Celso Amorim alerta para risco real de guerra mundial e diz que já não há ordem global
Assessor especial do presidente Lula diz que guerra contra o Irã expõe os limites do poder norte-americano
247 – Em entrevista ao programa Forças do Brasil, da TV 247, conduzida pelo jornalista Mario Vitor Santos e exibida em 4 de abril, o assessor-chefe da Assessoria Especial da Presidência da República, Celso Amorim, traçou um diagnóstico sombrio sobre a crise internacional desencadeada pela guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Ao longo da conversa, ele afirmou que o mundo vive uma situação “gravíssima”, com risco concreto de ampliação dos conflitos regionais e de colapso definitivo da já enfraquecida ordem internacional.
Ao comentar o cenário geopolítico, Amorim foi direto ao apontar a dimensão da ameaça. “Nós estamos vivendo uma situação que pode deflagrar um conflito muito maior”, disse. Em outro momento, ao ser questionado sobre a possibilidade de uma terceira guerra mundial, foi ainda mais enfático: “É um risco real”.
Escalada militar e temor de um conflito impensável
Logo no início da entrevista, Amorim definiu sua avaliação da guerra como a “pior possível”. Segundo ele, a ofensiva contra o Irã não apenas amplia a devastação no Oriente Médio, como também se conecta a outros focos explosivos, como o sul do Líbano, Gaza e a guerra na Ucrânia. Na sua avaliação, não é mais possível tratar essas frentes de forma isolada.
Ao mencionar a notícia de que um bombardeiro nuclear teria sobrevoado o Irã, Amorim ressaltou o grau extremo de periculosidade da crise. “Se isso for verdade, é algo mais dramático ainda, porque uma guerra nuclear, uma vez iniciada, não sei como termina”, afirmou.
A partir daí, ele sustentou que o cenário atual já exige que se pense no que antes parecia impensável. Ao lembrar que os ataques ocorreram sem cálculo adequado das consequências, resumiu: “Os ataques foram feitos sem medir as consequências”.
Irã não é um país que possa ser derrotado com facilidade
Um dos argumentos centrais de Amorim foi a crítica à subestimação ocidental em relação ao Irã. Para ele, Washington e Tel Aviv erraram ao imaginar que a eliminação de lideranças ou a intensificação dos bombardeios produziria um colapso rápido do país ou uma reconfiguração imediata do poder interno.
“Estamos falando de um país que existe há 3.000 anos”, afirmou, ao destacar a profundidade histórica, cultural e política do Estado iraniano. Em sua leitura, trata-se de uma sociedade complexa, moldada por milênios de continuidade civilizatória e por uma notável capacidade de absorção cultural. Por isso, considerou ilusória a aposta numa implosão rápida do regime.
Ele foi taxativo ao afirmar que o país sairá ferido, mas não destruído: “Certamente o Irã sairá muito mutilado desse conflito, mas continuará a ser um Irã inteiro”. Mais adiante, reforçou que o país sobreviverá como Estado: “O Irã, na minha opinião, vai sobreviver como um país íntegro”.
A eliminação de negociadores torna a paz mais difícil
Amorim dedicou parte importante da entrevista à destruição da confiança diplomática. Com experiência direta nas tratativas que levaram à Declaração de Teerã, durante o governo do presidente Lula, ele recordou que negociações com o Irã sempre foram duras, mas nunca fechadas ao diálogo. Por isso, avaliou como particularmente grave o fato de ataques terem ocorrido em meio a tratativas que, segundo relatos diplomáticos citados na entrevista, avançavam.
A seu ver, uma negociação de paz exige um elemento básico. “Há uma coisa, um fator que é essencial numa negociação, absolutamente essencial, é confiança”, disse. Em seguida, explicou o efeito devastador do ataque sobre qualquer tentativa de acordo: “Quando você tá em meio a uma negociação e faz uma pausa, e há um ataque que, digamos, frustra totalmente os objetivos da negociação, vai ser quase impossível você retomar isso”.
Na visão do ex-chanceler, a ofensiva também agravou o quadro político interno iraniano, ao enfraquecer interlocutores civis e fortalecer os setores militares. “Você elimina as pessoas com quem bem ou mal é possível negociar e o poder se esvazia ou aumenta o poder da força militar”, observou. Segundo ele, isso tende a fortalecer a Guarda Revolucionária em detrimento de movimentos civis e de correntes mais propensas à negociação.
Ordem mundial em colapso
Ao analisar os impactos mais amplos da guerra, Amorim afirmou que o problema já ultrapassa em muito o plano militar. Para ele, o colapso da ordem internacional já está em curso também na economia e nas instituições multilaterais.
Sua definição foi contundente: “Já não há mais a ordem mundial”. E reforçou: “Não há mais ordem mundial, não há mais”.
O assessor do presidente explicou que o enfraquecimento das regras multilaterais não começou agora, mas se acelerou com o abandono de princípios que sustentavam o comércio e a coordenação internacional. Ao citar a Organização Mundial do Comércio e o princípio da nação mais favorecida, argumentou que a fragmentação das relações econômicas, subordinadas crescentemente a interesses políticos e geopolíticos, destruiu a previsibilidade sistêmica.
Nesse contexto, ele também criticou a tentativa de restaurar o G7 como centro da governança global, em detrimento de fóruns mais representativos como o G20. Para Amorim, há um claro retrocesso em marcha. “Nós estamos vendo um retrocesso muito grande”, afirmou.
Um mundo regido pela força, mas com limites
A entrevista avançou para uma reflexão mais ampla sobre a natureza do sistema internacional atual. Concordando com a ideia de que o mundo vive uma lógica em que a força prevalece, Amorim advertiu, contudo, que mesmo o poder bruto encontra limites.
Ao ser provocado sobre um ambiente de tipo hobbesiano, respondeu que a realidade talvez seja ainda pior: “As selvas são mais harmoniosas que o mundo de hoje”. Em outro momento, observou que os Estados Unidos saem enfraquecidos da crise, justamente porque não obtiveram o resultado esperado no tempo imaginado. “Certamente saem mais fracos porque eles não obtiveram o resultado que esperavam com a rapidez que eles esperavam”, afirmou.
Apesar disso, rejeitou qualquer resignação diante do caos. “Eu não acho que nós devemos nos conformar com esse mundo. Nós devemos continuar a lutar por um mundo onde haja uma ordem”, declarou. Mas advertiu que isso exigirá preparação política e diplomática para o pós-guerra, seja qual for a escala final do conflito.
Golfo, Líbano e o risco de contágio regional
Ao tratar das consequências regionais, Amorim descreveu uma cadeia de insegurança que já afeta os países do Golfo e o conjunto da Ásia Ocidental. Na sua avaliação, bases norte-americanas instaladas para garantir segurança acabaram se convertendo em focos de vulnerabilidade. Isso tem efeitos econômicos, migratórios e políticos imediatos.
O ex-chanceler também chamou atenção para o drama do Líbano, classificando como gravíssima a situação no sul do país. Segundo ele, o aprofundamento da presença israelense e a tragédia humanitária ali em curso tendem a disseminar ressentimento por toda a região. “Não se pode subestimar o que tá acontecendo no Líbano”, advertiu.
Sobre os países árabes, Amorim disse não enxergar uma transformação estrutural imediata, mas previu danos econômicos e instabilidade persistente. Segundo ele, Estados que tentavam se consolidar como polos turísticos e financeiros, como Dubai e Doha, já sentem o peso do ambiente de insegurança criado pela escalada bélica.
Palestina segue como núcleo irresolvido da crise
Mesmo com a centralidade do conflito com o Irã, Amorim insistiu que a questão palestina continua no coração da instabilidade regional. Para ele, enquanto não houver solução para a Palestina, o Oriente Médio seguirá funcionando como uma zona permanente de combustão geopolítica.
“O problema do Oriente Médio é muito complicado enquanto a questão Palestina não for resolvida”, afirmou. Em seguida, definiu o conflito palestino como um elemento permanente de deterioração regional: “Aquilo sempre é um fermento”.
Ao mencionar Gaza, observou que a nova guerra acabou soterrando o debate internacional sobre os crimes já em curso no território palestino. Também lamentou o retrocesso em relação a momentos anteriores, quando ainda percebia, em Israel e na Palestina, alguma disposição real de negociação. “Hoje não vejo nada disso”, resumiu.
Trump, Estados Unidos e os reflexos sobre o Brasil
Na reta final da entrevista, Amorim foi questionado sobre os reflexos da crise para o Brasil, inclusive em relação às eleições e ao risco de interferência externa por parte do presidente Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos.
Ele reconheceu que tudo o que ocorre no mundo afeta diretamente o Brasil, seja pelo preço do petróleo, seja pela disponibilidade de fertilizantes. Mas, quanto à eventual ingerência política direta, disse ver contradições dentro dos próprios Estados Unidos.
Segundo Amorim, parte do establishment norte-americano ainda opera com referências como a Doutrina Monroe e a ideia de áreas de influência, o que pode alimentar pressões sobre a América Latina. Ao mesmo tempo, afirmou que há também setores pragmáticos que compreendem o peso específico do Brasil e a inconveniência de uma confrontação aberta.
Sua aposta é que prevaleça essa segunda visão. “Eu confio que predominará essa segunda visão”, disse, ao defender uma relação de respeito recíproco entre os países. Ainda assim, deixou claro que a preocupação é legítima e que o Brasil não pode ignorar o ambiente internacional.
Risco real e futuro incerto
Ao encerrar a entrevista, Amorim reiterou que a soma de guerras simultâneas em diferentes regiões do planeta cria um quadro de enorme instabilidade. Na sua imagem, os conflitos hoje se assemelham a bolhas próximas umas das outras, prestes a se fundirem numa única explosão geopolítica.
“Se de repente um fator que escape até o controle, até o desejo de quem faz, se comunicam, você tem uma guerra de proporções mundiais”, alertou. Embora tenha ponderado que isso não significa necessariamente uma guerra total nos moldes do século 20, enfatizou que o risco é alto e não pode ser banalizado.
Sua conclusão foi tão sóbria quanto inquietante. O mundo já não opera sob normas estáveis, a diplomacia perdeu espaço para a força, e os conflitos deixaram de ser compartimentos isolados. Nesse ambiente, segundo Celso Amorim, a tarefa dos que ainda defendem o multilateralismo e a paz será impedir que a fragmentação atual desemboque numa catástrofe de escala global.


