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Marandi diz que Irã prepara guerra longa e acusa EUA e Israel

Em entrevista ao programa 20 Minutos, analista iraniano afirma que Teerã planeja resistência prolongada e liga o conflito à disputa global

Seyed Mohammad Marandi (Foto: Reprodução)

247 - Mohammad Marandi, professor da Universidade de Teerã e ex-assessor de mídia nas negociações nucleares do Irã, afirmou em entrevista ao programa 20 Minutos, que o país se prepara para uma guerra prolongada contra os Estados Unidos e Israel. Na avaliação dele, o confronto atual tem caráter “existencial” para o Irã e já ultrapassa as fronteiras do país, com reflexos em todo o Oriente Médio.

Ao longo da conversa, Marandi sustentou que Washington e Tel Aviv teriam subestimado a capacidade de reação iraniana, tanto do ponto de vista militar quanto político. Segundo ele, a sociedade iraniana teria fechado fileiras em torno do Estado após os ataques, enquanto a estrutura institucional do país seguiria funcionando mesmo após a morte de lideranças políticas e militares mencionadas na entrevista.

Na leitura do analista, os objetivos estratégicos dos Estados Unidos e de Israel estariam ligados a uma ofensiva mais ampla para conter o Irã antes de uma eventual perda de apoio internacional ao projeto sionista. Marandi associou esse movimento ao desgaste de Israel após a guerra em Gaza e argumentou que o governo dos Estados Unidos estaria submetido a forte pressão de seus principais financiadores e aliados.

Ele também rejeitou com veemência as versões correntes no Ocidente sobre os protestos ocorridos no Irã em janeiro. Marandi classificou como “completamente fabricado” o número de mortos atribuído por vozes ocidentais à repressão estatal e afirmou que os distúrbios foram estimulados por potências estrangeiras e por serviços de inteligência ligados aos Estados Unidos e a Israel. Segundo sua narrativa, a violência teria sido usada para criar um pretexto para bombardeios posteriores contra o país.

Ao tratar da reação interna, Marandi disse que o sentimento predominante no Irã é de unidade diante da intervenção externa. Embora tenha reconhecido a existência de diferentes correntes políticas no país, ele afirmou que a maior parte do sistema político rejeita qualquer tipo de ingerência ocidental e se opõe à violência como instrumento de mudança de regime. Também atacou grupos opositores baseados na Europa e nos Estados Unidos, descritos por ele como organizações financiadas por agências ocidentais.

Em outro trecho da entrevista, o professor contestou a interpretação de que o Irã seria uma teocracia no sentido comumente usado por analistas ocidentais. Marandi destacou que presidentes, ministros, parlamentares e autoridades do aparato estatal vêm de áreas civis, acadêmicas e técnicas, e argumentou que a presença da religião na Constituição não elimina a existência de instituições republicanas. Segundo ele, a hostilidade ocidental ao país não decorre da forma de organização interna, mas da postura independente de Teerã e de seu apoio a causas e países sob pressão do Ocidente, como Palestina, Cuba e Venezuela.

Ao comentar o funcionamento do Estado iraniano em meio à guerra, Marandi afirmou que o país manteve a continuidade institucional e operacional mesmo após a morte de figuras centrais. Segundo ele, a sucessão ocorreu de acordo com a Constituição e as Forças Armadas seguem realizando ataques de retaliação. O entrevistado também alegou que a população continua tendo acesso a alimentos e serviços básicos, apesar da intensificação dos bombardeios.

Boa parte da entrevista foi dedicada à denúncia de ataques contra áreas civis. Marandi acusou Estados Unidos e Israel de atingirem cidades, escolas, hospitais, emissoras de rádio e TV, prédios residenciais, equipes de socorro e até caminhões que transportavam mercadorias. Entre os relatos apresentados, ele mencionou a morte de crianças em uma escola logo no primeiro dia de ataques e afirmou que a ofensiva teria recorrido inclusive a bombardeios em sequência contra socorristas.

Na frente militar, o analista sustentou que Washington e Tel Aviv erraram ao imaginar um colapso rápido do Irã. “Eles subestimaram completamente a firmeza dos homens e mulheres iranianos e subestimaram completamente as capacidades e o heroísmo das Forças Armadas iranianas”, disse. Para ele, o cálculo ocidental foi contaminado por “orientalismo, racismo e arrogância”.Marandi afirmou ainda que o Irã se preparou por mais de duas décadas para um possível confronto direto com os Estados Unidos. Segundo sua descrição, o país dispõe de bases subterrâneas de mísseis e drones, além de capacidade industrial própria para sustentar o esforço de guerra. “O Irã está planejando uma guerra muito longa”, declarou, acrescentando que Teerã pretende manter a resistência por um período extenso, se necessário.

Na avaliação do professor, o desgaste econômico também pode atingir com força os países que atacam o Irã. Ele disse que a alta dos preços do petróleo e do gás já pressiona consumidores em várias partes do mundo e advertiu que uma guerra prolongada poderia abrir uma crise econômica global. Ao mesmo tempo, sustentou que a sociedade iraniana estaria preparada para suportar sacrifícios por entender que o país, em sua visão, foi alvo de uma guerra imposta.

Marandi também descreveu o conflito como parte de uma disputa regional mais ampla. Segundo ele, a guerra já estaria se expandindo para Iraque, Iêmen e países do Golfo que abrigam bases norte-americanas ou permitem o uso de seu espaço aéreo por forças dos Estados Unidos. Nesse quadro, argumentou que o chamado “eixo da resistência” atua de forma coordenada, embora cada ator preserve autonomia decisória.

Ao falar sobre Hezbollah, Ansar Allah e grupos armados no Iraque, o entrevistado afirmou que todos enxergam a guerra como uma ameaça à região inteira e à causa palestina. “Eles são aliados. São independentes, mas todos reconhecem que esta é uma ameaça existencial para os povos da região”, afirmou. Na mesma linha, ele vinculou diretamente o conflito com o Irã à continuidade da guerra em Gaza e ao equilíbrio de forças no Oriente Médio.

A entrevista também avançou para o plano geopolítico global. Marandi disse que a ofensiva contra o Irã deve ser entendida dentro de uma estratégia mais ampla dos Estados Unidos para conter a ascensão de países do Sul Global e, por extensão, pressionar China e Rússia. Segundo ele, o controle do Golfo Pérsico afetaria a segurança energética chinesa e ampliaria a margem de pressão ocidental sobre Moscou.

Questionado sobre o papel das Nações Unidas e do sistema internacional, Marandi foi taxativo. “Os Estados Unidos destruíram o direito internacional”, afirmou. Para ele, os organismos multilaterais se mostraram incapazes de frear a escalada e permanecem submetidos à influência de Washington e de seus aliados ocidentais.

Em um dos momentos finais da conversa, o professor fez um apelo por maior aproximação entre América Latina e Irã. Ao comentar o caso brasileiro, disse esperar um afastamento do governo de Brasília em relação a Israel e uma política externa mais conectada ao Sul Global. Também defendeu boicotes econômicos e uma redução da dependência em relação aos Estados Unidos e à Europa.

Marandi encerrou a entrevista dizendo que sua atuação pública decorre menos de uma condição de especialista e mais de um compromisso militante diante do que chama de violência imperial. “Eu sou um ativista que sente que tem a responsabilidade, como ser humano, de fazer o que é certo, mesmo que isso possa ser perigoso”, declarou.

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