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"EUA não vencerão guerra contra Irã", afirma John Mearsheimer

Cientista político diz que conflito foi impulsionado por Israel e alerta para riscos estratégicos e econômicos globais

John Mearsheimer (Foto: Universidade de Chicago)

247 - O cientista político John Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago e um dos principais teóricos do realismo nas relações internacionais, afirmou que os Estados Unidos dificilmente alcançarão seus objetivos militares em um eventual conflito com o Irã. Segundo ele, a guerra não apenas tende ao fracasso estratégico como pode ampliar tensões globais e fortalecer potências rivais.

As declarações foram feitas em entrevista ao programa UpFront, da Al Jazeera. No diálogo, Mearsheimer analisou as motivações do conflito, o papel de Israel na política externa norte-americana e as consequências geopolíticas de uma guerra prolongada no Oriente Médio.

Influência israelense na decisão de guerra

Mearsheimer argumenta que Israel desempenhou papel central na pressão para que Washington adotasse uma postura militar contra Teerã. Segundo ele, líderes israelenses defendem há anos que os Estados Unidos enfrentem diretamente o governo iraniano.

“É bastante claro que Israel tem tentado arrastar os Estados Unidos para uma guerra com o Irã há muito tempo”, afirmou o analista. Ele acrescentou que o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu sempre foi um dos principais defensores dessa estratégia.

O professor também citou a influência de grupos de lobby pró-Israel na política norte-americana. Para ele, essa rede de organizações e aliados políticos exerce forte pressão sobre decisões estratégicas de Washington. Pesquisas e análises sobre o tema destacam que esse lobby atua para garantir apoio incondicional dos Estados Unidos a Israel, influenciando políticas externas relacionadas ao Oriente Médio.

Interesses divergentes entre EUA e Israel

Embora reconheça que os dois países compartilham alguns interesses — como impedir que o Irã obtenha armas nucleares — Mearsheimer sustenta que, em diversas questões regionais, as prioridades estratégicas não coincidem.

“Não há dúvida de que, em várias questões, como o problema palestino ou a possibilidade de atacar o Irã, o interesse nacional americano entra em conflito com o interesse nacional israelense”, afirmou.

Ele questiona ainda a lógica de que o conflito seja motivado por petróleo ou por interesses econômicos. Para o acadêmico, o envolvimento militar dos Estados Unidos na região estaria mais ligado à pressão política interna e à relação estratégica com Israel.

Objetivo real seria mudança de regime

De acordo com Mearsheimer, o principal objetivo do conflito seria promover uma mudança de regime em Teerã. Na visão dele, apenas a substituição do governo iraniano permitiria que Washington e seus aliados alcançassem metas como interromper o enriquecimento de urânio, limitar o programa de mísseis balísticos e reduzir o apoio iraniano a grupos armados no Oriente Médio.

“Se você não conseguir mudança de regime, não conseguirá fazer o Irã desistir do enriquecimento nuclear, dos mísseis balísticos ou do apoio a aliados como Houthis, Hamas e Hezbollah”, declarou.

Apesar disso, o professor considera improvável que tal objetivo seja alcançado apenas por ataques aéreos.

Limitações militares dos Estados Unidos

Mearsheimer afirma que campanhas baseadas exclusivamente em bombardeios raramente conseguem derrubar governos. Ele lembra que, historicamente, mudanças de regime exigiram invasões terrestres de grande escala.

“Uma campanha de punição realizada apenas com poder aéreo nunca conseguiu produzir mudança de regime”, disse.

Para o analista, a alternativa seria uma invasão terrestre — cenário que considera politicamente inviável. Ele cita a dimensão do Irã, comparável à da Europa Ocidental, e sua população de cerca de 93 milhões de habitantes.

Além disso, o especialista aponta a falta de apoio popular nos Estados Unidos para um novo conflito prolongado. Segundo ele, apenas cerca de 20% da população apoiava a guerra no momento em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, decidiu iniciar o conflito.

“Depois do Afeganistão e do Iraque, a população americana não tem interesse em outra guerra terrestre”, afirmou.

Contradições na estratégia de Washington

Durante a entrevista, Mearsheimer também criticou o que considera inconsistências na narrativa da Casa Branca. Segundo ele, as justificativas do governo variam entre diferentes objetivos — como impedir o avanço nuclear iraniano, derrubar o regime ou garantir domínio regional.

Na avaliação do professor, essa falta de clareza estratégica enfraquece a posição norte-americana no conflito.

Ele também questionou a afirmação de Trump de que os Estados Unidos poderiam sustentar uma guerra indefinida graças ao suposto estoque ilimitado de armas.

“O chefe do Estado-Maior Conjunto disse ao presidente que os Estados Unidos não tinham uma opção militar viável no Irã e que um conflito prolongado seria extremamente problemático”, afirmou Mearsheimer.

O acadêmico lembrou ainda que o envio massivo de armamentos para a Ucrânia já reduziu significativamente os estoques militares norte-americanos.

Impactos globais do conflito

Para Mearsheimer, a guerra também produz efeitos significativos no equilíbrio geopolítico global. Na sua análise, Rússia e China podem se beneficiar da situação.

“Para os russos, essa guerra é uma boa notícia”, disse. Segundo ele, a elevação dos preços do petróleo aumenta as receitas de exportação de energia da Rússia.

Além disso, o conflito pode reduzir a quantidade de armas que os Estados Unidos conseguem enviar à Ucrânia, o que favoreceria Moscou no cenário europeu.

A China, por sua vez, também poderia ampliar sua influência internacional. De acordo com o professor, Pequim tende a aparecer como um ator mais estável e previsível no cenário global.

Riscos estratégicos para o futuro

Mearsheimer alerta que o resultado da guerra pode gerar novas tensões entre Estados Unidos e Israel, especialmente se Washington decidir não participar de novas ofensivas contra o Irã após o término do conflito.

“Estamos caminhando para uma situação em que os Estados Unidos podem acabar em desacordo sério com Israel no final dessa guerra”, afirmou.

Para o cientista político, o conflito atual ilustra os limites da estratégia militar como instrumento para remodelar o equilíbrio de poder no Oriente Médio.

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