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Attuch diz que Lula deve propor programa de longo prazo para conquistar a juventude: Brasil 2050

Jornalista também defende que Lula se apresente como o estadista necessário para um mundo conturbado

Leonardo Attuch, em entrevista ao jornalista Breno Altman (Foto: Reprodução Youtube)

247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva segue como o principal nome da disputa presidencial de 2026, mas enfrenta desafios crescentes para manter sua liderança em um cenário político mais competitivo e fragmentado. A avaliação é do jornalista Leonardo Attuch, editor do Brasil 247, em entrevista ao programa 20 Minutos, do Opera Mundi.

Na conversa conduzida por Breno Altman, Attuch analisou as pesquisas recentes, que indicam equilíbrio entre Lula e nomes do campo conservador, especialmente o senador Flávio Bolsonaro. Para ele, embora o presidente ainda seja o favorito, há sinais de desgaste político e dificuldades de comunicação que precisam ser enfrentadas com uma estratégia mais clara e mobilizadora.

Segundo Attuch, Lula continua sendo “o Pelé da política brasileira”, com trajetória incomparável, mas não conseguiu, até agora, ampliar sua base para além do núcleo tradicional de apoio. “Ele não conseguiu quebrar esse paredão do antipetismo”, afirmou, destacando que a polarização permanece como elemento central da disputa.

Comunicação e narrativa estratégica

Um dos principais pontos levantados pelo jornalista é a necessidade de o governo aprimorar sua comunicação. Apesar dos indicadores econômicos positivos, como melhora do emprego e da renda, Attuch avalia que falta ao presidente uma narrativa mais consistente sobre o futuro do país.

“Eu acho que está faltando um pouco a ideia de por que Lula quer o quarto mandato”, disse. Para ele, a comunicação atual tem sido excessivamente focada em redes sociais e menos voltada à construção de uma imagem institucional forte.

Attuch defende que Lula se apresente como um líder experiente diante de um cenário internacional turbulento. 

“Eu gostaria de ver um presidente mais institucional, mais estadista, alguém que transmita sabedoria nesse mundo tão conturbado”, afirmou.

Proposta de um projeto nacional de longo prazo

No centro de sua análise, Attuch propõe que Lula lidere um grande projeto estratégico para o país, com horizonte de décadas. Ele sugere a criação de um programa nacional com metas claras de desenvolvimento, inspirado em experiências internacionais.

“Está fazendo falta um plano Brasil 2050”, declarou. 

Segundo ele, esse tipo de iniciativa poderia dialogar diretamente com a juventude e oferecer perspectivas concretas de futuro.

Attuch argumenta que os jovens enfrentam hoje um cenário de precarização do trabalho e falta de perspectivas. “Os empregos que estão sendo criados são muito baixos, de um ou dois salários mínimos”, disse, citando estudos recentes sobre o mercado de trabalho.

Para ele, a ausência de um projeto mobilizador impacta diretamente o comportamento das novas gerações. “Não está sendo oferecido muita coisa para a juventude. Onde ela vai trabalhar? Como vai construir uma vida melhor?”, questionou.

Desafios políticos e econômicos

O jornalista também abordou fatores que contribuem para a oscilação na popularidade do governo, como a chamada “fadiga de material” após anos de protagonismo político de Lula e a crise de confiança nas instituições.

Além disso, citou episódios como o caso Banco Master e a percepção de corrupção sistêmica, ainda que não diretamente ligados ao governo, como elementos que afetam a opinião pública.

“As pessoas recebem tanta informação negativa que parece que tudo é uma roubalheira só”, afirmou.

No campo econômico, Attuch destaca avanços, mas critica o ritmo de crescimento. Para ele, o país vive um cenário de “crescimento ok”, longe do dinamismo observado no segundo mandato de Lula. “Falta o espetáculo do crescimento”, disse.

Ele também apontou que a política monetária restritiva e os juros elevados têm impacto negativo sobre o setor produtivo. “Muita empresa em recuperação judicial, empresários não estão suportando a carga de juros”, afirmou.

Reorganização da direita e risco de subestimação

Attuch alertou ainda para o risco de subestimar o campo conservador, especialmente o desempenho de Flávio Bolsonaro. Segundo ele, o senador tem adotado estratégias eficazes de comunicação e busca se apresentar como uma versão “moderada” do bolsonarismo.

“Ele está fazendo movimentos políticos importantes que não estão sendo devidamente analisados”, afirmou. Attuch destacou que há uma tentativa de construção de imagem mais leve e próxima da juventude, além de articulações com o centrão.

Para o jornalista, a eleição de 2026 tende a repetir a polarização entre Lula e o bolsonarismo, embora com maior fragmentação à direita, com nomes como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e lideranças ligadas ao MBL.

Juventude e mudança de comportamento político

Outro ponto central da análise foi a mudança no comportamento político da juventude brasileira. Attuch lembrou que, no passado, jovens eram majoritariamente identificados com o campo progressista, mas hoje há uma dispersão maior.

“A juventude percebe que está difícil ter emprego, ter casa, formar família. Isso pesa”, afirmou. 

Ele acrescentou que o PT, por estar no governo, passou a ser visto como parte do sistema, o que dificulta sua conexão com novas gerações.

Cenário internacional e impactos no Brasil

A entrevista também abordou o contexto global, marcado por conflitos e tensões geopolíticas, como os confrontos envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Attuch destacou que esse cenário influencia diretamente o Brasil e reforça a necessidade de liderança experiente.

Para ele, Lula tem papel relevante no cenário internacional, mas precisa traduzir essa atuação em uma narrativa interna mais forte. 

“O Brasil tem potencial para ser uma superpotência, mas isso precisa ser colocado como projeto nacional”, afirmou.

Imprensa, big techs e disputa de narrativas

Attuch também criticou a atuação das plataformas digitais e defendeu maior regulação dos algoritmos, que, segundo ele, favorecem grandes veículos e prejudicam a mídia independente.

“Os algoritmos deveriam ser neutros”, disse, acrescentando que houve mudanças que reduziram o alcance de veículos alternativos. 

Ele também criticou propostas anteriores de regulação que, em sua visão, beneficiariam grandes grupos de mídia, em especial a Globo, em detrimento da comunicação independente.

Papel da imprensa independente

Ao final, Attuch destacou o papel da imprensa independente no debate público e na defesa de um projeto de país. Para ele, esses veículos cumprem função essencial ao oferecer análises críticas e ampliar o pluralismo informativo.

“O compromisso não é com a pessoa física do Lula, é com o Brasil”, afirmou, ressaltando que o debate político deve estar orientado por um projeto nacional de desenvolvimento.

A entrevista evidencia que, embora Lula ainda lidere o cenário político, sua reeleição dependerá da capacidade de apresentar uma visão estratégica de longo prazo, capaz de mobilizar diferentes setores da sociedade — especialmente a juventude — em torno de um projeto consistente para o futuro do país.

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