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Rui Costa Pimenta critica “lei Tabata”, vê derrota de Trump no Irã e cobra guinada à esquerda no Brasil

Dirigente do PCO aborda censura pró-Israel, crise do imperialismo no Oriente Médio, limites do pragmatismo do PT e cenário da sucessão presidencial de 2026

Tabata Amaral (Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados)

247 – Em entrevista concedida ao jornalista Leonardo Attuch, da TV 247, na sexta-feira, 3 de abril de 2026, Rui Costa Pimenta fez uma longa análise sobre religião, socialismo, censura, Palestina, Irã, identitarismo, eleições presidenciais e os impasses estruturais do Brasil. Ao longo da conversa, o dirigente do PCO criticou duramente o que chamou de avanço do sionismo sobre o debate público brasileiro, condenou projetos de lei que, segundo ele, buscam criminalizar críticas ao Estado de Israel e afirmou que a conjuntura internacional expõe uma derrota política dos Estados Unidos e de Israel diante da resistência iraniana.

Exibida no canal da TV 247 no YouTube, a entrevista também abordou a trajetória pessoal de Rui, que recordou sua formação católica na infância e a ruptura com a religião ainda na adolescência. A partir desse ponto, a conversa avançou por diferentes temas, da simbologia cristã à geopolítica, sempre sob o prisma da análise política e ideológica.

Da formação católica ao marxismo

Ao comentar sua infância, Rui relatou que foi criado em um ambiente de tradição católica, sobretudo pela influência da avó, embora seus pais não fossem religiosos. Segundo ele, a ruptura com a fé ocorreu cedo, ainda no início da adolescência.

“Na infância, eu era um católico bastante compenetrado. Mas, por volta dos 13 anos, no começo da adolescência, passei a refletir sobre essas questões e concluí que a ideia de Deus e da Igreja era uma grande fantasia”, afirmou.

Questionado sobre o simbolismo da paixão de Cristo, Rui reconheceu a centralidade do sofrimento de Jesus para a tradição cristã. Em sua avaliação, esse elemento é decisivo para a força espiritual da religião católica.

“Para os cristãos, esse sofrimento é fundamental. Trata-se do elemento catártico da religião católica, aquilo que produz uma catarse espiritual”, disse.

Ao falar sobre a ressurreição, sustentou que esse é o ponto místico essencial do cristianismo. Para ele, o episódio reforça a dimensão divina de Jesus e explica a força duradoura da narrativa cristã.

Jesus histórico e o cristianismo como socialismo primitivo

Em outro momento da entrevista, Rui afirmou acreditar que a figura de Jesus tem base histórica, embora considere duvidosos muitos detalhes da narrativa consolidada pela tradição religiosa. Ele citou debates sobre a redação tardia dos evangelhos e sobre alterações posteriores nos textos, associadas a necessidades políticas.

“Creio que existe um fundo de verdade histórica. O que realmente aconteceu, porém, é muito difícil de determinar. Há muito estudo sério sobre a origem do cristianismo e sobre a figura de Jesus”, afirmou.

Ao responder se Jesus poderia ser visto como um precursor de ideias comunistas, Rui foi categórico.

“Sem dúvida. O cristianismo foi uma forma primitiva de socialismo”, declarou.

Na sequência, mencionou Rosa Luxemburgo para diferenciar o que chamou de “socialismo cristão” e “socialismo marxista”, argumentando que o primeiro estaria ligado à partilha dos bens existentes, enquanto o segundo se fundamenta na reorganização da produção.

“Acredito que Jesus era socialista. Há muitos elementos na Bíblia que apontam nessa direção. Os primeiros cristãos viviam de maneira comunitária, em um regime de partilha dos bens”, disse.

Projeto apelidado de “lei Tábata” e acusação de censura

Um dos eixos centrais da entrevista foi a crítica de Rui a um projeto apelidado por Attuch de “lei Tábata”, descrito durante a conversa como uma proposta que criminalizaria críticas ao Estado de Israel. Para o dirigente do PCO, trata-se de uma ofensiva de censura impulsionada pelo sionismo internacional.

“É uma barbaridade. Trata-se da pior iniciativa em matéria de censura que apareceu no Brasil”, afirmou.

Em seguida, elevou o tom: “É uma operação do sionismo internacional. Não tenho dúvida disso. É um verdadeiro complô contra o Brasil”.

Na visão de Rui, se aprovada, a proposta serviria para ampliar a perseguição contra movimentos de solidariedade à Palestina.

