“Brasil vai abrir unilateralmente o seu mercado”, alerta Juliane Furno
Economista diz que acordo Mercosul–UE pode reduzir soberania e limitar política industrial em um mundo mais protecionista
247 - A economista Juliane Furno fez um alerta contundente sobre os riscos do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, ao sustentar que o desenho em discussão tende a ampliar assimetrias e restringir a capacidade do Brasil de conduzir políticas de desenvolvimento. Para ela, o momento internacional — marcado por instabilidade geopolítica e retorno do protecionismo — exige prudência antes de assumir compromissos de liberalização ampla.
As declarações foram dadas no programa Brasil no Mundo, exibido pela TV Brasil e publicado no YouTube, no episódio “Brasil no Mundo - Acordo Mercosul–União Europeia e nova disputa geopolítica na América Latina”.
“As placas tectônicas estão se movimentando”
Ao contextualizar sua posição, Juliane afirmou que o mundo vive uma fase de transformações aceleradas e insegurança crescente. “O mundo está passando por grandes transformações… a geopolítica cada vez mais incerta, insegura, instável. Vamos dizer que as placas tectônicas estão se movimentando”, disse. Na avaliação dela, esse ambiente deveria levar países como o Brasil a “ter muito cuidado” com o rumo estratégico adotado.
A economista também destacou o avanço de políticas industriais nos principais centros do capitalismo, apontando que o discurso do livre comércio não domina mais o cenário como antes. “Estamos vivendo também uma era de protecionismo”, afirmou, citando iniciativas dos Estados Unidos e da Europa.
A crítica central: abertura industrial e ganhos assimétricos
O ponto mais sensível, segundo Juliane, está no impacto produtivo do acordo. Na leitura dela, o Brasil abriria espaço para a entrada de bens industriais europeus sem contrapartidas proporcionais. “O Brasil vai abrir unilateralmente o seu mercado para absorver as mercadorias industrializadas europeias”, declarou.
Ela acrescentou que, do lado europeu, a abertura para produtos primários do Mercosul seria limitada por cotas e por pressões internas, especialmente do setor agrícola. “Não é que a Europa abre o seu mercado para absorver as mercadorias primárias, ela abre cotas”, disse, mencionando resistências que, no debate, foram associadas sobretudo a agricultores na França.
Compras públicas e política industrial: “instrumento muito importante”
Juliane também apontou o que considera um risco direto à soberania econômica: a redução das margens de manobra da política industrial brasileira, especialmente por meio das regras sobre compras governamentais. “O acordo prevê que o mercado brasileiro vai abrir o seu mercado de compras públicas para que possa ser disputado pelas empresas europeias”, afirmou.
Para ela, esse ponto é crucial porque o Estado usa compras públicas como motor de desenvolvimento. “As compras públicas são um instrumento muito importante de desenvolvimento industrial, de desenvolvimento do mercado interno”, disse, ao defender que esse tipo de ferramenta não deveria ser enfraquecido em um acordo comercial desse porte.
Minerais críticos e transição energética: “controle” como vantagem estratégica
A economista destacou ainda a disputa internacional por insumos estratégicos para a transição energética e alertou para a possibilidade de o Brasil perder instrumentos de política tarifária e de estímulo ao beneficiamento interno. “A transição energética vai exigir cada vez mais o controle sobre esses minerais críticos”, afirmou, lembrando que o Mercosul concentra reservas relevantes.
Na visão dela, a restrição à taxação ou a políticas que incentivem o uso industrial doméstico desses minerais pode travar uma estratégia de agregação de valor. “A não possibilidade de taxação… ou estímulo do seu uso, beneficiamento interno… nos deixa de mãos mais amarradas”, disse.
“Não compensa”: Juliane questiona aposta política no acordo
Juliane também avaliou a dimensão política do tema. Ao ser provocada sobre a ideia de que o acordo poderia fortalecer o multilateralismo defendido pelo presidente Lula, ela foi direta: “Acho que não”, respondeu, ao ponderar que o Brasil deveria priorizar pactos com maior potencial de ganhos concretos.
Nesse sentido, ela defendeu que a estratégia brasileira poderia buscar iniciativas mais favoráveis em outras frentes: “Compensaria se o Brasil tivesse à frente da constituição de acordos mais vantajosos… olhando principalmente pros Brics”, citando transferência tecnológica, novas plantas industriais e financiamento menos dependente do sistema dólar.
Ao concluir sua posição, Juliane resumiu o risco que enxerga no tabuleiro global: o Brasil e a América Latina poderiam se beneficiar da rivalidade entre grandes potências com maior capacidade de barganha — mas, para isso, precisariam evitar um acordo que, nas palavras dela, “tem mais prejuízos do que benefícios”. Assista:



