Breno Altman: Trump mostrou que EUA são a única superpotência global
Analista afirma que força militar segue definindo a hegemonia internacional e alerta para ofensiva imperialista na América Latina e pressão sobre o Brasil
247 – Em entrevista ao programa Boa Noite 247, o jornalista e analista político Breno Altman avaliou que a postura agressiva de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, revelou com nitidez aquilo que muitos analistas vinham relativizando nos últimos anos: os EUA continuam sendo a única superpotência global em termos geopolíticos, principalmente por seu poder militar e pela capacidade de impor interesses “na força das armas”. A conversa ocorreu em meio ao debate sobre ações recentes de Washington contra a Venezuela e sobre a apreensão de uma embarcação de bandeira russa no Atlântico Norte.
Logo no início, Altman defendeu que os fatos recentes obrigam uma revisão das expectativas de que a hegemonia norte-americana já estaria em colapso. “Eu acho que todos nós… nos deixamos tomar nos últimos anos por uma certa percepção de que os tempos dos Estados Unidos estavam contados”, afirmou. Em seguida, cravou: “A verdade tá muito longe de ser assim. É verdade que os Estados Unidos vivem um processo de decadência, mas os Estados Unidos são a única superpotência global”.
A definição de superpotência: impor interesses pela força
Para Altman, a definição de superpotência não passa por prestígio diplomático ou influência cultural — e sim pela capacidade militar de agir em escala planetária. “O que que é uma superpotência? É quem consegue impor pela força das armas os seus interesses. Isso é ser superpotência”, disse.
Ele insistiu que, desde os impérios antigos até a era contemporânea, hegemonia internacional depende de força bélica. “Sem força bélica em escala mundial não há hegemonia mundial”, afirmou, numa crítica direta a interpretações que enfatizam conceitos como “soft power”.
“Tem muita teoria… essas bobagens sobre soft power. Nada disso tem relevância no mundo. O que importa para valer é força militar”, declarou, citando o Império Persa, o império grego, o Império Romano e a experiência da União Soviética como exemplos históricos em que a capacidade militar determinou o peso geopolítico.
China e Rússia ainda seriam potências regionais
Embora reconheça a ascensão econômica da China e o poderio militar da Rússia, Altman argumentou que nenhum dos dois países dispõe, neste momento, de projeção global capaz de rivalizar com os EUA. “A China e a Rússia são potências regionais, não são potências mundiais”, afirmou.
Na avaliação dele, a China tem um poder militar crescente, mas ainda orientado por uma estratégia de estabilidade para garantir seu desenvolvimento econômico, evitando uma confrontação direta e definitiva com Washington. Já a Rússia, embora tenha um exército altamente preparado e capacidade nuclear relevante, não teria a “capilaridade marítima” que define uma potência universal.
“O domínio marítimo dos Estados Unidos é muito superior… os Estados Unidos controlam os mares e você não consegue ser uma potência geopolítica universal sem controlar os mares”, disse, ao responder a um espectador que defendia que a Rússia teria ultrapassado os EUA por estar à frente na tecnologia de mísseis.
Altman ainda alertou contra análises que, segundo ele, são marcadas por “ufanismo”. “Eu tenho horror ao ufanismo… a visão de que a Rússia ultrapassou os Estados Unidos é uma visão ufanista. Ela não é uma visão científica”, afirmou.
Venezuela como laboratório de uma ofensiva imperialista
Um dos pontos centrais da entrevista foi a avaliação de que a Venezuela se tornou um epicentro da ofensiva norte-americana na América Latina. Para Altman, a pressão sobre o chavismo não é um fato isolado: é uma mensagem a toda a região.
“Nós estamos vivendo uma duríssima ofensiva imperialista na região. Mudou a situação”, disse, lembrando que, há cerca de um ano e meio, as maiores economias latino-americanas estavam sob governos de esquerda, algo inédito — mas que vem sendo revertido com vitórias da extrema direita e golpes institucionais.