“É uma lei de censura. Dependendo do que se diga, alguém pode ser condenado a até 12 anos de prisão por criticar o Estado de Israel, que está cometendo um genocídio na Palestina”, afirmou.

Palestina, expropriação histórica e legitimidade da resistência

Ao comentar o slogan “Palestina livre do rio ao mar”, Rui rejeitou a interpretação de que a frase representaria um ataque ilegítimo à existência de Israel. Para ele, trata-se de uma expressão politicamente legítima, relacionada à história da ocupação da Palestina.

“Essa é uma expressão legítima. O problema é que a maioria das pessoas desconhece a história da Palestina e, por isso, forma uma ideia distorcida sobre o que ocorreu ali”, afirmou.

Na sequência, ele descreveu a criação de Israel como resultado de uma expropriação histórica da população árabe palestina.

“A Palestina foi tomada de assalto pelo sionismo, com ajuda do imperialismo britânico e, depois, do imperialismo norte-americano”, declarou.

Também destacou o impacto humano e territorial desse processo.

“Cerca de 1 milhão de palestinos foram forçados a deixar o próprio país. O território hoje reconhecido como palestino corresponde a apenas 22% da Palestina histórica”, disse.

Tábata Amaral, Congresso e pressão política

Ao comentar o papel de Tábata Amaral, Rui rejeitou a hipótese de ingenuidade e afirmou que a deputada atua a partir de uma orientação claramente conservadora.

“Ela não é ingênua. Trata-se de uma política de direita. Essa identificação com o socialismo é uma farsa”, afirmou.

Segundo ele, o que mais chamou atenção foi o fato de parlamentares do PT terem assinado inicialmente a proposta criticada, recuando apenas depois da reação pública.

“Isso mostra que não há, dentro do Congresso Nacional, uma oposição séria a esse tipo de projeto absurdo”, declarou.

Identitarismo e instrumentalização política

Outro ponto forte da entrevista foi a crítica ao identitarismo. Attuch mencionou o argumento, usado por setores pró-Israel, de que a esquerda deveria apoiar o país por ele oferecer mais proteção à população LGBTQIA+ do que sociedades árabes e islâmicas. Rui rejeitou frontalmente essa ideia.

“Esse raciocínio revela uma completa falta de proporção. Não se pode equiparar um genocídio, que é um crime monstruoso, a restrições morais ou culturais existentes em determinadas sociedades”, afirmou.

Para ele, causas legítimas de minorias têm sido instrumentalizadas para justificar políticas de guerra e ocupação.

“A esquerda não pode se basear nesse tipo de falsa equivalência”, disse.

Em outro trecho, foi ainda mais incisivo ao afirmar que, mesmo que o identitarismo não tenha sido criado diretamente por aparelhos de inteligência ou pelo sionismo, foi rapidamente apropriado por esses setores.

“Eles se apoderaram da questão, moldaram sua direção e a utilizam profundamente contra os árabes”, declarou.

Caso Silvio Almeida e crítica ao “linchamento”

A entrevista também abordou o caso do ex-ministro Silvio Almeida. Embora tenha dito não compartilhar de suas posições políticas, Rui condenou o método pelo qual ele foi afastado da vida pública.

“Esse tipo de condenação moral jamais poderia ser adotado pela esquerda como método. Trata-se de uma condenação sumária, sem provas, sem investigação adequada e sem direito efetivo de defesa”, afirmou.

Na avaliação de Rui, Silvio Almeida foi politicamente destruído antes de qualquer apuração consistente.

“Ele foi silenciado, linchado e praticamente eliminado do panorama político”, disse.

Para ele, esse tipo de procedimento é incompatível com a tradição democrática da esquerda e se aproxima de uma lógica persecutória de direita.

Irã, Trump e crise do imperialismo

Ao tratar da guerra no Oriente Médio, Rui disse ver com satisfação política a resistência do Irã diante dos ataques dos Estados Unidos e de Israel, apesar do sofrimento imposto à população civil.

“Considero esse episódio algo transcendental na política internacional. Um país atrasado enfrentou os Estados Unidos e, até agora, conseguiu sustentar sua posição”, afirmou.

Ele acusou Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, e Benjamin Netanyahu de cometerem crimes de guerra.

“A dupla Netanyahu-Trump é formada por dois criminosos de guerra”, declarou.

Rui também afirmou que a ofensiva ocidental não alcançou seus objetivos estratégicos.

“Ninguém conseguiu desobstruir o estreito de Ormuz, e o conflito continua. O Irã segue respondendo militarmente”, disse.

Em sua leitura, o fracasso da operação enfraqueceu Trump dentro do próprio bloco imperialista.

