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Guerra no Irã é alerta para o Brasil ampliar sua autonomia energética, diz Jean Paul Prates

Ex-presidente da Petrobras afirma que tensão no estreito de Ormuz pode pressionar diesel e gás e defende planejamento regional das fontes energéticas

Ex-presidente da Petrobras, Jean Paul Prates (Foto: Reprodução/YouTube)

247 – A escalada da guerra envolvendo o Irã e seus impactos sobre o mercado internacional de petróleo e gás devem servir como um sinal de alerta estratégico para o Brasil. Em entrevista concedida ao jornalista Leonardo Attuch, editor da TV 247, o senador Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras, afirmou que o país precisa aprofundar sua autonomia energética para reduzir a exposição a choques externos como o atual.

Logo no início da conversa, Prates destacou a reação imediata do mercado. “O preço, de fato, como a gente imaginava nesse caso do conflito com o Irã, subiu, deu uma disparada”, afirmou. Segundo ele, em episódios recentes no Oriente Médio os picos de preços foram “espasmódicos”, com altas pontuais seguidas de estabilização. Desta vez, porém, o envolvimento direto do Irã e a ameaça à logística regional tornam o cenário mais complexo e potencialmente mais duradouro.

Estreito de Ormuz e o risco sistêmico

Prates explicou que o estreito de Ormuz é um dos principais gargalos energéticos do planeta. “O estreito de Ormuz escoa, passa por ali cerca de 20% do petróleo no mundo”, afirmou, ressaltando que a rota é vital para economias altamente dependentes do insumo, como China, Índia, Japão e Coreia do Sul.

Ele observou que a crise não se resume à interrupção física do tráfego de navios. “A inflação em relação ao setor não se dá apenas pela interrupção logística, ela se dá também pelo crescimento do preço dos seguros. O seguro contra a guerra, nesse momento, disparou”, disse. Com seguros mais caros e fretes pressionados, o custo global da energia aumenta mesmo que parte do fluxo continue operando.

O ex-presidente da Petrobras também chamou atenção para os efeitos sobre o gás natural liquefeito (GNL), especialmente diante de notícias de suspensão temporária de produção no Qatar. Ele explicou que os navios metaneiros, que transportam gás em estado liquefeito, envolvem riscos ainda maiores em ambiente de conflito. “O potencial explosivo e inflamável de um metaneiro é muito maior”, afirmou.

Pressão sobre o diesel e limites do amortecimento

No caso brasileiro, Prates ponderou que o país dispõe de mecanismos de amortecimento, como produção própria de petróleo e parque de refino relevante. No entanto, alertou que não há como se desvincular completamente das cotações internacionais.

Ele lembrou que cerca de um terço do diesel consumido no Brasil é importado. Caso os preços externos permaneçam elevados por período prolongado, pode haver pressão interna. Ainda assim, defendeu cautela antes de qualquer reajuste imediato, observando que, em crises anteriores, a Petrobras evitou repasses automáticos e aguardou a consolidação de um novo patamar internacional.

Autonomia energética como estratégia de Estado

Para Prates, a principal lição do episódio é estrutural. Ele afirmou que o Brasil precisa aproveitar sua diversidade de fontes para construir um modelo menos vulnerável. “Nós temos um bom problema, um problema típico da seleção brasileira: que craque escalar em que posição. A gente tem craque demais na energia no Brasil”, declarou.

O ex-presidente da Petrobras defendeu que o país explore suas reservas — inclusive na Margem Equatorial — mas com planejamento de longo prazo e uso estratégico das receitas para financiar a transição energética. Segundo ele, a estatal deve continuar como protagonista, inclusive na diversificação da matriz.

Ele também criticou a ideia de que o gás natural possa ser a base estrutural da industrialização brasileira. Na entrevista, argumentou que depender excessivamente do gás — especialmente em um cenário de conflitos geopolíticos — pode ampliar a vulnerabilidade. Defendeu prioridade para fertilizantes e petroquímica no uso do gás nacional, em vez de sua queima intensiva em termelétricas.

Regionalização das soluções energéticas

Outro ponto central defendido por Prates foi a regionalização das estratégias. Para ele, o Brasil já possui condições técnicas para organizar sua matriz com base nas vocações locais — eólica e solar no Nordeste, biocombustíveis no Centro-Oeste e Sudeste, hidrelétricas e biomassa em outras regiões.

Segundo afirmou, insistir em soluções uniformes e centralizadas pode gerar distorções e ineficiências. Ele defendeu que cada região utilize prioritariamente suas próprias fontes, com integração nacional inteligente e planejamento digitalizado, evitando competição predatória entre matrizes.

Crise como advertência

Ao avaliar a duração do conflito, Prates afirmou que, diferentemente de tensões anteriores, o cenário atual pode persistir por mais tempo caso a logística do Golfo continue sendo afetada. Nesse caso, os preços internacionais tenderiam a permanecer pressionados.

Para ele, a crise expõe a fragilidade de países excessivamente dependentes de uma única fonte ou rota. O Brasil, ao contrário, possui vento, sol, biomassa, água e petróleo em abundância. A escolha, segundo sua análise, é estratégica.

Na avaliação do ex-presidente da Petrobras, a guerra no Irã não é apenas um evento geopolítico distante, mas um sinal claro de que autonomia energética deixou de ser discurso e passou a ser necessidade concreta de soberania econômica e estabilidade social.

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