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Revista New Yorker detalha o fracasso de Trump e Hegseth no Irã

Reportagem aponta contradições entre discurso triunfalista da Casa Branca e resultados limitados da ofensiva militar contra Teerã

Donald Trump e Pete Hegseth na Casa Branca - 05/09/2025 (Foto: REUTERS/Brian Snyder)

247 – O discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a guerra contra o Irã contrasta com a realidade no campo de batalha e tem sido alvo de críticas contundentes. Em análise publicada pela revista The New Yorker, a condução do conflito pela Casa Branca é descrita como marcada por exageros retóricos, falhas estratégicas e consequências políticas adversas.

Segundo o texto da The New Yorker, Trump tentou apresentar como vitória uma ofensiva que não alcançou seus principais objetivos. Em pronunciamento à nação, o presidente afirmou: “Nós derrotamos e destruímos completamente o Irã” e declarou ainda que “Nunca na história da guerra um inimigo sofreu perdas tão claras e devastadoras em larga escala em questão de semanas.”

Apesar das declarações, o cenário descrito pela reportagem indica que o regime iraniano permanece intacto. A Guarda Revolucionária segue no controle do país e mantém domínio sobre o Estreito de Ormuz, ponto estratégico para o abastecimento global de petróleo. Mesmo após semanas de bombardeios e a eliminação de lideranças, não houve mudança estrutural no poder em Teerã.

Ainda assim, Trump sustentou que a operação estaria próxima do fim, afirmando que a missão estava “se aproximando da conclusão”. Ao mesmo tempo, fez novas ameaças ao Irã, caso não haja acordo. Segundo ele, “vamos atingi-los de forma extremamente dura nas próximas duas ou três semanas. Vamos levá-los de volta à Idade da Pedra, onde eles pertencem.”

A própria fala, no entanto, é interpretada como sinal de limitação estratégica. O prazo mencionado pelo presidente sugere que não haveria tempo suficiente para executar planos mais ambiciosos anteriormente cogitados, como uma invasão aos portos petrolíferos da ilha de Kharg ou operações para capturar material nuclear.

A postura de Trump também se estendeu aos aliados dos Estados Unidos. Em vez de coordenar uma saída diplomática, ele ironizou países que defendiam negociações para aliviar a crise no Estreito de Ormuz. Em tom provocador, afirmou que esses aliados deveriam reunir coragem tardia e sugeriu que, se quisessem restabelecer o fluxo de petróleo, deveriam ir até o estreito e assumir o controle.

A reportagem interpreta essa atitude como parte de uma visão de mundo baseada na força e no interesse próprio, em detrimento de alianças tradicionais. Esse posicionamento, segundo o artigo, reflete uma diretriz central do atual governo: a substituição da diplomacia por demonstrações de poder bruto.

O texto também relembra episódio anterior envolvendo o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, a quem Trump disse: “Você está enterrado ali”, em referência à situação militar do país.

O secretário de Defesa, Pete Hegseth, aparece como um dos principais formuladores e executores dessa estratégia. Descrito como um defensor radical da ideia de vitória pela força, Hegseth tem promovido o conceito de “letalidade máxima” como eixo da ação militar. Em discurso a oficiais, afirmou: “Liberamos uma violência esmagadora e punitiva sobre o inimigo.” Também declarou: “Nós também não lutamos com regras de engajamento estúpidas... apenas bom senso, letalidade máxima e autoridade para os combatentes” e concluiu: “Você mata pessoas e destrói coisas para viver.”

Segundo a The New Yorker, essa lógica teve consequências diretas na condução da guerra. Os ataques iniciais, iniciados em 28 de fevereiro, mataram o líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, mas também eliminaram figuras políticas que poderiam compor uma alternativa de poder mais alinhada aos interesses dos Estados Unidos. O próprio Trump reconheceu o problema ao afirmar: “A maioria das pessoas que tínhamos em mente está morta.”

Com isso, os remanescentes no cenário político iraniano passaram a ser descritos como ainda mais radicais, o que dificulta qualquer tentativa de negociação ou transição. Um dos objetivos declarados pela Casa Branca — estimular uma revolta popular contra o regime — torna-se, assim, ainda mais distante.

A reportagem também destaca o impacto humanitário da estratégia adotada. Segundo investigação preliminar citada no texto, no mesmo dia em que Khamenei foi morto, um bombardeio atingiu por engano uma escola primária, resultando na morte de quase 200 pessoas. O episódio evidencia, segundo a análise, os riscos de uma abordagem militar baseada na força indiscriminada.

Ao reunir esses elementos, a The New Yorker conclui que a ofensiva liderada por Trump e Hegseth revela mais fragilidades do que conquistas. A tentativa de vender o conflito como vitória esbarra em uma realidade marcada por instabilidade persistente, erros estratégicos e um custo humano elevado, expondo os limites de uma política externa centrada na agressividade militar.

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