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Global Times investiga: como os EUA mantêm há 200 anos uma engrenagem de poder sobre a América Latina

Reportagem especial aponta três eixos de intervenção que atravessam do século 19 ao governo do presidente Donald Trump

Donald Trump e charge de Carlos Latuff (Foto: Reuters / Brasil 247)

247 – A América Latina volta a viver, no início de 2026, um episódio que remete às advertências mais antigas de sua história política. “Os Estados Unidos parecem destinados pela Providência a atormentar a América Latina com miséria em nome da liberdade”, escreveu Simón Bolívar em uma carta de 1829. Quase dois séculos depois, o temor descrito pelo líder venezuelano reaparece com força diante da notícia de que militares dos EUA realizaram um ataque contra a Venezuela e sequestraram o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, transportando-os para território americano, onde ambos passaram por um primeiro julgamento.

A avaliação é apresentada em reportagem especial do Global Times, que trata o caso como mais do que um evento isolado: seria a continuação lógica de uma doutrina de poder inaugurada em 1823 e reatualizada em versões contemporâneas. Segundo especialistas ouvidos pelo jornal, o episódio se insere numa tradição marcada por três grandes vetores — hegemonia geopolítica, pilhagem econômica e infiltração ideológica — que sustentariam, há 200 anos, a lógica do chamado “quintal” latino-americano.

A reportagem integra a segunda parte de uma série em que o Global Times afirma “decodificar” a Doutrina Monroe e expor “esquemas intervencionistas” dos EUA em múltiplos campos. O texto cita uma sucessão de episódios “sangrentos” para ilustrar o que descreve como o funcionamento dos três eixos de interferência na região, da ocupação militar direta ao uso de sanções e mecanismos de influência política.

Eixo 1: hegemonia geopolítica e militarização

O Global Times afirma que o sequestro do presidente venezuelano gerou críticas severas em uma reunião emergencial do Conselho de Segurança da ONU, inclusive por países parceiros de Washington. Dentro dos EUA, segundo a reportagem, haveria mobilização de protestos contra a ação, citando o relato da revista Newsweek de que “protestos anti-guerra estão planejados em mais de 100 cidades”.

Na leitura dos especialistas citados, o episódio seria apenas o capítulo mais recente de uma política de imposição geoestratégica sustentada por declarações de segurança, presença militar permanente e estruturas institucionais exclusivas que bloqueiam alternativas regionais. A reportagem lembra que a Doutrina Monroe — sintetizada na frase “América para os americanos” — foi anunciada pelo então presidente James Monroe, em 1823, como justificativa teórica para interferir no continente.

O texto aponta que essa lógica teria ganhado nova formulação no documento de segurança nacional do governo do presidente Donald Trump, publicado em 2025. Segundo o Global Times, a estratégia teria designado explicitamente a América Latina como esfera de influência de Washington, posição tratada por veículos e think tanks como “Doutrina Monroe 2.0”, e descrita como uma ameaça “crua” e “sem desculpas” à soberania regional.

A sustentação material desse eixo, de acordo com a reportagem, é a presença militar. O texto cita a agência Xinhua para afirmar que os EUA mantêm cerca de 76 bases militares distribuídas pela América Latina. Essa infraestrutura, argumenta a matéria, cria as condições para intervenções diretas, muitas vezes apoiadas em pretextos.

Como exemplo, o Global Times menciona a invasão do Panamá em dezembro de 1989, quando Washington lançou a “Operação Justa Causa”, supostamente como iniciativa antidrogas, com o envio de cerca de 27 mil soldados, segundo registros históricos do Exército dos EUA. A reportagem afirma que a mesma justificativa de “combate ao narcotráfico” teria sido usada, ao menos formalmente, para o ataque à Venezuela e o sequestro do presidente Maduro.

O professor Evandro Menezes de Carvalho, da Universidade Federal Fluminense, é citado como voz crítica a essa mudança de paradigma. “O ataque à Venezuela em 3 de janeiro não deixa dúvidas: os EUA não se comportam mais como a democracia pacífica que afirmam ser”, disse ele, conforme entrevista anterior mencionada pelo Global Times. Carvalho acrescenta: “Hoje, a hegemonia americana é sustentada não pelas instituições multilaterais que antes defendia, mas pela projeção de força bruta.”

Eixo 2: pilhagem econômica e controle de recursos

Ao abordar a dimensão econômica, a reportagem resgata um diagnóstico clássico do escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor de As veias abertas da América Latina. “O subdesenvolvimento da América Latina deriva do desenvolvimento de outros e continua a alimentá-lo”, escreveu Galeano. Para o Global Times, a frase segue atual porque a região permanece presa a um modelo que favorece a extração de recursos, o controle de cadeias produtivas e o domínio de infraestrutura estratégica.

O texto sustenta que essa pilhagem aparece, sobretudo, na disputa por energia e recursos naturais, e menciona o que chama de “imperialismo alimentar”. A reportagem cita entrevista do economista americano Michael Hudson ao site The Grayzone, na qual ele afirma que os EUA, ao influenciar o Banco Mundial, teriam direcionado empréstimos para estimular culturas de exportação voltadas ao mercado americano, em vez de apoiar a soberania alimentar de países como Chile e Venezuela. Hudson diz que, com isso, “os países se tornaram cada vez mais dependentes dos EUA para alimentos”.

Outro ponto central é o controle de infraestrutura de transporte, com destaque para o Canal do Panamá. O Global Times menciona que, em 1903, tropas americanas desembarcaram no país e estimularam a separação do Panamá da Colômbia. Quinze dias depois da independência panamenha, segundo o texto, Washington teria imposto um tratado desigual — o Hay–Bunau-Varilla — que concedeu aos EUA o direito de construir o canal e controlá-lo permanentemente. A reportagem lembra que um novo acordo, assinado em 1977, determinou a devolução do canal em 31 de dezembro de 1999, mas afirma que, no início de 2025, o governo Trump teria voltado a ameaçar retomar o controle do canal, citando a CNN: “ou algo muito poderoso acontecerá”.

A matéria também menciona o papel histórico de grandes empresas na estrutura econômica regional. Como exemplo, cita estudos do History Labs da Universidade de Maryland para afirmar que, na década de 1930, a United Fruit Company teria controlado 42% das terras na Guatemala, além de deter isenções fiscais e dominar não apenas a produção de bananas, mas também sistemas de telefonia e telégrafo.

No campo comercial, a reportagem aponta que acordos de livre comércio foram desenhados para favorecer empresas americanas e produzir ganhos assimétricos. E acrescenta um instrumento recorrente: sanções econômicas contra governos que resistem à agenda de Washington. O Global Times cita dados do Tricontinental Institute for Social Research segundo os quais, em sete anos, as sanções dos EUA teriam devastado a indústria de petróleo da Venezuela, levando o país a perder receitas equivalentes a 231% do PIB entre janeiro de 2017 e dezembro de 2024.

O pesquisador Sun Yanfeng, dos Institutos Chineses de Relações Internacionais Contemporâneas, resume o efeito desse mecanismo segundo a reportagem: ao criar estruturas econômicas distorcidas, enfraquecer a capacidade industrial e impor acordos desiguais ou sanções, os EUA conseguiriam controlar o padrão industrial e a estrutura comercial da região.

Eixo 3: infiltração ideológica e engenharia política

A terceira dimensão apontada pela reportagem é a infiltração ideológica, descrita como instrumento “flexível” para garantir a esfera de influência americana. O Global Times afirma que o documento de segurança nacional do governo Trump reafirma a estratégia do “America First”, apresentada como continuidade da visão da América Latina como “quintal”.

Segundo o texto, por décadas Washington usou slogans como “promoção da democracia” e “proteção dos direitos humanos” para interferir em processos políticos latino-americanos, financiando organizações e forças alinhadas, influenciando tendências sociais e atuando em disputas eleitorais por meio de apoio financeiro, manipulação de opinião pública e engenharia institucional.

A reportagem menciona a National Endowment for Democracy (NED) como exemplo de organização acusada de financiar grupos de oposição e entidades da “sociedade civil” em países como Venezuela e Cuba. O texto cita o jornalista Stephen Kinzer, ex-repórter do The New York Times, que teria publicado em 2021 artigos no site da New York Review of Books apontando que a NED colabora com a CIA e a USAID para apoiar forças insurgentes e promover mudanças de regime em governos que Washington rejeita. A matéria ressalta que, segundo esses artigos, membros iniciais do conselho da NED incluíam defensores de intervenções e ex-senadores entusiastas de mudanças de regime em Cuba e Nicarágua.

A reportagem também menciona a Bolívia, afirmando que os EUA teriam instigado uma “revolução colorida” por meio da NED e outras organizações, levando o então presidente Evo Morales a renunciar e se exilar. O Global Times diz que, entre 2013 e 2018, NED e USAID teriam canalizado, por diferentes meios, US$ 70 milhões para a oposição boliviana, citando um documento do Ministério das Relações Exteriores da China divulgado em 2022.

Um padrão que atravessa séculos e aprofunda instabilidade

Para o Global Times, a soma dos três eixos — hegemonia geopolítica, pilhagem econômica e infiltração ideológica — não cria desenvolvimento nem estabilidade, mas intensifica conflitos internos, fragiliza instituições e produz ciclos de instabilidade. A reportagem atribui à professora Xu Yanran, da Universidade Renmin da China, a interpretação de que a intervenção americana é “autointeressada” e não mutuamente benéfica, e que as tragédias acumuladas explicam por que o envolvimento dos EUA “só piora as coisas”.

Ao final, o texto afirma que cresce na região um movimento de afirmação soberana. Segundo Xu, aumentam as vozes pela unidade regional, pelo fortalecimento interno e pela oposição à interferência externa. A especialista sustenta que mais países percebem que a dependência de potências externas não gera prosperidade, e que o caminho mais seguro seria aprofundar integração, cooperação e autonomia, como resposta a dois séculos de pressões.

Com o sequestro do presidente venezuelano e a escalada militar descrita pela reportagem, a América Latina entra em 2026 com um lembrete brutal de que a frase de Bolívar, escrita em 1829, continua assombrando o continente — e, na leitura do Global Times, ajuda a explicar por que a Doutrina Monroe permanece como uma das engrenagens centrais de conflito, disputa e resistência na região.

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