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Tucker Carlson diz que derrota de Trump no Irã marca o fim do império americano e aponta guinada histórica

Apresentador sustenta que a crise no Estreito de Ormuz expõe os limites do poder americano e acelera a transição para uma nova ordem mundial

Tucker Carlson (Foto: Reprodução Youtube)

247 – Em vídeo publicado no YouTube, o comentarista Tucker Carlson, um dos personagens mais influentes dos Estados Unidos, interpreta o discurso feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a guerra contra o Irã como um marco histórico: o início do fim do império global norte-americano tal como foi concebido nas últimas décadas. Ao analisar a fala de Trump, Carlson sustenta que Washington reconheceu, ainda que de forma indireta, sua incapacidade de impor sozinho a ordem internacional em uma das regiões mais estratégicas do planeta.

Segundo Carlson, três pontos centrais emergem da fala de Trump: a ausência de menção ao envio de tropas terrestres, a perspectiva de retirada em algumas semanas e a rejeição explícita à mudança de regime no Irã. Ainda assim, o comentarista adverte que, em guerras, promessas iniciais quase nunca resistem ao desenrolar dos acontecimentos. “Todas essas guerras começaram com promessas semelhantes”, afirma, observando que, uma vez iniciado um conflito, torna-se impossível prever onde ele terminará.

Discurso de Trump e as dúvidas sobre a guerra

Na leitura de Carlson, embora Trump tenha dito que não busca mudança de regime em Teerã, os sinais vindos do terreno apontariam para contradições. O comentarista menciona o deslocamento de militares americanos para o Golfo Pérsico e argumenta que isso pode indicar, no mínimo, que a opção por tropas em solo continua aberta. Para ele, qualquer tentativa de subjugar totalmente o Irã, exigir rendição incondicional ou impor uma nova liderança exigiria uma escalada muito maior do que simples bombardeios aéreos.

Carlson vai além e adverte para o risco de agravamento extremo do conflito, inclusive com o uso de armas não convencionais. Nesse ponto, ele ressalta que as consequências seriam imprevisíveis e devastadoras. Em vez de tratar o embate apenas como mais uma guerra regional, o apresentador argumenta que se trata de uma inflexão histórica global. Em suas palavras, a questão central não é apenas o Irã, mas “quem controla o mundo, quem manda no mundo, onde estão os verdadeiros centros de poder”.

Estreito de Ormuz no centro da disputa global

O eixo central da análise de Carlson é o Estreito de Ormuz, passagem marítima vital para o escoamento de energia e outros insumos estratégicos. Segundo ele, o país que for capaz de reabrir e garantir a navegação nesse corredor será, na prática, o país que demonstrará deter o verdadeiro poder global.

Para o comentarista, o Irã não deve ser compreendido principalmente como potência militar, mas como potência geográfica e econômica. Ele sustenta que a força de Teerã deriva de sua posição no lado norte do Estreito de Ormuz, o que lhe daria capacidade de afetar diretamente o fluxo do comércio mundial. “A geografia é o fato mais importante de um país”, afirma Carlson, ao defender que a localização iraniana é a base real de seu poder.

Na argumentação do apresentador, o fechamento do estreito poderia ser mantido com meios relativamente simples, como minas, drones, barcos explosivos e ameaças assimétricas, enquanto sua reabertura exigiria muito mais do que força bruta. Por isso, ele rejeita a ideia de uma solução puramente militar. “Você não pode bombardear seu caminho até um estreito aberto”, diz. Para Carlson, manter a rota funcional exigiria algum grau de consentimento político e autoridade local capaz de garantir a ordem.

O que é poder, segundo Carlson

Um dos trechos mais enfáticos do comentário é a definição de poder apresentada por Carlson. Para ele, poder não é a capacidade de destruir, mas a capacidade de restaurar a ordem. “Poder é a habilidade de restaurar a ordem”, afirma. A partir dessa formulação, ele conclui que a nação que conseguir restabelecer a normalidade no Golfo Pérsico e reabrir o Estreito de Ormuz será, por definição, a nação que estará no comando do sistema internacional.

