Alysson Mascaro: "o tempo da esquerda liberal vai acabar"
Filósofo critica a democracia no capitalismo, aponta a crise como motor do sistema e cobra organização social para enfrentar o poder econômico e midiático
247 - Alysson Mascaro afirmou que a crise não é um acidente do capitalismo, mas parte do seu funcionamento, e defendeu que a disputa política exige enfrentar estruturas econômicas e ideológicas que moldam o que se convencionou chamar de democracia. A análise foi apresentada em conversa com Leonardo Attuch, em um debate sobre política, economia e o “discurso permanente da crise”, mesmo em períodos de euforia nos mercados.
A declaração foi feita durante entrevista foi no programa Brasil Agora da TV 247, na qual Mascaro discutiu o papel da burguesia, dos militares e dos grandes conglomerados de comunicação na formação de um padrão histórico de reação a projetos nacionalistas e progressistas, além do peso das redes sociais e de seus algoritmos na disputa pública.
“Há três coisas que não mudam”
Ao responder à introdução de Attuch — que relatou um encontro com um banqueiro e a sensação de que “o discurso é o discurso da crise” — Mascaro sustentou que existe um núcleo ideológico resistente a qualquer mudança social, independentemente do ciclo econômico.
“Há três coisas que não mudam em termos de ideologia: militares, os grandes conglomerados de comunicação de massa e a cabeça do empresariado, a cabeça da burguesia.”
Na avaliação do filósofo, mesmo quando governos promovem crescimento econômico e garantem condições favoráveis ao grande capital, isso não altera a disposição histórica desses setores diante de qualquer projeto que ameace reorganizar poder e riqueza.
“Sempre a burguesia é contra qualquer projeto nacionalista, progressista, de esquerda.”
Democracia como “falácia de ideologia”
Provocado por comentários do público sobre os limites da democracia sob o capitalismo, Mascaro argumentou que o sistema concentra poder real fora do alcance do voto e que a eleição, quando existe, tende a decidir apenas “quem fica à testa do maquinário do Estado”, sem tocar na estrutura.
“É dizer que o capitalismo não é democrático, porque efetivamente o que nós temos é a concentração de poder na mão da burguesia.”
Ele reforçou que, para além do ritual eleitoral, a máquina estatal não é submetida a uma escolha popular sobre seus fundamentos, e que a própria ideia de democracia liberal seria usada como ferramenta de legitimação.
“Nenhuma sociedade capitalista é democrática. Porque o dia que o povo quiser votar por sair da exploração, nesse dia a eleição não vale. Se a eleição pudesse chegar a coisas decisivas, proibiriam a eleição.”
Mascaro também comparou a experiência eleitoral a uma escolha restrita dentro de limites previamente definidos:
“O cardápio já tá dado. Aí a pessoa diz: ‘Nossa, olha como eu estou aqui interferindo’.”
Algoritmos e controle do debate público
Na conversa, o professor apontou que as redes sociais operam como engrenagens centrais do presente, distribuindo visibilidade de forma desigual e reforçando preferências políticas a partir de mecanismos opacos.
“As redes sociais têm algoritmos… aquele terá exposição e o resto não tem.”
Ao associar o tema às disputas recentes no Brasil, a entrevista abordou o avanço de discursos religiosos e moralizantes, a validação de figuras políticas pela mídia e a sensação de cansaço de parte do público diante do que foi descrito como crescimento da “ignorância” e da “estupidez” no debate nacional.
Esperança, desgaste e a crítica ao “liberalismo progressista”
Diante de relatos de desânimo — tanto do público quanto do próprio entrevistador — Mascaro disse que pretende aprofundar o tema em uma live específica sobre “mobilização da esperança”. No diálogo, ele atribuiu parte da desesperança a um capitalismo que intensifica sofrimento psíquico e bloqueia horizontes de transformação.
“Uma das características do capitalismo nos últimos 50 anos é o de exacerbar o sofrimento psíquico das pessoas e de não permitir encontrar possibilidade de transformação social.”
Nesse contexto, o filósofo mirou críticas diretas ao que chamou de esquerda liberal, afirmando que ela ajuda a impor a ideia de que “não há alternativa”, empurrando a sociedade para uma acomodação dentro do próprio sistema.
“Eu quero bater nessa… esquerda liberal… e tenho todas as energias do mundo para dizer que esse tempo histórico dessa esquerda liberal vai acabar.”
Crise como objetivo do capitalismo e a lógica do saque
Em um dos eixos centrais da entrevista, Mascaro insistiu que o capitalismo se alimenta de crises e que a disputa internacional passa por lucrar com elas. Ao citar a atuação de Donald Trump, o professor afirmou:
“A crise é o objetivo do capitalismo.”
E completou, ao discutir o funcionamento do sistema em ciclos históricos:
“O capitalismo quer viver de crise.”
Na mesma linha, relacionou crise, rapina e pressão geopolítica como parte de um método de sobrevivência do centro imperial, descrevendo uma dinâmica em que a exploração avança sobre aliados e países periféricos, enquanto a sociedade é mantida sob tensão permanente.
Organização e disputa de sentido
Ao longo da conversa, Mascaro defendeu que a transformação social depende de construção coletiva, apoio mútuo e disputa de desejo, inclusive no plano subjetivo. Ele argumentou que, em um ambiente dominado por espetáculo e viralização, o pensamento crítico só se sustenta se houver redes de solidariedade e organização.
“Nós precisamos ter a melhor capacidade de sedução do povo e das massas para a perspectiva de transformação social.”
A entrevista avançou entre diagnósticos duros sobre o poder econômico, críticas ao papel de aparelhos ideológicos e uma convocação à continuidade da luta política, mesmo sob frustração e desgaste, reforçando a ideia de que processos históricos não se resolvem no tempo imediato e que o “amanhã” permanece em disputa.


