Chico Teixeira: “os EUA temem um Brasil com grande economia soberana”
Historiador afirma que governo Trump tenta redirecionar interesses do Império e vê Brasil como obstáculo por sua soberania, recursos e posição global
247 – O historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva, conhecido como Chico Teixeira, afirmou em entrevista ao programa Conversas com Hildegard Angel, na TV 247, que os Estados Unidos, sob o governo de Donald Trump, temem a emergência de um Brasil soberano, estável e economicamente forte.
Segundo ele, Washington “detestaria” a consolidação de uma grande potência no sul do continente, com população numerosa, recursos naturais estratégicos e uma economia em crescimento.
"Os Estados Unidos detestariam e estão detestando a emergência de uma grande potência, uma grande economia, uma economia institucionalizada, estável, em crescimento, com uma grande população e imensos recursos naturais", afirmou.
O Brasil como alvo estratégico
Para Chico Teixeira, o Brasil passou a ser visto como problema porque tem um presidente que se posiciona com autonomia diante dos Estados Unidos e de Israel.
"Quando a gente tem um presidente altivo, um presidente que tem dito aos Estados Unidos e a Israel o que os demais presidentes raros deles têm a coragem de dizer e que tem se situado como um democrata independente e soberano, isso é um imenso problema nesse momento", disse.
O historiador citou ainda o Pix como um dos fatores de incômodo para os EUA. Segundo ele, o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos reduz a dependência do dólar, do sistema bancário norte-americano e das grandes bandeiras internacionais de cartão.
"Eles têm horror do Pix. O Pix é uma coisa que acaba com a dominância das finanças americanas sobre o mundo e questiona o dólar", afirmou.
Trump, energia e império
Chico Teixeira rejeitou a ideia de que Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, aja de forma improvisada ou irracional. Para ele, há lógica na política externa agressiva de Washington.
"Eu considero o Trump um personagem odioso, simplesmente odioso. Agora, eu vejo uma lógica e uma lógica muito grande no que ele tá fazendo. Não me parece maluquice, loucura ou coisa parecida", declarou.
Na avaliação do historiador, Trump busca controlar fontes estratégicas de energia e reorganizar os custos do império norte-americano.
"Ele tá colocando a mão na energia do mundo inteiro e tá fazendo isso com muita coerência", afirmou.
Big Techs e soberania nacional
A entrevista também abordou o poder das Big Techs e da inteligência artificial. Hildegard Angel citou o avanço de empresas como Palantir e a ameaça de um mundo sem soberanias nacionais.
Chico Teixeira afirmou que a soberania dos Estados é hoje um obstáculo ao poder irrestrito das grandes empresas de tecnologia.
"É isso que Palantir não quer. Palantir quer um mundo sem soberanias, onde ele possa agir livremente, não tenha nenhuma justiça que possa processá-los", disse.
Ele também criticou o “colonialismo mental” brasileiro no campo tecnológico, citando a dependência de universidades públicas em relação a plataformas como Google.
"Como que uma universidade, a maior universidade federal do Rio de Janeiro, usa a plataforma Google? Quer dizer, meus dados todos estão à disposição lá deles", afirmou.
Gaza, Irã e a crise moral do Ocidente
Outro ponto central da conversa foi a guerra no Oriente Médio e o genocídio em Gaza. Chico Teixeira afirmou que a política externa norte-americana mantém continuidade entre democratas e republicanos.
"Israel foi armado, foi equipado e permitiu-se o genocídio em Gaza no governo democrata do Joe Biden", disse.
Para ele, a perda de liderança moral dos Estados Unidos é evidente.
"A hegemonia dos Estados Unidos era uma combinação daquilo que a gente chama de hard power, poder militar, e soft power, a capacidade de convencimento e de liderança moral. Isso tá perdido", afirmou.
Ditadura, tortura e memória histórica
O historiador também comentou processos judiciais movidos contra pesquisadores que identificam torturadores da ditadura militar.
"Se aceita que houve tortura, mas não se aceita que houve torturadores", afirmou.
Chico Teixeira explicou que participa do projeto Memórias Reveladas, organizado pelo Arquivo Nacional, dedicado ao levantamento de documentos sobre torturados e torturadores.
"Nossa função é levantar documentação, recolher documentação, listar nomes de torturados e de torturadores e colocar isso no Arquivo Nacional", disse.
O desafio da esquerda e o conselho a Lula
Ao falar sobre o futuro político do Brasil, Chico Teixeira afirmou que um novo governo progressista é possível, mas exigirá trabalho intenso, diálogo com mulheres, pobres e classe média, além de enfrentamento ao endividamento e às apostas online.
"Precisamos muito conquistar a classe média. Não podemos entregar a classe média ao fascismo", declarou.
Ao final, perguntado sobre que conselho daria ao presidente Lula, o historiador respondeu:
"Eu acho que a coisa que o Lula deve fazer é fazer o que ele sempre fez muito bem: falar com o povo brasileiro"