Durante décadas, prossegue Carlson, o mundo presumiu que esse papel caberia naturalmente aos Estados Unidos. Mas, segundo ele, o conflito iniciado em 28 de fevereiro teria quebrado essa percepção, sobretudo entre os aliados árabes de Washington no Golfo. Em sua análise, esses países descobriram rapidamente que os Estados Unidos “não puderam ou não quiseram” impedir ataques iranianos e restaurar a segurança regional.

Carlson cita, nesse contexto, Emirados Árabes Unidos, Qatar e Arábia Saudita como exemplos de países profundamente afetados pela guerra e pela incapacidade americana de protegê-los. Segundo ele, essa percepção altera radicalmente as expectativas globais e representa uma reordenação do poder internacional.

Trump, Irã e a admissão de um limite estratégico

Outro ponto que Carlson considera altamente significativo é a sinalização de Trump de que o Irã continuará, de algum modo, no comando de si mesmo quando o conflito terminar. Ao comentar a fala do presidente, o apresentador sustenta que, ao afirmar que o estreito será reaberto porque o próprio Irã precisará voltar a vender petróleo, Trump reconhece implicitamente que os Estados Unidos não escolherão quem governará o país persa ao fim da guerra.

Para Carlson, isso equivale a uma admissão estratégica de grande alcance. Ele argumenta que os aliados de Washington no Oriente Médio esperavam precisamente o contrário: que os Estados Unidos destruíssem a capacidade de comando iraniana e impusessem uma nova configuração de poder. Mas, na avaliação do comentarista, o próprio discurso de Trump aponta para outra realidade.

O momento decisivo, segundo Carlson, veio quando Trump declarou que os países que dependem do petróleo que passa pelo Estreito de Ormuz deveriam eles próprios proteger essa passagem, com ajuda eventual dos Estados Unidos, mas sem liderança americana direta. Para o apresentador, essa fala é a verdadeira mensagem histórica do discurso presidencial. Em sua leitura, Trump basicamente afirmou: se esse corredor é vital para outros países, que eles mesmos o reabram.

China surge como principal beneficiária potencial

Ao perguntar quem teria condições reais de influenciar a reabertura do Estreito de Ormuz, Carlson descarta a Europa e aponta a China como o ator mais relevante. Segundo ele, europeus não dispõem de capacidade militar nem de autonomia geopolítica para uma operação desse tipo. Na sua visão, a mensagem de Trump não seria dirigida a França, Alemanha ou Reino Unido, mas a Pequim.

Carlson argumenta que a China possui relações comerciais profundas tanto com os países do Golfo quanto com o próprio Irã, além de depender fortemente da energia da região. Por isso, diz ele, o poder chinês nessa crise não viria principalmente de porta-aviões ou demonstrações militares, mas de seu peso econômico e de sua capacidade de negociação.

Em um dos trechos centrais do vídeo, Carlson sustenta que Pequim pode, se quiser, deixar a dor econômica se prolongar por algum tempo para tornar ainda mais visível a perda de capacidade de liderança dos Estados Unidos. A lógica, segundo ele, seria simples: quanto mais tempo o impasse durar, mais clara se tornará a mensagem para países asiáticos como Taiwan, Japão, Coreia do Sul e Filipinas de que Washington talvez não tenha capacidade de protegê-los em um confronto com a China.

O fim do “momento unipolar”

Na parte mais abrangente de sua análise, Carlson afirma que o verdadeiro significado político da crise é o encerramento do chamado “momento unipolar”, período em que os Estados Unidos se viam e eram vistos como potência capaz de impor sozinhos as regras do sistema internacional. “O momento unipolar acabou”, resume o comentarista, ao afirmar que isso já era verdadeiro havia anos, mas agora se tornará impossível negar.

Ainda assim, ele sustenta que esse processo não precisa significar o colapso definitivo dos Estados Unidos. Ao contrário, Carlson diz que a perda da capacidade imperial pode abrir caminho para um novo tipo de prosperidade americana, ancorada não em finanças globais e guerras intermináveis, mas em recursos reais, produção material e reorganização estratégica do hemisfério ocidental.

