Elias Jabbour e José Kobori apontam as vantagens do socialismo numa conjuntura de crise aguda do capitalismo
Economistas analisam a ascensão chinesa, criticam o rentismo ocidental e defendem que o Brasil precisa de um projeto nacional de desenvolvimento
247 – Em uma ampla conversa sobre China, capitalismo, socialismo e geopolítica, os economistas Elias Jabbour e José Kobori defenderam que a ascensão chinesa não pode ser compreendida pelos velhos clichês difundidos pelo Ocidente. A entrevista foi concedida ao Irmãos Dias Podcast, no YouTube, em programa conduzido por André Dias e Carol Dias. Ao longo do debate, os convidados afirmaram que a China representa hoje a experiência socialista mais avançada do mundo, combinando planejamento estatal, mercado, inovação tecnológica e forte presença do Partido Comunista nas decisões estratégicas do país.
Segundo Kobori, a visão negativa sobre a China foi construída por preconceitos históricos do Ocidente. “Eles nunca acharam que a China seria capaz de chegar onde chegou”, afirmou.
Para ele, os Estados Unidos transferiram parte de sua indústria para o território chinês por subestimar a capacidade tecnológica e organizacional do país asiático. “Eles acharam que a China ia só copiar, fazer produto de baixa qualidade, nunca ia se desenvolver tecnologicamente”, disse.
China e socialismo
Elias Jabbour explicou que, em sua visão, o comunismo seria um estágio histórico ainda não alcançado pela humanidade, marcado pela superação do Estado, das classes sociais e da lógica competitiva. O socialismo, por sua vez, seria uma transição entre capitalismo e comunismo.
“A China é um país socialista”, afirmou Jabbour. Segundo ele, a diferença essencial em relação ao capitalismo está no controle político do capital. “Na China existe um bloco de forças políticas que chegam ao poder em 1949 com a intenção e a estratégia de construir uma nação poderosa baseada na propriedade pública dos meios de produção”, disse.
Jabbour sustentou que, no capitalismo, quem comanda o Estado é o grande capital. Na China, ao contrário, o capital privado existe, mas subordinado ao projeto nacional conduzido pelo Partido Comunista.
“O capital existe como forma auxiliar ao processo de desenvolvimento, mas eles não controlam o poder político do país”, afirmou.
Planejamento contra rentismo
Um dos pontos centrais da entrevista foi a crítica ao rentismo e à financeirização das economias capitalistas. Kobori afirmou que a China evitou a formação de uma classe rentista capaz de capturar o Estado e sufocar a indústria.
Segundo ele, o setor financeiro chinês cumpre papel oposto ao observado em países como o Brasil e os Estados Unidos. Em vez de explorar a economia produtiva, funciona como instrumento de financiamento do desenvolvimento.
“O que a China fez foi justamente não deixar que o setor financeiro fosse rentista”, afirmou Kobori. “O setor financeiro na China, estatal, funciona para financiar e fomentar a economia.”
Jabbour acrescentou que o sistema financeiro público é uma das marcas do socialismo chinês. Para ele, essa estrutura impede que a especulação se sobreponha às necessidades produtivas e sociais.
A crise do capitalismo ocidental
Na avaliação dos economistas, a crise atual do capitalismo se expressa na desindustrialização dos Estados Unidos, no avanço das finanças sobre a produção, na desigualdade crescente e na deterioração dos serviços públicos.
Kobori afirmou que, nas últimas décadas, a lógica financeira passou a dominar a indústria. O objetivo deixou de ser produzir melhor e passou a ser entregar retorno financeiro aos acionistas, comprimindo salários, fornecedores e investimentos.

Jabbour também criticou o modelo estadunidense e afirmou que os Estados Unidos se tornaram uma “oligarquia liberal”, dominada por grandes corporações e bilionários.
“Tudo que os Estados Unidos estão fazendo é defendendo o interesse das grandes corporações americanas”, disse.
Cuba, Vietnã e diferentes experiências socialistas
Durante o debate, os convidados também compararam as experiências de China, Vietnã, Laos, Coreia do Norte e Cuba.
Jabbour afirmou que não há um único modelo socialista. Cada país constrói sua experiência segundo sua história, seu nível de desenvolvimento e as pressões externas que enfrenta.
Sobre Cuba, ele destacou o impacto decisivo do bloqueio imposto pelos Estados Unidos. “O bloqueio é incontornável”, afirmou. “Não é possível falar de Cuba ou da situação atual de Cuba sem falar do bloqueio.”
Kobori reforçou que nenhuma economia poderia se desenvolver plenamente sob sanções e restrições tão prolongadas. Para ele, Cuba foi usada por Washington como exemplo de “fracasso” socialista, embora tenha sido impedida de se desenvolver normalmente.
O Brasil e a ausência de projeto nacional
Ao tratar do Brasil, Kobori e Jabbour afirmaram que o país carece de um projeto nacional de desenvolvimento. Para eles, a experiência chinesa mostra a importância do planejamento de longo prazo, da coordenação estatal e do uso estratégico das empresas públicas.
Kobori afirmou que o Brasil precisa eleger quadros capazes de pensar o país para além da polarização superficial. Jabbour, por sua vez, defendeu que a disputa de 2026 será marcada pela escolha entre soberania nacional e submissão aos interesses dos Estados Unidos.
Na visão dos dois economistas, a lição central da China é que desenvolvimento não nasce da submissão ao mercado, mas de planejamento, soberania, investimento público e capacidade de subordinar o capital aos interesses coletivos.