“Trump levou um golpe muito duro com essa aventura no Irã. Ele não esperava por esse resultado”, afirmou.

Irã fortalecido e o eixo de resistência

Rui sustentou ainda que, apesar dos danos materiais provocados pela guerra, o saldo político tende a fortalecer o Irã.

“O regime político iraniano não apenas permaneceu de pé, como saiu fortalecido”, declarou.

Segundo ele, o país preservou sua capacidade militar e reafirmou seu papel no chamado eixo de resistência, formado por forças contrárias à ordem liderada pelos Estados Unidos no Oriente Médio.

“O imperialismo tem como prioridade estratégica conter o Irã, mas está demonstrando não ter capacidade para isso”, afirmou.

Lula, direita e a eleição de 2026

No plano nacional, Attuch perguntou se, diante da possibilidade de uma disputa entre o presidente Lula e nomes como Caiado ou Flávio Bolsonaro, o voto no atual chefe de Estado se tornaria praticamente inevitável. Rui respondeu com cautela, mas reconheceu diferenças importantes.

“Lula não é sionista. Ele condenou explicitamente o genocídio em mais de uma ocasião. Há uma diferença significativa, importante e até decisiva entre ele e os candidatos da direita”, afirmou.

Ao mesmo tempo, criticou a política do governo brasileiro em relação à Palestina, que considerou insuficientemente firme.

Sobre Caiado, Rui avaliou que sua entrada na disputa é um fator novo e potencialmente relevante, sobretudo por seu vínculo com setores organizados do grande capital.

“O grande capital tende a dar muito mais apoio a ele do que a Flávio Bolsonaro, ao menos em um primeiro momento”, afirmou.

PT, pragmatismo e limites estruturais

Ao longo da entrevista, Rui voltou várias vezes ao tema do pragmatismo do PT. Para ele, o partido se adaptou ao sistema político e econômico vigente e abandonou a perspectiva de um enfrentamento estrutural.

“A política do PT não é enfrentar esse sistema, mas vencer eleições e promover algumas reformas. Trata-se de um partido que se acomodou à ordem existente”, afirmou.

Em sua análise, o Brasil segue submetido a uma estrutura econômica de tipo colonial, marcada por privatizações, desnacionalização e transferência de riqueza para o exterior.

“A estrutura econômica brasileira é colonial. Não há como o país se desenvolver plenamente nessas condições”, declarou.

Ao citar a Petrobras e outras empresas estratégicas, Rui argumentou que os governos petistas não foram responsáveis pelo desmonte original, mas também não conseguiram revertê-lo.

Mudança “de baixo” e amadurecimento social

Mesmo com as críticas ao PT, Rui rejeitou qualquer leitura voluntarista da transformação política. Para ele, não basta que partidos se apresentem como revolucionários; é preciso que uma crise nacional produza movimento real nas bases sociais.

“Toda revolução vem de baixo. Esse é o elemento decisivo”, afirmou.

Ainda assim, disse perceber um amadurecimento político no país desde 2016.

“O povo brasileiro amadureceu muito, sobretudo a partir de 2016. Há um sentimento de revolta contra essa situação e contra a ausência de perspectivas para o país”, disse.

Jones Manoel e a esquerda em impasse

A filiação de Jones Manoel ao PSOL, com apoio à candidatura de Lula, também foi comentada. Rui classificou o movimento como sinal de incoerência política.

“Isso revela uma completa falta de diretriz, porque ele passou meses se apresentando como anti-Lula e, de repente, ingressa em um partido que apoia Lula. É uma falência política”, afirmou.

Uma entrevista sobre religião, geopolítica e crise nacional

A conversa entre Leonardo Attuch e Rui Costa Pimenta percorreu temas que vão da história do cristianismo à guerra no Oriente Médio, passando pela censura, pelo sionismo, pelas contradições da esquerda e pelos dilemas da eleição presidencial de 2026. Em todos esses assuntos, Rui adotou um tom de confronto ideológico, sem suavizar críticas ao imperialismo, à direita brasileira e a setores progressistas que, em sua visão, se afastaram de um programa de ruptura.

Ao defender a Palestina, denunciar a guerra contra o Irã e cobrar uma inflexão mais profunda da esquerda brasileira, o dirigente do PCO procurou ligar a crise internacional ao bloqueio interno vivido pelo Brasil. Sua tese central é que não haverá saída nacional sem enfrentamento estrutural ao imperialismo, ao poder econômico e às formas de censura e cooptação que, segundo ele, moldam o debate político contemporâneo.

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