Ele também citou o que chamou de estratégia explicitada pelo próprio Trump: uma radicalização da Doutrina Monroe, ironicamente apelidada por ele de “doutrina Don Roll”. Segundo Altman, a ideia central é impor governos vassalos no continente.
“Ele busca impor pela força que na América Latina toda tenha governos vassalos… que a América Latina deve ser tratada como um protetorado norte-americano”, afirmou. “E eles dizem isso claramente”.
Críticas ao Brasil e ao erro em relação à Venezuela
Altman fez críticas duras à política do governo brasileiro em relação à Venezuela, especialmente após a eleição de julho de 2024. Segundo ele, o Brasil errou ao não reconhecer a vitória de Nicolás Maduro e ao vetar a entrada do país no Brics, fragilizando a região e a própria posição brasileira.
“O maior erro… foi não ter reconhecido a vitória de Maduro na eleição de julho de 2024 e ter vetado a Venezuela no Brics… fragilizando a América Latina e fragilizando o próprio Brasil”, disse.
Para Altman, a Venezuela é uma batalha decisiva, porque ali o Estado teria adquirido grau profundo de soberania e autonomia. “Na Venezuela houve uma revolução política. O Estado passou às mãos das classes populares”, argumentou, contrastando com o Brasil, onde a esquerda, segundo ele, “mal e porcamente” controla o Executivo.
“Petróleo por poder”: o paralelo com Lenin
Outro trecho marcante foi quando Altman analisou a hipótese de negociações petrolíferas com os EUA para preservar o poder político do chavismo. Ele afirmou que, diante da assimetria militar e econômica, a Venezuela precisaria ganhar tempo mesmo que isso custasse concessões pesadas.
“O que importa para a sobrevivência do processo revolucionário na Venezuela não é o petróleo, é o poder. A Venezuela tem que negociar petróleo por poder”, afirmou.
Para sustentar a tese, ele recorreu ao exemplo da Revolução Russa, em 1917, quando Lenin aceitou perdas territoriais no tratado de Brest-Litovski para preservar o governo bolchevique. “Nós temos que trocar terra por poder”, citou Altman, parafraseando Lenin.
Segundo ele, o objetivo tático do chavismo seria resistir até novembro, quando as eleições parlamentares nos Estados Unidos poderiam alterar a correlação de forças internas e limitar o poder de Trump.
A disputa no Brasil e a soberania como tema eleitoral
Ao abordar a eleição brasileira, Altman afirmou que soberania nacional deve ser o eixo principal da campanha política e que os EUA irão intervir no processo eleitoral, direta ou indiretamente.
“Os Estados Unidos intervirão nas eleições brasileiras. Já o estão fazendo”, afirmou, dizendo que ataques à Venezuela funcionam como recado aos demais países: “Elejam ou reelejam um governo que não se ajoelhe a Washington. E o que vocês estão assistindo aqui é o que lhes aguarda”.
Altman também avaliou que o tema da soberania foi decisivo para a recuperação do presidente Lula nas pesquisas no ano anterior. “O povo brasileiro é muito sensível ao tema da soberania”, disse. E acrescentou: “A extrema direita… é inimiga da soberania brasileira”.
Ao final, sustentou que para Trump é estratégico virar o jogo no Brasil, pois sem isso seria difícil manter hegemonia na América Latina: “Vencer a disputa eleitoral do Brasil é decisiva… A batalha do Brasil é decisiva”, afirmou, prevendo pressão intensa de Washington.
Crítica à esquerda: falta de formação política e disputa comunicacional
Altman encerrou a conversa apontando um problema que, segundo ele, fragiliza a esquerda brasileira: a falta de investimento em informação, educação política e disputa no campo da comunicação.
“O governo brasileiro não se dedica a informar e educar o povo”, criticou. Ele disse que falta transformar o discurso presidencial em instrumento pedagógico e que isso cobra preço em momentos decisivos, especialmente diante de uma ofensiva imperialista e de pressões externas crescentes.



