Guerra de Trump e Netanyahu provoca a maior crise energética da história, alerta AIE
Agressões de Estados Unidos e Israel ao Irã ameaçam o abastecimento global de petróleo e gás e pode elevar preços por meses
247 - A guerra no Irã já é considerada o maior risco à segurança energética global de todos os tempos, com impactos severos no fornecimento de petróleo e gás em escala mundial. A avaliação foi feita pelo diretor da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, que alertou para a gravidade inédita da situação e para a possibilidade de uma recuperação lenta dos fluxos energéticos no golfo Pérsico, relata o Financial Times.
Segundo Birol, a interrupção no fornecimento de energia provocada pelo conflito supera, em magnitude, crises históricas como as da década de 1970 e até mesmo os efeitos da guerra entre Rússia e Ucrânia em 2022. Ele destacou que o volume de gás interrompido atualmente é o dobro do que a Europa perdeu naquele período. “É a maior ameaça à segurança energética global da história”, afirmou o chefe da AIE.
O impacto imediato já se reflete nos preços internacionais. Na quinta-feira (19), o barril do petróleo Brent, referência global, chegou a US$ 119,11, o maior valor desde o início de março. Para Birol, tanto governos quanto mercados ainda não compreenderam plenamente a dimensão da crise. “As pessoas entendem que este é um grande desafio, mas não tenho certeza de que a profundidade e as consequências da situação estão sendo bem compreendidas”, declarou.
O bloqueio no estreito de Ormuz, uma das principais rotas de transporte de energia do mundo, tem sido decisivo para agravar o cenário. A região responde por cerca de 20% das exportações globais de petróleo e gás, e a restrição ao tráfego marítimo compromete diretamente o abastecimento internacional. Mesmo em caso de cessar-fogo e reabertura da rota, a normalização das operações não será imediata. “Levará seis meses para alguns [locais] estarem operacionais, outros muito mais”, previu Birol, referindo-se aos campos de petróleo e gás danificados ou paralisados.
Além do impacto direto na energia, a crise afeta cadeias produtivas globais. A interrupção das chamadas “artérias vitais” compromete o fornecimento de fertilizantes, petroquímicos, enxofre e hélio, insumos essenciais para setores como agricultura, indústria e manufatura. “Estas são commodities vitais para a economia global”, destacou o executivo.
Para mitigar os efeitos da escassez, a AIE anunciou recentemente a liberação de 400 milhões de barris de petróleo e derivados dos estoques dos países do G7, o equivalente a 20% das reservas disponíveis. Ainda assim, Birol reconheceu que a medida é insuficiente para compensar a perda de fornecimento do Oriente Médio. “Ainda temos 80% no bolso”, afirmou, acrescentando que negociações estão em curso com países como Canadá, México, Brasil e Noruega para ampliar a produção.
O dirigente também alertou para riscos de decisões políticas equivocadas, especialmente na Europa. Ele defendeu a manutenção das sanções ao gás russo, argumentando que retomar a dependência energética de Moscou seria um erro estratégico. “O gás russo custaria próximo ao preço atual do gás na Europa hoje”, disse, observando ainda que os gasodutos Nord Stream seguem inoperantes e que a confiabilidade da Rússia como fornecedora foi comprometida.
Birol avaliou que a atual crise pode desencadear mudanças estruturais nas políticas energéticas globais, a exemplo do que ocorreu após os choques do petróleo nos anos 1970. “Houve três respostas. Mais de 40% da energia nuclear que temos hoje foi construída em resposta àquela crise. A quantidade de combustível que o carro médio usa caiu pela metade nos 10 anos após o choque. E os países mudaram suas rotas comerciais”, relembrou.
Diante do novo cenário, ele projeta uma aceleração na transição energética, com maior investimento em fontes renováveis, expansão da energia nuclear, avanço dos veículos elétricos e, simultaneamente, um possível aumento no uso do carvão como alternativa ao gás natural.