Ele afirma que Trump, a seu modo, compreende um aspecto essencial da disputa contemporânea: a riqueza e o poder derivam, em última instância, de recursos físicos. “Comida, água e energia” seriam, segundo Carlson, os três pilares da prosperidade e da força de uma nação. Nessa chave, ele argumenta que os Estados Unidos, junto com o restante do continente americano, possuem vantagens naturais decisivas.

Brasil entra no raciocínio geopolítico do comentarista

Em um trecho que chama atenção, Carlson cita o Brasil como exemplo de país que deveria ganhar mais importância no pensamento estratégico de Washington caso os Estados Unidos deixem para trás a lógica do império global e passem a concentrar-se em seu próprio hemisfério.

Segundo ele, um país que pensasse com clareza estratégica daria mais atenção ao que ocorre no Brasil, em razão de suas reservas de água doce, terras agrícolas e energia. Carlson descreve o Brasil como uma grande nação do hemisfério ocidental, rica em recursos e potencialmente central em uma nova visão geopolítica dos Estados Unidos.

Na mesma linha, ele também menciona Canadá e México, argumentando que o peso desses países tende a crescer ainda mais se a influência americana recuar do Oriente Médio e se concentrar em seu entorno continental. Seu raciocínio é o de que uma reorientação estratégica voltada ao hemisfério ocidental seria mais racional do que a manutenção de uma presença imperial custosa e insustentável em regiões distantes.

Crítica ao neoconservadorismo e ao papel de Israel

Nos momentos finais do comentário, Carlson endurece o tom político e ideológico. Ele afirma que a guerra expôs o fracasso de ideias associadas ao neoconservadorismo, à preservação do império e à subordinação da política externa americana a interesses de aliados externos, especialmente Israel.

“Americanos morreram por isso, por instigação de Israel, sem nenhum benefício material para o nosso país”, diz ele. Carlson sustenta que esse fato está agora plenamente visível e que, por isso, certos debates deixaram de poder ser abafados ou tratados como teoria da conspiração. Em sua avaliação, a guerra tornou explícitas contradições que antes eram apenas sussurradas nos bastidores da política americana.

Ataque ao evangelicalismo político nos EUA

Carlson também dedica uma parte longa de sua fala à crítica de lideranças protestantes americanas que, segundo ele, legitimaram moralmente a guerra.

Na avaliação do comentarista, parte importante do protestantismo conservador dos Estados Unidos abandonou os ensinamentos centrais do cristianismo e passou a justificar a morte de inocentes e a escalada bélica. Ao contrapor a mensagem de Jesus à defesa de ações militares contra civis, Carlson diz que a crise atual também representa o esgotamento de uma forma específica de religiosidade política que se consolidou no pós-guerra nos EUA.

Para ele, esse colapso não é apenas geopolítico, mas também espiritual e institucional. Ao lado do fim do império global americano, o comentarista enxerga também o declínio de instituições religiosas e ideológicas que, em sua visão, perderam qualquer vínculo com seus fundamentos originais.

Uma ruptura histórica, segundo Carlson

No desfecho do vídeo, Tucker Carlson apresenta o momento atual como uma transição dolorosa, porém inevitável. A seu ver, o império americano está chegando ao fim não porque alguém o decidiu, mas porque os Estados Unidos teriam alcançado os limites concretos de seu poder. A incapacidade de garantir a reabertura do Estreito de Ormuz, diz ele, seria a prova mais eloquente dessa nova realidade.

Ainda segundo o comentarista, esse fim pode trazer sofrimento, humilhação e instabilidade econômica, mas também pode abrir a possibilidade de reconstrução em novas bases. “O que está acontecendo no Irã é o fim do império americano como o entendemos”, afirma Carlson. Em seguida, acrescenta que isso não precisa ser o fim dos Estados Unidos, mas o começo de outra etapa.

A conclusão do vídeo é marcada por um tom quase civilizacional. Carlson sustenta que grandes instituições estão morrendo diante dos olhos do mundo, mas argumenta que esse processo pode ser pré-condição para o surgimento de estruturas mais verdadeiras, mais construtivas e menos orientadas pela destruição. É nessa chave que ele encerra sua análise: como um diagnóstico dramático do presente e, ao mesmo tempo, como um anúncio de reorganização do poder global.

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