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"Agressão ao Irã é parte da estratégia de promoção do caos mundial", diz Elias Jabbour

Professor afirma que ofensiva integra ataque aos BRICS, pode acelerar inflação global e agravar disputa política no Brasil em 2026

"Agressão ao Irã é parte da estratégia de promoção do caos mundial", diz Elias Jabbour (Foto: Reprodução)

247 – A agressão militar contra o Irã, que já deixou “mais de 160 meninas assassinadas” após o ataque a uma escola, integra uma estratégia de “promoção do caos mundial” e deve ser lida como parte de uma ofensiva mais ampla contra os BRICS e a transição para a multipolaridade, afirmou o professor Elias Jabbour. A entrevista foi concedida a Sara Goes no programa Boa Noite 247, em um debate que conectou guerra, energia, dólar, tecnologia e os riscos de desestabilização política no Brasil às vésperas da disputa eleitoral.

Na avaliação de Jabbour, o cenário atual não pode ser reduzido a atos isolados de um governante “diferentão”. Para ele, Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, é resultado de um processo histórico mais amplo de decadência relativa do poder norte-americano e de resposta agressiva à ascensão da China e ao fortalecimento de novas articulações internacionais, como os BRICS.

“Promoção do caos mundial” e ditadura militar global

Ao analisar o papel dos Estados Unidos nas últimas décadas, Jabbour afirmou que a estratégia de desestabilização não começa com Trump, mas ganha nova intensidade sob sua liderança. Segundo ele, desde a crise financeira de 2008-2009, Washington passou a recorrer com maior frequência a sanções, guerras híbridas e intervenções indiretas.

“O Trump é uma resposta histórica à decadência externa dos Estados Unidos”, afirmou. Para o professor, há uma tentativa de reorganização do mundo a partir da reindustrialização norte-americana, combinada com o uso de instrumentos militares e financeiros para manter a hegemonia global.

Ele foi enfático ao caracterizar o momento atual: “Ele promove a consolidação do que eu chamo de uma ditadura militar global”. Segundo Jabbour, já seriam “mais de 500 ataques” realizados fora das fronteiras norte-americanas desde o início do atual governo, o que demonstraria a contradição entre o discurso de não intervenção e a prática de ampliação das ações militares.

Ataque ao Irã e ofensiva contra os BRICS

Para o professor, o ataque ao Irã deve ser compreendido dentro de um quadro estratégico mais amplo. “Essa tentativa de mudança de regime no Irã é uma guerra contra os BRICS”, declarou. Ele acrescentou que também se trata de uma ofensiva indireta contra a iniciativa chinesa de integração global por meio de grandes investimentos em infraestrutura.

“O Irã é um território estratégico para os chineses”, disse, referindo-se à importância do país para os corredores logísticos e energéticos que conectam a Ásia ao Oriente Médio e à Europa.

Jabbour afirmou ainda que, quando as chamadas revoluções coloridas e guerras híbridas não produzem mudança de regime, a estratégia passa a ser o ataque militar direto. “Onde esse expediente não dá certo, parte-se para o crime aberto. O crime aberto é o ataque militar”, declarou.

Ele avaliou, no entanto, que o Irã não deve se render. “Rei morto, rei posto, vida que segue e guerra que continua, porque o Irã não vai se render”, afirmou, ao comentar a rápida substituição de lideranças após o ataque.

Impactos econômicos e risco de recessão global

A escalada militar no Oriente Médio, segundo Jabbour, pode ter efeitos severos sobre a economia mundial, sobretudo com a ameaça de fechamento do Estreito de Ormuz. Ele alertou para o risco de alta do petróleo e seus reflexos em cadeia.

“Nós vamos viver uma onda de inflação mundial muito grande”, afirmou. Para ele, a elevação do preço do petróleo tende a pressionar o custo de vida, elevar juros e abrir espaço para uma recessão global caso o conflito se prolongue.

Sobre a desdolarização, Jabbour adotou cautela. “Existe essa tendência, vai ser muito mais devagar do que nós imaginamos, mas ela está aí”, disse, destacando o crescimento do comércio e dos investimentos em moedas locais, especialmente a partir da China.

Disputa tecnológica e transição histórica

Na análise do professor, a principal disputa estratégica do momento ocorre no campo tecnológico, especialmente em semicondutores e inteligência artificial. “Impedir que a China alcance os Estados Unidos nesse campo é, sobre o meu ponto de vista, o fulcro central da luta no âmbito internacional”, afirmou.

Ele descreveu o momento atual como uma transição entre revoluções industriais e entre ordens globais. “O que existe hoje é um caos no mundo e não uma nova ordem mundial”, disse, ressaltando que a multipolaridade ainda está em construção.

Brasil, soberania e eleição de 2026

O debate também abordou o cenário brasileiro. Jabbour avaliou que o Brasil deve manter diálogo com os Estados Unidos, inclusive com visita do presidente Lula a Washington, mas advertiu contra ilusões estratégicas.

“Não dá para se iludir em relação a eles”, afirmou. Para o professor, uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro representaria um alinhamento direto aos interesses norte-americanos. “É a primeira vez que teremos o candidato pró-Estados Unidos na campanha eleitoral”, disse.

Ele alertou ainda para a possibilidade de intensificação de uma guerra híbrida no Brasil. “Nós precisamos nos preparar para uma guerra de quinta geração, sexta geração, que vai pegar o Brasil de frente, principalmente na época das eleições”, declarou.

Crianças como alvo e crise humanitária

Ao comentar o ataque que já matou mais de 160 meninas, Jabbour destacou o simbolismo e a gravidade da escolha do alvo. “Eles escolheram atacar uma escola”, afirmou. Para ele, a capacidade tecnológica dos Estados Unidos permitiria precisão cirúrgica, o que reforça o caráter político da decisão.

“O imperialismo estadunidense e o sionismo são os dois maiores inimigos da humanidade”, declarou. Segundo o professor, mulheres e crianças têm sido alvos recorrentes em conflitos e sanções.

Ele citou ainda o impacto do bloqueio contra Cuba, afirmando que “as crianças hoje são as maiores vítimas” das restrições econômicas, especialmente pela dificuldade de acesso a medicamentos.

Para Jabbour, a violência contra crianças e civis deve ser compreendida como parte de uma lógica mais ampla de dominação. “O mundo não é uma brincadeira”, concluiu, defendendo que o debate sobre soberania, BRICS e multipolaridade precisa ser tratado com seriedade estratégica diante da escalada do conflito internacional.

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