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EUA passam a controlar a única mina ativa que explora terras raras no Brasil

Aquisição da Serra Verde pela USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões levanta preocupações sobre soberania mineral e reforça disputa entre EUA e China

EUA passam a controlar a única mina ativa que explora terras raras no Brasil (Foto: Freepik)

247 – Os Estados Unidos passaram a exercer controle sobre a única mina ativa de exploração de terras raras em larga escala no Brasil após a aquisição, nesta segunda-feira 20, da empresa Serra Verde pela norte-americana USA Rare Earth, em uma operação avaliada em US$ 2,8 bilhões. A transação envolve uma combinação de US$ 300 milhões em dinheiro e a emissão de 126,849 milhões de ações da compradora, além de investimentos e projeções de valorização no mercado financeiro.

A Serra Verde é atualmente a única empresa em operação no Brasil dedicada à extração de terras raras em escala industrial, com produção anual de cerca de 6.500 toneladas de óxidos de terras raras (TREO), insumos essenciais para setores estratégicos como tecnologia, energia limpa, defesa e indústria eletrônica.

Controle estratégico e apoio do governo dos EUA

A operação contou com apoio direto do governo norte-americano por meio da Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (DFC), que investiu US$ 565 milhões na Serra Verde. Como parte do acordo, foram estabelecidas cláusulas que garantem prioridade de fornecimento de minerais aos Estados Unidos, além da possibilidade de participação acionária minoritária por parte de investidores norte-americanos.

Esse arranjo reforça o caráter geopolítico da transação, assegurando aos EUA acesso privilegiado a recursos considerados críticos em um momento de crescente competição global por cadeias produtivas estratégicas.

Disputa global por terras raras

A aquisição da Serra Verde se insere na estratégia mais ampla de Washington para reduzir sua dependência da China no setor de terras raras. Atualmente, os chineses dominam mais de 70% da capacidade global de refino desses minerais, o que lhes confere forte influência sobre cadeias industriais globais.

Diante desse cenário, os Estados Unidos têm intensificado esforços para garantir fontes alternativas de suprimento, incluindo investimentos em mineração e processamento fora de seu território, especialmente em países com grandes reservas naturais, como o Brasil.

Venda levanta questionamentos sobre soberania

O valor da transação e seus termos financeiros também chamam atenção. Embora o negócio tenha sido anunciado como uma operação de US$ 2,8 bilhões, apenas uma pequena parcela corresponde a pagamento direto em dinheiro, sendo o restante vinculado a ações e expectativas de valorização futura.

Esse modelo levanta questionamentos sobre a real avaliação do ativo estratégico brasileiro, considerando que o país possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo. A transferência de controle da única operação ativa para uma empresa estrangeira ocorre em um contexto de crescente importância desses minerais para o desenvolvimento tecnológico e a segurança nacional.

Brasil no centro da disputa geopolítica

Com a aquisição, os Estados Unidos dão um passo relevante na consolidação de sua presença sobre recursos minerais estratégicos no Brasil. Ao mesmo tempo, o movimento evidencia a ausência de uma política nacional mais assertiva para proteção e desenvolvimento da cadeia de terras raras.

A exploração desses recursos tende a ganhar ainda mais relevância nos próximos anos, à medida que a transição energética e a digitalização da economia ampliam a demanda global. Nesse contexto, o controle sobre reservas e produção se torna um elemento central da disputa entre grandes potências.

A operação envolvendo a Serra Verde sinaliza, portanto, não apenas uma transação empresarial, mas um movimento geopolítico de longo alcance, com impactos diretos sobre a soberania mineral brasileira e o posicionamento do país na nova economia global.

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