Elias Jabbour: “o mundo não é mais o mesmo após o sequestro de Maduro"
Professor alerta para risco de protetorados na região e defende soberania e reindustrialização como centro da disputa política no Brasil em 2026
247 – A escalada de tensões internacionais provocada pelo sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro por agentes ligados ao governo dos Estados Unidos abriu uma nova etapa da disputa geopolítica global e recolocou a América Latina no centro da estratégia de Washington. Em entrevista ao Brasil 247, o professor e pesquisador Elias Jabbour afirmou que o episódio simboliza um “recuo estratégico” dos EUA diante da incapacidade de competir globalmente com China e Rússia, e advertiu que o mundo atravessa uma ruptura histórica profunda: “O mundo hoje não é mais o mesmo do que há 50 anos”, disse. A conversa foi transmitida pela TV 247, no programa conduzido por Leonardo Attuch e Andreia Trus.
Jabbour analisou o episódio como um marco de agressividade inédita na forma — ainda que não no conteúdo — da política externa estadunidense. Para ele, o sequestro de um chefe de Estado escancara o fim do verniz retórico que, por décadas, sustentou intervenções sob o discurso de democracia e direitos humanos. “A novidade histórica é rasgar qualquer véu de hipocrisia em torno de democracia, direitos humanos, etc. Não tem mais isso”, afirmou.
O “corolário Trump” e a tentativa de restaurar áreas de influência
Ao longo da entrevista, Jabbour descreveu o que chamou de “corolário Trump” como uma política externa baseada na tentativa de reimpor o controle sobre áreas de influência, com a América Latina voltando a ser tratada como zona prioritária. Segundo ele, Washington percebe que perdeu capacidade de competição global — sobretudo com a China — e tenta compensar isso retomando o hemisfério como espaço natural de dominação.
“Os Estados Unidos percebem que não têm mais condições de competir globalmente com a China e com a própria Rússia”, avaliou. Na leitura do professor, o sequestro de Maduro se tornou o primeiro grande laboratório dessa doutrina, mas não necessariamente um sucesso garantido.
“O ciclo do 'regime change' não foi concluído”
Um dos pontos centrais da análise de Jabbour é que a operação na Venezuela pode se transformar num atoleiro político, exatamente porque não se consolidou aquilo que ele chama de fechamento do ciclo de regime change.
“Não se configurou o final do ciclo do regime change. A intervenção militar americana não foi seguida de amplas manifestações populares para derrubar o PSUV”, disse, lembrando que a vice-presidenta venezuelana assumiu reafirmando soberania e denunciando o sequestro.
E completou com uma advertência direta: “Se eles não derem conta de mudar completamente o regime na Venezuela, o corolário Trump se inicia na Venezuela e morre na Venezuela”.
Ao mesmo tempo, Jabbour ponderou que subestimar os EUA seria um erro: “Eu não estou querendo subestimar o poder americano, muito pelo contrário. Quem fez isso não se deu bem”. Ainda assim, insistiu que o cenário mundial mudou radicalmente, e os EUA já não operam nas mesmas condições dos anos 1980.
A América Latina diante de uma nova barbárie
Questionado sobre as consequências regionais, Jabbour afirmou que a América Latina pode voltar a viver um ambiente de barbárie política semelhante ao dos anos 1980, agora com novas ferramentas e um discurso ainda mais explícito de dominação.
“Os Estados Unidos vão tentar ocupar a América Latina, não permitir que países como Irã, China e Rússia tenham acesso a recursos naturais e ativos na região”, afirmou. Para ele, o objetivo final seria estruturar governos convertidos em “protetorados”, usados para legitimar o saque de riquezas estratégicas.
Jabbour também alertou para o caráter estrutural desse movimento, que busca impedir qualquer autonomia regional em setores decisivos, como energia, minerais críticos, água e petróleo.
Brasil: “Ou é nós ou é eles”
O entrevistado foi ainda mais enfático ao comentar os riscos para o Brasil. Ele citou manifestações de governadores e lideranças de extrema direita que, segundo ele, aplaudiram o sequestro de Maduro e aderiram à lógica de submissão à política externa dos Estados Unidos.
“Isso deixa muito claro para o povo brasileiro o seguinte: caso a extrema direita volte ao governo do Brasil em 2026, eles não passarão de fantoches da política externa dos Estados Unidos”, declarou.
Na mesma fala, Jabbour afirmou que um eventual retorno desse campo político significaria entrega de ativos estratégicos, como água, petróleo e minerais críticos. Ele lembrou ainda que Jair Bolsonaro chegou a propor a exploração conjunta da Amazônia com os EUA, citando isso como exemplo do que chama de agenda entreguista.
Para ele, o sequestro na Venezuela cria também um “ativo político” para as forças populares e nacionalistas no Brasil: “Ou é nós ou é eles”, resumiu.
