Trump ameaça França com tarifa de 100% e pressiona por isenção para big techs
Trump ameaça tarifa de 100% contra a França e amplia pressão para barrar imposto sobre big techs dos EUA
247 - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a elevar a tensão comercial com a França ao ameaçar impor uma tarifa de 100% sobre vinhos franceses e champanhes caso Paris mantenha um imposto sobre serviços digitais aplicado a grandes empresas de tecnologia, incluindo companhias norte-americanas como Facebook, Amazon, Apple e Alphabet, controladora do Google.
A ameaça foi feita em entrevista ao New York Post, publicada nesta segunda-feira (15), antes de um encontro entre Trump e o presidente francês, Emmanuel Macron, em Evian, às margens do Lago Genebra, onde ocorre a cúpula do G7. O imposto francês, criado em 2019, estabelece cobrança de 3% sobre receitas obtidas por empresas de tecnologia dentro do território do país.
Macron afirmou que pretende tratar do tema diretamente com o presidente norte-americano, mas indicou que a França não pretende recuar sem debate. “Teremos uma discussão respeitosa, mas firme”, disse o presidente francês a uma emissora de televisão antes da reunião com Trump.
O líder francês também criticou o uso de tarifas como instrumento de pressão entre aliados. “Tarifas não fazem bem a ninguém, especialmente tarifas entre países do G7”, afirmou Macron, ao defender maior “estabilidade” nas relações comerciais.
Na entrevista ao Post, Trump disse ter pedido a Macron que desistisse da cobrança sobre as empresas dos Estados Unidos. “Para não cobrar das empresas americanas”, declarou o presidente norte-americano, segundo o relato publicado.
Trump afirmou ainda que poderá retaliar diretamente um dos setores mais simbólicos da economia francesa. “Se eles cobrarem, não tenho escolha senão impor uma tarifa de 100% sobre todos os champanhes e todos os vinhos vindos da França”, disse.
O republicano também responsabilizou Macron pela possibilidade de uma escalada tarifária. “Tudo o que ele precisa fazer é eliminar o imposto sobre vendas, e ele não teria esse tipo de pressão”, afirmou Trump sobre o presidente francês.
Setor de vinhos teme impacto nas exportações
A nova ameaça provocou reação entre representantes do setor exportador francês. Gabriel Picard, presidente da Federação Francesa de Exportadores de Vinhos e Destilados (FEVS), defendeu a manutenção de uma relação comercial estável entre os dois países.
Picard pediu a preservação de uma “relação comercial equilibrada e construtiva entre a França e os Estados Unidos, no interesse de ambas as economias”. Para o dirigente, a disputa envolve temas que não dependem diretamente do setor de bebidas, mas podem atingir duramente produtores e exportadores franceses.
“[A disputa] diz respeito a questões que estão fora do nosso escopo de atuação, embora nossas empresas possam sofrer diretamente as consequências... Essa nova ameaça é uma má notícia para o nosso setor altamente voltado para exportação”, disse Picard à AFP.
Estados Unidos são principal mercado para vinhos franceses
De acordo com a FEVS, os Estados Unidos são o maior importador de vinhos e destilados franceses, responsáveis por 21% do mercado total de exportação no ano passado. O setor já enfrenta dificuldades, uma vez que vinhos franceses e europeus enviados ao mercado norte-americano passaram a pagar tarifa de 15%, acima dos 10% anteriores.
A federação informou ainda que as exportações de vinhos e destilados franceses para os Estados Unidos caíram 21% no ano passado, ampliando a preocupação com uma eventual nova rodada de medidas protecionistas.
Dados da agência alfandegária francesa mostram que os Estados Unidos importaram 2,9 bilhões de euros, o equivalente a R$ 19,4 bilhões, em vinhos e destilados entre maio de 2025 e abril de 2026. O volume representou 18% do total das exportações francesas do setor.
Com esse desempenho, os Estados Unidos se mantiveram como o maior mercado individual para os produtores franceses, à frente do Reino Unido, com 11%, e da Alemanha, com 6%.
Champanhe e conhaque concentram parte expressiva das vendas
Entre os produtos mais relevantes na pauta exportadora francesa, champanhe e conhaque responderam por 40% do valor exportado, com cerca de 600 milhões de euros, ou R$ 3,51 bilhões, cada. Na sequência aparecem os vinhos tintos de Bordeaux, com 220 milhões de euros, ou R$ 1,29 bilhão, e os brancos da Borgonha, com 170 milhões de euros, ou R$ 995,62 milhões.
Algumas regiões produtoras são especialmente dependentes do mercado norte-americano. Produtores de vinhos brancos do Vale do Loire destinam 45% de suas exportações aos Estados Unidos, enquanto Beaujolais envia 30%. No caso do champanhe, 16% das exportações seguem para o mercado americano.
Ameaças tarifárias se repetem
A pressão de Trump sobre produtos franceses não é inédita. Em janeiro, ele ameaçou impor tarifas de 200% sobre vinhos franceses em razão da intenção da França de recusar um convite para integrar seu “Conselho da Paz”, voltado à resolução de conflitos internacionais.
Durante seu primeiro mandato, Trump também ameaçou aplicar tarifas sobre importações norte-americanas de champanhe e queijos franceses.
A controvérsia em torno dos impostos sobre serviços digitais envolve uma disputa mais ampla sobre a tributação de grandes empresas de tecnologia. Defensores desse tipo de cobrança afirmam que o objetivo é fazer com que essas companhias paguem impostos nos países onde realizam negócios, além de limitar estratégias de otimização fiscal.
No ano passado, o Canadá decidiu eliminar seu imposto sobre serviços digitais para preservar negociações comerciais com os Estados Unidos, após pressão de Trump. Agora, a França volta ao centro de uma disputa que combina tecnologia, comércio internacional e setores tradicionais da economia europeia.



