“A China tem muito mais a oferecer à América do Sul do que os Estados Unidos”, diz Elias Jabbour
Em entrevista ao Brasil 247, professor afirma que a ofensiva de Trump não muda a centralidade chinesa no comércio regional
247 – A declaração de Donald Trump de que o hemisfério ocidental pertence aos Estados Unidos — reforçada por postagens e gestos oficiais de Washington após o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro — não altera um dado incontornável da realidade econômica contemporânea: a América do Sul já está integrada, de forma estrutural, ao comércio e aos investimentos da China. Foi o que afirmou o professor e pesquisador Elias Jabbour, em entrevista ao Brasil 247, ao sustentar que os Estados Unidos não têm capacidade material de substituir Pequim como principal parceiro econômico de grande parte da região.
“Os Estados Unidos não são capazes de entregar para a América Latina os bens que a China entrega para a América Latina, como, por exemplo, bens manufaturados, máquinas, equipamentos eletrônicos”, disse Jabbour, ao ser questionado sobre os efeitos da nova ofensiva do governo Trump e sobre o discurso de “América para os americanos”. Segundo ele, a China tem muito mais a oferecer à América do Sul do que os Estados Unidos, tanto pela escala industrial quanto pelo tipo de produto e investimento disponibilizado aos países latino-americanos.
A entrevista foi transmitida no canal do YouTube do Brasil 247, em conversa conduzida por Leonardo Attuch e Andreia Trus, em meio a um cenário de forte instabilidade regional e de escalada geopolítica após a intervenção na Venezuela.
A realidade econômica que Washington não consegue mudar
Jabbour avaliou que, mesmo que os Estados Unidos tentem impor sua doutrina de força sobre a região — o chamado “corolário Trump”, que ele define como uma reedição explícita da lógica de domínio hemisférico —, não há como reverter o vínculo econômico que a América do Sul construiu com a China.
“Não muda nada em relação a isso. Não tem como um decreto ou uma simples ocupação militar mudar isso daí”, afirmou.
Na leitura do professor, a tentativa de Washington de retomar a América Latina como área de influência esbarra em um limite concreto: a economia norte-americana não consegue substituir o papel que a China ocupa como fornecedora de bens industriais e, ao mesmo tempo, como destino das exportações de commodities e produtos da região.
“Não tem saída, Leonardo. Não tem para onde correr. O mercado para os nossos produtos hoje é China e Índia”, disse.
A ideia de “não ter para onde correr” é central na argumentação de Jabbour: para ele, não se trata apenas de uma escolha política, mas de uma condição estrutural do sistema internacional atual, em que a China se tornou o principal motor industrial e comercial do planeta.
“América Latina como barbárie”: o risco de protetorados e saque
O professor também alertou para a possibilidade de os Estados Unidos tentarem impor, pela força, uma reorganização da região em moldes semelhantes aos anos 1980. Em sua avaliação, a América Latina pode voltar a viver uma condição de instabilidade crônica, com governos alinhados a Washington funcionando como “protetorados” — uma fachada institucional que daria aparência de legalidade a um processo de saque.
“Os Estados Unidos vão tentar ocupar a América Latina, não permitir que países como Irã, como China, como Rússia tenham acesso a recursos naturais e ativos na região”, afirmou.
Ele descreveu esse movimento como uma tentativa de bloquear a presença de potências emergentes em setores estratégicos, como petróleo, mineração e infraestrutura, e de garantir que os EUA retomem controle direto ou indireto sobre recursos naturais.
O Brasil no centro da disputa: soberania ou entreguismo
Ao comentar o impacto desse cenário para o Brasil, Jabbour ressaltou que o país está inserido na rota estratégica do governo Trump e que a ofensiva sobre a Venezuela é também um aviso para os demais países. Ele citou a reação de governadores e líderes da extrema direita brasileira que, segundo ele, aplaudiram o sequestro de Maduro e se alinharam abertamente à política externa de Washington.
“Caso a extrema direita volte ao governo do Brasil em 2026, o que vai acontecer é que eles não passarão de fantoches da política externa dos Estados Unidos”, declarou.
O professor afirmou que esse campo político tenderia a entregar ativos estratégicos do país, como petróleo, água e minerais críticos, e lembrou que Jair Bolsonaro já havia defendido uma exploração conjunta da Amazônia com os Estados Unidos.
Para ele, isso cria uma clivagem cada vez mais nítida na política brasileira: defesa da soberania nacional de um lado, entreguismo do outro.
China não “lidera o mundo”, mas muda o equilíbrio global
Questionado sobre o papel internacional de Pequim diante da agressividade de Washington, Jabbour afirmou que a China não se propõe a “liderar o mundo” nos moldes tradicionais, mas que sua presença já altera o centro de gravidade do sistema internacional. Ele avaliou que a China tende a elevar o tom em organismos multilaterais, como a ONU, sobretudo se perceber que a tentativa dos EUA de derrubar o regime venezuelano fracassou.
“A China está elevando o tom na ONU, em todos os organismos internacionais”, disse.
Ainda assim, ele ponderou que a Venezuela, do ponto de vista energético, não é determinante para Pequim:
“A Venezuela corresponde somente a 4% do petróleo que a China importa do mundo”, afirmou, explicando que isso dá margem para a China calibrar sua reação sem comprometer sua segurança energética.
A ofensiva de Trump e o dilema latino-americano
A entrevista também expôs o contraste entre o discurso agressivo de Washington e a realidade concreta da integração econômica regional com a China. Para Jabbour, os EUA podem até ampliar ameaças e tentar impor uma lógica de força, mas não conseguem oferecer uma alternativa econômica real à América Latina.
Na avaliação do professor, a crise deflagrada na Venezuela deve acelerar o debate sobre soberania e independência nacional em diversos países, inclusive no Brasil, onde a disputa de 2026 tende a ser atravessada por pressões externas e por uma guerra informacional impulsionada por grandes plataformas digitais.
Diante desse cenário, Jabbour reforçou que o eixo central das forças populares e nacionalistas precisa ser a defesa dos interesses estratégicos do país e a construção de um projeto de reindustrialização que reduza a vulnerabilidade do Brasil a interferências externas.
Com o sequestro de Maduro e a tentativa de Trump de reafirmar a América Latina como área de dominação, a entrevista de Elias Jabbour ao Brasil 247 sintetiza uma virada histórica: os EUA voltam a agir com brutalidade explícita no hemisfério, mas enfrentam um mundo em que a China já se tornou insubstituível para a economia sul-americana.



