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Entenda o que são terras raras e por que elas são tão importantes na disputa geopolítica entre Estados Unidos e China

Aquisição da mineradora brasileira Serra Verde por empresa dos EUA revela corrida global por minerais estratégicos e abre oportunidades para o Brasil

Bandeiras dos EUA e da China em foto de ilustração - 10/04/2025 (Foto: REUTERS/Dado Ruvic)

247 – A compra da mineradora brasileira Serra Verde Group pela companhia norte-americana USA Rare Earth, anunciada nesta segunda-feira (20) em uma operação de US$ 2,8 bilhões, recolocou no centro do debate global o papel das chamadas terras raras — um conjunto de minerais estratégicos que se tornaram peça-chave na disputa geopolítica entre Estados Unidos e China.

As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos essenciais para a produção de tecnologias avançadas. Apesar do nome, não são necessariamente escassas, mas sua extração e, sobretudo, seu processamento exigem alta capacidade tecnológica, investimentos elevados e controle industrial sofisticado.

Esses elementos são fundamentais para a fabricação de ímãs de alta performance, presentes em veículos elétricos, turbinas eólicas, smartphones, radares, satélites e equipamentos militares. Sem eles, boa parte da economia digital e da transição energética simplesmente não existiria como conhecemos hoje.

Por que as terras raras são estratégicas

O valor estratégico das terras raras está diretamente ligado à sua aplicação em setores críticos para o desenvolvimento econômico e para a soberania nacional. Países que dominam essa cadeia produtiva têm vantagem não apenas industrial, mas também militar e tecnológica.

Atualmente, a China lidera esse mercado com ampla folga. O país concentra a maior parte da produção global e, principalmente, do processamento — etapa que agrega valor e exige maior domínio tecnológico. Essa posição foi construída ao longo de décadas com forte planejamento estatal e políticas industriais agressivas.

Como resultado, Pequim possui uma espécie de “alavanca geopolítica”, podendo influenciar cadeias globais de suprimento e pressionar rivais em momentos de tensão internacional.

A disputa entre Estados Unidos e China

Diante desse cenário, os Estados Unidos passaram a tratar as terras raras como questão de segurança nacional. O objetivo é reduzir a dependência da China e reconstruir sua capacidade industrial, seja internamente, seja por meio de parcerias com países aliados.

A aquisição da Serra Verde se insere exatamente nessa estratégia. Ao incorporar uma das poucas operações fora da Ásia capazes de produzir terras raras pesadas em larga escala, Washington busca fortalecer uma cadeia alternativa sob sua influência.

A disputa ganhou intensidade com a transição energética global. Tecnologias limpas, como carros elétricos e energia eólica, dependem fortemente desses minerais — o que transforma sua oferta em um fator decisivo para o crescimento econômico e a liderança tecnológica no século XXI.

Como o Brasil pode se beneficiar

Nesse contexto, o Brasil surge como um ator potencialmente estratégico. O país possui reservas relevantes de terras raras e condições geológicas favoráveis para ampliar sua produção.

A mina de Pela Ema, em Goiás, operada pela Serra Verde, é um exemplo claro desse potencial. Trata-se de uma das poucas iniciativas fora da Ásia com capacidade de produzir, em escala industrial, elementos essenciais para ímãs de alta performance.

A entrada de capital estrangeiro pode acelerar investimentos, ampliar a produção e inserir o Brasil de forma mais ativa nas cadeias globais. No entanto, também levanta um debate crucial sobre soberania e controle de recursos estratégicos.

Especialistas apontam que o país pode ir além do papel de exportador de matéria-prima. Com políticas industriais adequadas, o Brasil tem condições de avançar para etapas mais sofisticadas da cadeia, como o processamento e a fabricação de componentes de alto valor agregado.

O desafio da soberania

A disputa global por terras raras coloca o Brasil diante de uma escolha estratégica. De um lado, a oportunidade de atrair investimentos e se integrar às cadeias internacionais. De outro, o risco de se tornar apenas fornecedor de recursos naturais, sem capturar os benefícios tecnológicos e industriais.

A experiência da China mostra que o domínio da cadeia completa — da mineração ao produto final — é o que garante poder econômico e geopolítico. Para o Brasil, o desafio será transformar seu potencial mineral em desenvolvimento industrial e autonomia estratégica.

Com o avanço da rivalidade entre Estados Unidos e China, o país pode ocupar uma posição relevante nesse novo tabuleiro global — desde que consiga alinhar seus recursos naturais a uma estratégia nacional de longo prazo.

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