dos brasileiros dizem fazer orçamento detalhado e saber tudo o que gastam em cada despesa. Outros 32% afirmam ter algum tipo de controle, mas sem conhecer todos os gastos com precisão.
Por outro lado, 23% declararam não fazer nenhum tipo de controle das despesas. Em um ambiente de renda pressionada e crédito abundante, esse dado reforça a vulnerabilidade de parte significativa da população.
A falta de reserva financeira também aparece como traço marcante. A maioria, 66%, afirmou não ter qualquer poupança ou colchão de segurança. Entre os que possuem alguma reserva, 12% disseram que o valor guardado cobriria menos de três meses de contas. Outros 10% afirmaram conseguir manter as despesas por três a seis meses em caso de desemprego ou invalidez.
Sem reserva, as famílias ficam ainda mais expostas a qualquer choque, como doença, perda de renda, alta inesperada de preços ou emergência doméstica. Nesse cenário, o recurso ao crédito deixa de ser escolha e passa a ser imposição.
Mal-estar econômico tem impacto social e político
A pesquisa também perguntou como os brasileiros se sentem em relação à situação financeira do país. Metade dos entrevistados, 49%, respondeu que se sente mal ou muito mal.
Lauro Gonzalez destacou que esse sentimento pode produzir efeitos para além da vida privada. Em declaração literal, afirmou: "Se a dívida está consumindo uma parcela significativa da renda, mesmo a renda tendo evoluído positivamente, isso pode significar uma queda em termos de sensação de bem-estar, que tem efeitos eleitorais. Não estamos num momento de crise de crédito, estamos num momento em que existe uma sensação de piora no bem-estar por conta do endividamento".
Esse ponto ajuda a compreender por que o endividamento entrou na campanha eleitoral deste ano e passou a ocupar também a agenda do governo do presidente Lula. Entre as medidas já anunciadas estão ações de renegociação de dívidas e saques extraordinários do FGTS.
Mais do que um problema privado entre consumidor e banco, o avanço das dívidas se tornou questão econômica, social e política. Os números do Datafolha mostram que o crédito, em vez de funcionar como ponte para o consumo e a estabilidade, tem operado para milhões como engrenagem de sobrevivência em meio à renda comprimida e ao encarecimento da vida.


