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Agredido pelos EUA, Irã negocia com a Fifa transferência de jogos da Copa de 2026 para o México

Federação iraniana afirma que não levará a seleção aos Estados Unidos após declarações de Donald Trump sobre riscos à segurança da equipe

Ilustração mostra as bandeiras do Irã e dos EUA 27/01/2022 REUTERS/Dado Ruvic/Foto ilustrativa (Foto: REUTERS/Dado Ruvic/Foto ilustrativa)

247 – O Irã está negociando com a Fifa a transferência de seus jogos da primeira fase da Copa do Mundo de 2026 dos Estados Unidos para o México, em meio à escalada da guerra no Oriente Médio. A informação foi publicada pelo portal RTL com base em despacho da AFP e em manifestações da embaixada iraniana no México.

A participação iraniana no Mundial, que será realizado nos Estados Unidos, no Canadá e no México, passou a ser colocada em dúvida desde o início do conflito, no fim do mês passado. A crise ganhou novo peso após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a segurança da delegação iraniana durante o torneio.

Em comentários publicados na conta da embaixada do Irã no México na rede X, o presidente da federação iraniana de futebol, Mehdi Taj, afirmou de forma categórica que a seleção não irá aos Estados Unidos se não houver garantias reais de segurança. “Quando (o presidente dos Estados Unidos, Donald) Trump afirmou explicitamente que não pode garantir a segurança da seleção nacional do Irã, certamente não viajaremos para a América”, declarou.

Na mesma manifestação, Taj informou que já existe uma negociação em andamento com a principal entidade do futebol mundial. “Atualmente, estamos negociando com a Fifa para realizar as partidas do Irã na Copa do Mundo no México”, disse.

A declaração explicita o nível de tensão política e diplomática que passou a cercar o torneio de 2026, especialmente diante do agravamento do confronto envolvendo o Irã, os Estados Unidos e Israel. A Copa, que deveria ser marcada pelo caráter multinacional da organização entre três países-sede, agora enfrenta a possibilidade de sofrer impactos diretos de uma crise geopolítica de grandes proporções.

Pela tabela atual, o Irã está programado para enfrentar Nova Zelândia e Bélgica em Los Angeles, antes de jogar contra o Egito em Seattle. Além disso, a base da equipe durante a competição está prevista para Tucson, no Arizona, o que ampliaria ainda mais a permanência da delegação iraniana em território norte-americano.

Em nota divulgada no site da embaixada iraniana no México, o embaixador Abolfazl Pasandideh endureceu o discurso contra Washington. Ele denunciou a “falta de cooperação do governo dos Estados Unidos em relação à emissão de vistos e ao fornecimento de apoio logístico” para a delegação iraniana antes da Copa do Mundo.

O diplomata afirmou ainda ter levado formalmente a preocupação à Fifa. Segundo a nota, ele também “sugeriu à Fifa que os jogos do Irã fossem transferidos dos Estados Unidos para o México”. A posição da embaixada reforça que o tema deixou de ser apenas uma preocupação esportiva e passou a integrar o campo diplomático e institucional.

Até o momento citado no texto original, a Fifa não havia respondido imediatamente a um pedido de comentário feito pela AFP. O silêncio da entidade, neste contexto, amplia a expectativa sobre como será conduzida uma eventual disputa entre o calendário esportivo e as exigências de segurança colocadas por uma seleção classificada para o torneio.

A polêmica se agravou na semana passada, quando Trump declarou que a equipe iraniana seria “bem-vinda” aos Estados Unidos, mas não deveria viajar ao torneio “por sua própria vida e segurança”. A fala provocou forte reação por sugerir, ao mesmo tempo, uma autorização formal de entrada e uma advertência pública de risco extremo.

As declarações do presidente norte-americano vieram depois de o presidente da Fifa, Gianni Infantino, ter afirmado que Trump lhe havia prometido que a seleção iraniana seria recebida no país. A contradição entre os sinais emitidos pela Casa Branca e as garantias mencionadas pelo comando da Fifa elevou a incerteza em torno da presença do Irã em solo norte-americano.

A resposta iraniana foi direta. O país rebateu as declarações de Trump afirmando que “ninguém pode excluir a seleção nacional do Irã da Copa do Mundo”. A mensagem indica que Teerã não aceita qualquer tentativa de afastamento político ou indireto da equipe do principal torneio do futebol mundial, embora também deixe claro que a segurança da delegação passou a ser uma linha inegociável.

O impasse ganhou corpo depois que Estados Unidos e Israel lançaram uma ampla ofensiva contra a República Islâmica. Em resposta, o Irã passou a atacar com ondas de mísseis e drones dirigidos a território israelense e a alvos norte-americanos em diferentes pontos do Oriente Médio. Esse cenário transformou a presença da equipe iraniana na Copa em uma questão que ultrapassa o esporte e toca diretamente a diplomacia internacional e a segurança global.

Caso a Fifa aceite a proposta iraniana, a mudança abriria um precedente de grande impacto para a organização do torneio. Isso porque a competição foi planejada com sedes e deslocamentos distribuídos entre os três países anfitriões, e uma alteração dessa magnitude exigiria rearranjos logísticos, operacionais e políticos.

Ao mesmo tempo, a reivindicação do Irã expõe uma contradição central da Copa de 2026: a tentativa de preservar a imagem universal do futebol em meio a conflitos internacionais cada vez mais agudos. A situação também pressiona a Fifa a assumir uma posição concreta diante de um tema que envolve soberania, integridade física de atletas e neutralidade esportiva.

Enquanto não há definição oficial, a seleção iraniana permanece formalmente no torneio, mas sob uma nuvem de incerteza inédita. A discussão sobre a transferência dos jogos para o México revela que, desta vez, a geopolítica pode interferir diretamente no mapa da Copa do Mundo.

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