China e América Latina: comércio, investimento e a impossibilidade de substituição
Ao analisar o impacto da postura de Trump sobre as relações econômicas, Jabbour afirmou que a influência da China na América Latina não pode ser revertida por decreto ou por intimidação, porque os EUA não têm capacidade de oferecer o que os chineses fornecem em termos de comércio e investimentos.
“Os Estados Unidos não são capazes de entregar para a América Latina os bens que a China entrega: bens manufaturados, máquinas, equipamentos eletrônicos”, disse. E acrescentou: “Não tem como um decreto ou uma simples ocupação militar mudar isso”.
Ainda assim, Jabbour ponderou que a Venezuela, embora relevante, não é central para a estratégia energética chinesa: “A Venezuela corresponde somente a 4% do petróleo que a China importa do mundo”, afirmou, indicando que a China poderia suportar perdas localizadas, embora se mova politicamente para elevar o tom diplomático.
Segundo ele, a reação chinesa começa a mudar de patamar à medida que percebe que os EUA não conseguiram derrubar o regime venezuelano: “A China está elevando o tom na ONU em todos os organismos internacionais”, disse, associando esse movimento à percepção de que a operação de Washington não se completou.
BRICS: foco financeiro, não militar
Questionado sobre a possibilidade de os BRICS se transformarem em um bloco militar, Jabbour descartou essa hipótese no curto prazo. Ele explicou que o grupo ainda atua como arranjo político e financeiro em busca de consensos — sobretudo na disputa por uma nova arquitetura financeira internacional —, com destaque para mecanismos de pagamentos e integração.
“Os BRICS hoje são um arranjo político entre países com visões de mundo comuns”, afirmou, apontando o Banco dos BRICS como o principal marco institucional.
Para ele, o passo estratégico real — antes de qualquer agenda militar — seria o Sul Global se unificar como grande mercado regional e construir sistemas próprios de investimento, comércio e financiamento, ainda em ritmo lento.
Governo Lula e as opções estreitas: soberania e reindustrialização
Ao comentar a posição do governo brasileiro, Jabbour elogiou as declarações e documentos oficiais que condenaram a violação do direito internacional no caso venezuelano. Ele afirmou que o Brasil se posicionou corretamente até aqui, mas advertiu que as opções nacionais estão diminuindo.
“O mundo não é mais como uma semana atrás. Tudo mudou depois desse ataque à Venezuela e desse sequestro de Maduro”, afirmou, destacando que o Brasil deve atravessar 2026 com um eixo político claro: soberania.
Na visão do professor, o centro do debate eleitoral precisa ser a defesa da independência nacional, sem necessidade de gestos imediatos como adesão formal à Nova Rota da Seda, mas com foco estratégico em fortalecer o país internamente.
E apresentou o ponto que considera decisivo: reindustrialização.
“Não tem mais saída para o Brasil. Nós precisamos passar por um processo de reindustrialização. Isso é para ontem”, disse. Jabbour ressaltou que o Brasil está vulnerável porque não tem indústria de defesa e sofre desindustrialização acelerada, mesmo com políticas como a Nova Indústria Brasil.
Ele criticou a baixa taxa de investimento e apontou que a desindustrialização amplia a vulnerabilidade ideológica e política: “Com a desindustrialização, passa a mandar no país o sistema financeiro e o agronegócio, duas classes que estão pouco se lixando para o futuro do Brasil”, afirmou.
No trecho mais simbólico, ele defendeu que a esquerda assuma o papel histórico que deveria caber a uma burguesia nacional inexistente: “Já que nós não temos uma burguesia que pensa o Brasil enquanto nação, que a esquerda se coloque nesse papel”.
Eleições de 2026 e guerra híbrida: Big Techs e ofensiva sobre a subjetividade
Questionado sobre o impacto do episódio venezuelano na eleição brasileira de 2026, Jabbour afirmou que Trump deve apostar fortemente no Brasil e que a disputa política será marcada pela intensificação da guerra híbrida e do uso de plataformas digitais, ainda sem regulação.
“As redes brasileiras não são reguladas. Eles vão operar uma tentativa de subversão da subjetividade do povo brasileiro para eleger um governo de extrema direita”, afirmou.
Segundo ele, a diferença em relação ao passado é que a extrema direita agora age de forma aberta como agente externo, o que pode virar um fator de mobilização do campo nacional: “Eles não estão escondendo isso, estão falando abertamente”, disse.
O debate nuclear volta à pauta
Ao final da entrevista, Jabbour comentou a discussão sobre dissuasão estratégica e armas nucleares, afirmando que o Brasil ainda não tem consciência nacional acumulada para retomar um programa nuclear com força política real. Ainda assim, defendeu que o tema seja colocado no debate público como necessidade estratégica.
“Nós colocamos na pauta a necessidade do Brasil retomar o seu programa nuclear e transformar isso em senso comum”, afirmou, citando a Coreia Popular como exemplo de país que enfrentou privações extremas para obter capacidade de dissuasão e garantir autonomia.



