Treinador espanhol na Índia é citado como sócio em operação de R$ 468 milhões com o Banco Master
Empresa registrada em São Paulo recebeu empréstimo bilionário e direcionou recursos a fundo ligado à Reag, segundo investigação do MPF
247 - Um treinador espanhol que atua no futebol indiano aparece como sócio de uma empresa brasileira envolvida em uma operação financeira de grande porte investigada pelo Ministério Público Federal (MPF). A companhia teria recebido um empréstimo de R$ 468,8 milhões do Banco Master e, logo depois, direcionado quase todo o montante para um fundo de investimento administrado pela Reag, que reunia ativos de baixo valor de mercado, revelou o jornal O Globo.
O caso integra um inquérito que apura um possível esquema de concessão de crédito seguido de reaplicação sistemática dos recursos em fundos específicos, com indícios de reavaliações artificiais de ativos financeiros.
A empresa citada é a BMQ Mirage, registrada em São Paulo como atacadista de produtos alimentícios e com capital social declarado de R$ 900 mil. Apesar disso, a companhia recebeu do Banco Master um empréstimo centenas de vezes superior ao seu capital e, em seguida, aportou cerca de R$ 444 milhões em um fundo ligado à Reag. Na carteira desse fundo constavam papéis considerados sem valor do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc).
Entre os sócios da BMQ Mirage consta o nome do espanhol Juan Pedro Benali Hammou, técnico do NorthEast United, clube que disputa a Super League da Índia. Procurado, ele negou qualquer vínculo com empresa no Brasil e afirmou desconhecer completamente a operação financeira. “Sou um treinador de futebol. Não faço ideia de uma empresa no Brasil. Só conheço pessoas ligadas ao futebol”, disse.
Os registros cadastrais da empresa indicam que Juan Pedro é espanhol — informação confirmada por ele — e apontam residência em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, onde o treinador afirma já ter vivido. Também aparece vinculado ao seu nome um CPF brasileiro, com data de nascimento correta, documento que ele diz não reconhecer.
Outro personagem citado nos dados da empresa é o contador João Fernando Machado de Miranda, que teria sido procurador do técnico em 2012, quando a firma foi constituída. Miranda afirmou que deixou a empresa em 2013 e que, à época, atuou em um aporte de R$ 500 mil enviado por Juan Pedro. Segundo ele, houve contato direto com o treinador naquele período e a empresa teria sido criada para atuar no setor sucroalcooleiro, projeto que não prosperou.
Após obter a procuração usada na constituição da companhia, o técnico espanhol foi novamente questionado. Ele reconheceu a assinatura no documento e reagiu com surpresa: “Como eles conseguiram a minha assinatura? Estou ficando com medo”, afirmou.
O contrato de crédito firmado entre a BMQ Mirage e o Banco Master, assinado em junho de 2024, contém uma cláusula que determina que pelo menos 90% do valor do empréstimo fosse depositado em um fundo administrado pela Reag. O advogado Pedro Jaguaribe, responsável pela defesa da empresa, apresentou versões distintas sobre a operação. Inicialmente, afirmou que o empréstimo havia sido quitado. Posteriormente, disse que o contrato foi desfeito e que a operação não chegou a se concretizar.
Sobre o aporte no fundo da Reag, Jaguaribe classificou o episódio como uma “questão contábil” e sustentou que não houve investimento efetivo, posição que converge com a linha de apuração do MPF. Questionado sobre o papel do treinador espanhol, o advogado afirmou que Juan Pedro é um sócio investidor estrangeiro e declarou surpresa com a negativa pública do técnico. “Desconheço, até porque a gente está sempre falando com o Juan Pedro”, disse.
As investigações conduzidas pela empresa Compliance Zero apontam que o Banco Master concedia empréstimos a empresas que, na sequência, reaplicavam os recursos em fundos da Reag. O rastreamento do fluxo financeiro revela uma sequência de transferências rápidas entre fundos, em um curto intervalo de tempo, envolvendo ativos de baixa liquidez. Ao longo dessas operações, os papéis passavam por reavaliações sucessivas, resultando em valores inflados muito acima de qualquer parâmetro de mercado. Em um dos casos analisados, a valorização chegou a 10.502.205%. Ao final do processo, os recursos retornavam ao banco por meio da compra de CDBs, encerrando o ciclo financeiro sob investigação.


