Vinil resiste ao tempo e vira negócio em alta entre jovens colecionadores
Empreendedor Sidney Pereira Rosa vê o formato analógico ganhar novo fôlego e atrair uma geração que busca experiência, memória e qualidade sonora
Beatriz Bevilaqua, 247 - A cena se repete em feiras, cafés e livrarias: pais apresentam discos aos filhos, jovens folheiam encartes como quem descobre um objeto raro, e o som da agulha tocando o vinil interrompe, ainda que por alguns minutos, o ritmo acelerado do digital. Longe de ser peça de museu, o disco de vinil volta a ocupar espaço, não apenas como nostalgia, mas como mercado em expansão.
É nesse território que atua Sidney Pereira Rosa, 56, empreendedor do setor há mais de dez anos. Conectado à música desde a infância, ele transformou o hábito familiar em negócio e acompanha de perto o crescimento de uma nova geração de consumidores interessados na experiência analógica.
“Eu tive contato com o vinil desde pequeno, na minha família. Tínhamos esse hábito de ouvir discos. Todo final de mês eu comprava um e, junto com meus amigos, nos reuníamos para ouvir, conversar sobre música, sobre letras. Existia uma cumplicidade”, lembra.
Para Sidney, o renascimento do vinil tem relação direta com o tipo de experiência que ele oferece. “O disco de vinil tem um certo roteiro. Você precisa parar para ouvir. É diferente do streaming, que é rápido, imediato. No vinil, você tem o encarte, as letras, quem gravou, a parte gráfica. Existe um conceito”, explica.
Ele também destaca a diferença na qualidade sonora. “O streaming trabalha com compressão para caber milhões de músicas. Isso altera graves e agudos. O vinil preserva melhor essa qualidade.”
Esse “ritual” da escuta de escolher o disco, posicionar a agulha, ouvir lado A e lado B aparece como um dos principais atrativos, inclusive para quem cresceu no digital. “Você acaba ouvindo faixas que não tocavam no rádio. Existe uma história sendo contada ali, sequência por sequência.”
Mercado em crescimento e novas gerações
Mesmo sem dados oficiais no Brasil, Sidney afirma que o setor acompanha uma tendência internacional de crescimento. “Lá fora, o mercado cresce entre 15% e 20% ao ano. Aqui sentimos isso na prática, pela procura.”
O rock ainda lidera as vendas, seguido por MPB, pop, jazz e reggae. Clássicos também seguem em alta, como o álbum Racional, de Tim Maia, citado por Sidney como um dos mais procurados. “Foi um disco que inicialmente não fez sucesso, mas depois virou cult. Tem toda uma história por trás, uma mística.”
Ao mesmo tempo, raridades e primeiras prensagens ganham valor entre colecionadores. “Tem discos que nunca foram relançados. Esses acabam ficando caros e muito desejados.”
Do físico ao digital: Adaptação e sobrevivência
A trajetória de Sidney também reflete os desafios do empreendedorismo no Brasil. Durante a pandemia, ele precisou fechar a loja física e reinventar o negócio.
“Eu tive loja no centro da cidade, mas com a pandemia não deu para manter. Mudei totalmente: passei para o online e comecei a fazer eventos. Hoje vejo que foi melhor, porque consigo atuar de forma mais estratégica.”
Atualmente, ele vende para todo o país, utilizando redes sociais e plataformas digitais. “A pessoa entra em contato pelo Instagram, acessa o catálogo no WhatsApp e eu envio pelos Correios.” Além disso, participa de feiras e eventos culturais, onde o contato direto com o público fortalece o negócio.
Um dos aspectos mais marcantes do setor, segundo Sidney, é a lógica colaborativa entre vendedores, algo que foge do padrão competitivo tradicional.
“Existe uma quantidade muito grande de discos. É impossível uma pessoa ter tudo. Então, se eu não tenho, outro tem. Criamos uma rede muito unida e colaborativa”.
O futuro da música passa pelo passado?
Para Sidney, o crescimento do vinil não significa o fim do digital, mas uma convivência entre formatos.“O streaming vai continuar, é lógico. Eu também uso. Mas hoje tudo está mais segmentado. Antes você recebia música pelo rádio, pela TV. Hoje você precisa ir atrás.”
Nesse cenário, o vinil surge como uma alternativa mais consciente de escuta e, para muitos, mais afetiva. “A música sempre vai fazer parte da nossa vida. Ela marca momentos, histórias e relações. O vinil potencializa isso.”
Apesar do crescimento, Sidney faz um alerta para quem pensa em empreender no setor: não é um caminho fácil.
“Tem que gostar muito. Não dá para entrar só pelo dinheiro. Eu não fico rico vendendo discos”, afirma. “É um trabalho de garimpo, de pesquisa, de conhecimento.”
Ainda assim, ele segue apostando no segmento movido pela mesma conexão que começou na infância. “É uma cultura do dia a dia. Ouvir, aprender, compartilhar. Isso faz tudo valer a pena.”
Em um tempo de consumo rápido e descartável, o vinil propõe outra lógica: parar, escutar e se relacionar com a música de forma mais profunda. Talvez seja justamente isso que explique por que, décadas depois, ele continua girando e agora, também nas mãos de quem nem sequer viveu sua primeira era de ouro.
Assista na íntegra aqui: