Aviões abatidos elevam pressão sobre Trump em guerra contra o Irã
Queda de duas aeronaves dos Estados Unidos expõe limites da ofensiva aérea, amplia risco político para a Casa Branca e agrava tensão no Oriente Médio
247 – A derrubada de duas aeronaves militares dos Estados Unidos sobre o Irã e a região do Golfo elevou neste sábado a pressão sobre o presidente Donald Trump, em um momento em que Teerã intensifica as buscas por um piloto americano desaparecido. As informações foram publicadas pela Reuters, que relata o resgate de dois militares dos EUA e a mobilização iraniana para localizar um integrante das forças americanas que segue desaparecido.
Segundo a agência, os episódios revelam que, apesar das declarações de Trump e do secretário de Defesa, Pete Hegseth, sobre o suposto controle total do espaço aéreo, aviões dos Estados Unidos e de Israel continuam expostos a riscos significativos no conflito, que entrou em sua sexta semana. A perspectiva de um militar americano vivo e em fuga dentro do território iraniano aumenta dramaticamente o peso político e militar da guerra para Washington, sobretudo diante do baixo apoio popular dos norte-americanos à escalada.
De acordo com autoridades dos dois lados citadas pela Reuters, um caça F-15E de dois assentos foi abatido sobre o Irã. Já dois funcionários dos EUA disseram que o piloto de um A-10 Warthog conseguiu se ejetar antes da queda da aeronave no Kuwait, após também ter sido atingida por fogo iraniano. Dois tripulantes foram resgatados, mas ainda não está claro qual é o estado de saúde dos envolvidos.
A situação se agravou ainda mais quando, segundo os mesmos funcionários ouvidos pela Reuters, dois helicópteros Black Hawk que participavam da operação de busca pelo piloto desaparecido foram atingidos por disparos iranianos, embora tenham conseguido sair do espaço aéreo do Irã. O episódio reforça o ambiente de vulnerabilidade enfrentado pelas forças americanas em uma guerra que, longe de estar controlada, se mostra cada vez mais imprevisível.
Do lado iraniano, a Guarda Revolucionária informou que realizava buscas em uma área do sudoeste do país próxima ao local onde o avião caiu. Em tom de desafio, um governador regional prometeu condecoração a qualquer pessoa que capturasse ou matasse integrantes das chamadas “forças do inimigo hostil”. O endurecimento do discurso reflete a tentativa de Teerã de transformar militarmente e simbolicamente o abatimento das aeronaves em uma resposta à campanha de bombardeios conduzida por Estados Unidos e Israel desde 28 de fevereiro.
A repercussão interna no Irã foi imediata. Segundo a Reuters, setores da população atingidos durante semanas pelo poder de fogo americano comemoraram a derrubada dos aviões. O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, escreveu na rede X que a guerra havia sido “rebaixada de mudança de regime para uma caçada a pilotos”. A frase expõe o esforço do establishment iraniano para ridicularizar os objetivos iniciais da ofensiva lançada por Washington e seus aliados.
Na Casa Branca, Trump passou o sábado recebendo atualizações sobre a operação de resgate, segundo um alto funcionário do governo ouvido pela Reuters. O Pentágono e o Comando Central dos Estados Unidos não responderam de imediato aos pedidos de comentário da agência. O silêncio institucional, em meio à multiplicação de incidentes e perdas, tende a ampliar as dúvidas sobre a condução estratégica da guerra.
O conflito já provocou milhares de mortes, desencadeou uma crise energética e elevou os temores de danos duradouros à economia global desde os ataques iniciais que mataram o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, segundo a Reuters. O Comando Central dos EUA afirma que 13 militares americanos morreram até agora e mais de 300 ficaram feridos. Esses números ajudam a explicar por que o caso do piloto desaparecido tem potencial para se tornar um divisor de águas no debate político interno dos Estados Unidos.
Em outra frente de tensão, a Reuters informou que o Irã comunicou a mediadores que não está disposto a se reunir com autoridades americanas em Islamabad nos próximos dias. Ainda segundo a reportagem, os esforços liderados pelo Paquistão para alcançar um cessar-fogo teriam chegado a um impasse. A notícia sugere que, ao menos no curto prazo, a via diplomática permanece bloqueada.
Enquanto isso, os efeitos da guerra se espalham pelo Oriente Médio. O Irã tem lançado drones e mísseis contra Israel e também voltado sua atenção para países do Golfo alinhados a Washington, embora essas nações tenham evitado entrar diretamente no conflito por medo de uma escalada ainda maior. Em Dubai, autoridades disseram que não houve feridos após destroços de interceptações aéreas atingirem as fachadas de dois prédios no emirado.
No Líbano, a embaixada dos Estados Unidos em Beirute emitiu um alerta de segurança na sexta-feira, advertindo que o Irã e grupos armados alinhados a Teerã podem mirar universidades no país. A representação diplomática recomendou que cidadãos americanos deixem o território libanês enquanto voos comerciais ainda estiverem operando. Paralelamente, Israel mantém sua própria campanha militar contra o Hezbollah, aliado do Irã, e informou ter atacado posições do grupo em Beirute nas primeiras horas deste sábado.
A guerra também passou a ameaçar diretamente a infraestrutura vital dos países do Golfo. Na sexta-feira, o Irã atingiu uma usina de energia e água no Kuwait, num movimento que aprofundou o alerta regional. A ofensiva veio depois de Trump ameaçar bombardear pontes e usinas elétricas iranianas, ressaltando a fragilidade estratégica de países que dependem intensamente de plantas de dessalinização para garantir abastecimento de água potável.
Na quinta-feira, Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, publicou imagens de fumaça e poeira provocadas por ataques americanos contra a ponte B1, prevista para ser inaugurada neste ano e responsável por ligar Teerã à vizinha Karaj. Em seguida, ampliou o tom da ameaça ao afirmar: "Nossos militares, os maiores e mais poderosos (de longe!) em qualquer lugar do mundo, nem sequer começaram a destruir o que resta no Irã. Próximo passo: pontes, depois usinas de energia elétrica!"
Também na sexta-feira, um drone atingiu um armazém de ajuda humanitária do Crescente Vermelho na região de Choghadak, na província iraniana de Bushehr. No Kuwait, a Kuwait Petroleum Corp afirmou que drones atingiram a refinaria de Mina al-Ahmadi. Outros ataques teriam sido interceptados na Arábia Saudita e em Abu Dhabi. Já perto do porto israelense de Haifa, onde funciona uma grande refinaria de petróleo, caíram destroços de mísseis.
O impacto econômico dessa escalada já começa a ser sentido com clareza. Os mercados de petróleo estavam fechados após o barril de referência dos Estados Unidos disparar 11% na quinta-feira, em reação ao discurso de Trump, que não ofereceu qualquer sinal concreto de descompressão imediata do conflito. A alta do petróleo amplia o temor de uma crise energética mais profunda e de efeitos persistentes sobre cadeias produtivas, inflação e crescimento global.
A derrubada das aeronaves americanas, portanto, não representa apenas um revés operacional. Ela simboliza o desgaste de uma guerra que se prolonga, acumula custos humanos e financeiros e desafia a narrativa de superioridade absoluta vendida pela Casa Branca. Com um piloto desaparecido em território hostil, negociações travadas e novos ataques contra infraestrutura estratégica, Trump enfrenta agora uma crise ainda mais sensível, em um cenário no qual qualquer erro adicional pode ampliar os danos militares, diplomáticos e políticos para Washington.


