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Wall Street já teme “apocalipse do petróleo”

Fechamento do Estreito de Ormuz, escalada militar dos EUA e retaliação iraniana elevam temor de petróleo a US$ 200 e de choque global de combustíveis

Exploração de petróleo na Índia (Foto: Agência ANI)

247 – A guerra travada pelos Estados Unidos contra o Irã e o fechamento prolongado do Estreito de Ormuz acenderam um alerta máximo em Wall Street, com bancos, corretoras e analistas prevendo uma crise energética longa, marcada por forte alta do petróleo, escassez de combustíveis e impacto disseminado sobre a economia mundial. As informações foram publicadas pelo Financial Times e reproduzidas pelo Valor Econômico.

Segundo a reportagem, operadores e analistas ouvidos nesta sexta-feira (3) afirmam que há poucos sinais de uma solução rápida para o conflito no Oriente Médio. Nesse cenário, o petróleo Brent já superou a marca de US$ 100 por barril, enquanto cresce a avaliação de que uma interrupção mais duradoura nas exportações da região pode desorganizar o abastecimento global de combustíveis de transporte e derivados.

Mercado já sente os efeitos físicos da crise

A percepção dominante entre analistas é que a crise deixou de ser apenas um risco geopolítico e passou a produzir efeitos concretos no mercado físico de energia. Natasha Kaneva, analista do J.P. Morgan, afirmou em nota: “Até o fim da próxima semana, esperamos que os cortes na oferta de petróleo bruto se aproximem de 12 milhões de barris por dia, tornando o déficit altamente visível nos mercados físicos.”

Ela também destacou o impacto imediato sobre os derivados: “O mercado enfrenta uma escassez aguda de produtos – diesel, combustível de aviação, [gás liquefeito de petróleo] e nafta – que simplesmente não podem ser consumidos porque não estão disponíveis.”

A leitura do banco é de que o fechamento do estreito já está provocando uma ruptura de oferta suficientemente severa para pressionar não apenas o preço do barril, mas também itens essenciais para transporte, logística, indústria e aviação. Trata-se de um quadro que amplia o risco de contaminação da economia real, com reflexos em inflação, consumo e atividade produtiva.

Bancos elevam projeções e veem guerra mais longa

Outras instituições financeiras também passaram a revisar de forma agressiva seus cenários. O RBC Capital Markets informou que espera que o petróleo ultrapasse o pico de US$ 128 registrado semanas depois da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022, e supere ainda o recorde histórico de cerca de US$ 147 por barril observado em 2008.

Helima Croft, chefe global de commodities do RBC, resumiu a reavaliação do banco: “Estamos revisando nossa estimativa de duração da guerra com o Irã e os impactos simultâneos nos preços do petróleo.” Na mesma avaliação, ela acrescentou que o conflito pode “entrar bem pela primavera”, indicando a expectativa de uma crise prolongada.

O Goldman Sachs, por sua vez, estima que o fluxo de petróleo através do Estreito de Ormuz despencou para 600 mil barris por dia, um volume dramaticamente inferior ao padrão normal, superior a 19 milhões de barris diários. A comparação ilustra a dimensão do choque: o nível habitual de passagem pelo estreito se aproxima da produção total de petróleo dos Estados Unidos.

Ormuz se torna centro da tempestade global

O Estreito de Ormuz é uma das passagens marítimas mais sensíveis do planeta. Por ele transita normalmente cerca de um quinto do fornecimento global de petróleo e gás natural liquefeito. Seu fechamento efetivo, portanto, representa uma ameaça sistêmica à segurança energética mundial.

À medida que a guerra entra em sua terceira semana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou a retórica militar ao afirmar que Washington dispõe de “munição ilimitada” e que poderia continuar lutando contra o Irã “para sempre”. Em resposta, Teerã lançou ataques contra infraestrutura energética em toda a região do Golfo e consolidou o bloqueio do estreito.

A escalada ganhou novo capítulo nesta sexta-feira (3), quando um ataque de drone iraniano provocou caos no distrito financeiro de Dubai, enquanto países europeus tentavam abrir canais de negociação com Teerã para restabelecer os fluxos de energia através da via marítima.

“Apocalipse do petróleo” entra no vocabulário dos analistas

O grau de preocupação já levou alguns especialistas a recorrerem a expressões extremas para descrever o cenário. Jim Krane, do Baker Institute, da Universidade Rice, afirmou: “Fechar o Estreito de Ormuz deveria ser o apocalipse do petróleo.” Em seguida, reforçou: “Pode ficar muito pior do que já está.”

A frase sintetiza o temor de que o mercado esteja apenas no início de uma desorganização mais ampla. Desde que Trump iniciou a guerra, o Brent acumula alta de cerca de 40%, enquanto os preços de derivados como combustível de aviação e diesel dispararam na Ásia, na Europa e na América do Norte.

Nos Estados Unidos, o preço da gasolina chegou a US$ 3,63 por galão nesta sexta-feira, aproximando-se do nível de US$ 4, considerado politicamente sensível e economicamente crítico, após 13 dias seguidos de alta. Esse encarecimento do combustível, em um país altamente dependente do transporte rodoviário, amplia o risco de desgaste econômico e político interno.

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