Agressão ao Irã é um ataque a Rússia, China e ao conjunto dos BRICS, diz Marco Fernandes
Correspondente do Brasil de Fato em Moscou afirma à TV 247 que ofensiva de Estados Unidos e Israel e morte de Khamenei elevam conflito a novo patamar
247 – A agressão militar contra o Irã promovida por Estados Unidos e Israel representa um ataque direto não apenas a Teerã, mas também à Rússia, à China e ao conjunto dos BRICS. A avaliação é do jornalista Marco Fernandes, correspondente do Brasil de Fato em Moscou, em entrevista concedida à TV 247 no sábado, 28 de fevereiro, quando analisou as primeiras horas da escalada militar e seus desdobramentos estratégicos.
Durante a transmissão, foi confirmada a morte do líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, fato que, segundo Marco, eleva o conflito a um patamar ainda mais grave e imprevisível. O jornalista alertou que a eliminação da principal liderança religiosa e política do Irã não encerra a crise, mas pode aprofundar a radicalização regional e internacional.
“Se for confirmado, eleva o conflito a um nível inimaginável”
Ainda no início da entrevista, antes da confirmação definitiva, Marco já havia advertido sobre a dimensão de um eventual assassinato do líder iraniano. Após a consolidação da informação, sua análise ganhou peso ainda maior.
"Se isso for verdade, isso eleva o conflito para um nível inimaginável."
Segundo ele, o sistema político iraniano possui mecanismos institucionais para a escolha de um novo líder supremo, por meio de um conselho responsável por essa definição. No entanto, o impacto simbólico e político da morte de Khamenei tende a produzir consequências profundas dentro e fora do país.
Marco destacou que, em cenários anteriores de confronto, setores da juventude iraniana que mantinham críticas ao governo passaram a defender maior unidade nacional diante do que percebem como agressão externa.
"Eu sempre fui crítico do governo, mas depois do que aconteceu, acho que temos que nos unir contra o imperialismo e contra o sionismo."
Para o correspondente, a tendência agora é de fortalecimento dos setores mais duros e anti-imperialistas dentro do Irã, enfraquecendo alas que defendiam maior aproximação com o Ocidente.
Energia, logística e o impacto direto sobre China e Rússia
A análise central de Marco Fernandes foi que o ataque ao Irã tem dimensões estratégicas que ultrapassam o conflito bilateral. Segundo ele, a China depende de forma significativa do petróleo iraniano, inclusive por rotas indiretas utilizadas para contornar sanções.
Ele também mencionou a importância da ferrovia que conecta Xi’an ao Irã como parte de uma estratégia chinesa para reduzir a dependência do Estreito de Malaca, além do chamado corredor internacional Norte-Sul, que liga a Rússia à Índia passando pelo território iraniano.
"É um ataque à China e à Rússia, porque o Irã é peça central dessas rotas logísticas e energéticas."
No caso russo, Marco destacou a cooperação no setor nuclear, lembrando que Moscou mantém participação ativa em projetos de usinas iranianas e que a estabilidade do país é estratégica para o Kremlin.
Petróleo, Estreito de Ormuz e risco de inflação global
A entrevista também abordou os efeitos econômicos imediatos da escalada. Com o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde transita parcela significativa do petróleo mundial, os preços internacionais da energia tendem a subir de forma abrupta.
"Se o preço do petróleo disparar, isso terá impacto direto na inflação global, inclusive nos Estados Unidos."
Segundo ele, uma alta expressiva no barril pode gerar instabilidade econômica mundial e pressionar governos, inclusive o de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos.
Pressão interna sobre Trump e riscos políticos
Marco argumentou que a decisão de ampliar o confronto envolve alto custo político para Trump. Ele lembrou que parte significativa da população norte-americana é contrária a novas guerras e que o aumento do preço da energia pode afetar diretamente o eleitorado.
"Essa guerra não faz sentido para os interesses internos dos Estados Unidos. É uma aposta de altíssimo risco político."
Para o correspondente, o conflito pode se tornar um teste decisivo sobre os limites do poder militar norte-americano diante de um adversário com capacidade de resposta.
Brasil, BRICS e o cenário eleitoral
A entrevista também tratou das repercussões para o Brasil. Marco observou que, sendo o Irã integrante do BRICS, o ataque cria tensão dentro do bloco e pressiona seus membros a se posicionarem.
Ele destacou que o governo brasileiro já manifestou preocupação diplomática e que o cenário internacional pode influenciar o debate político interno, especialmente em ano eleitoral.
"Ainda é cedo para prever todas as consequências, mas estamos diante de um momento que pode redefinir o equilíbrio global."
Ao final, Marco Fernandes afirmou que a guerra contra o Irã pode se tornar “a hora da verdade” para o chamado império norte-americano, pois expõe seus limites militares, industriais e políticos diante de uma coalizão de países que buscam maior autonomia no sistema internacional.
A morte de Khamenei, segundo ele, não encerra o conflito — ao contrário, inaugura uma nova fase, potencialmente mais intensa, na disputa geopolítica que envolve Estados Unidos, Israel, Rússia, China e o conjunto dos BRICS.


