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Intelectual iraniano diz que Irã mantém coesão social sob guerra e nega negociações por cessar-fogo com os EUA

Mohammad Marandi afirma que a vida cotidiana segue em Teerã e sustenta que Teerã não aceitará encerrar o conflito sem garantias de segurança

Seyed Mohammad Marandi (Foto: Reprodução)

247 – Em meio à escalada militar envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, o professor Mohammad Marandi afirmou que a sociedade iraniana segue funcionando com notável resiliência, mesmo sob bombardeios, e negou de forma categórica que haja negociações em curso com Washington para um cessar-fogo. As declarações foram dadas em entrevista ao programa Judging Freedom, no YouTube, apresentado por Andrew Napolitano.

Falando ao vivo de Teerã, Marandi descreveu um cenário de continuidade da vida cotidiana, ainda que adaptado às circunstâncias da guerra e do feriado do Ano-Novo iraniano. Segundo ele, serviços públicos seguem operando, ruas continuam limpas e a população mantém a rotina possível em meio à tensão. Ao ser questionado sobre o funcionamento da cidade, afirmou que “isso tudo é muito normal”, em referência à compra de alimentos, circulação de pessoas e abastecimento, embora tenha destacado que o trânsito está mais leve em Teerã por causa da guerra e do período de recesso nacional.

Vida cotidiana sob pressão

Marandi explicou que o atual momento coincide com o feriado do Ano-Novo persa, iniciado 12 dias antes da entrevista, no primeiro dia da primavera. Por isso, o país já se encontrava parcialmente paralisado, com escolas, universidades e parte das repartições públicas fechadas. Segundo ele, a reabertura está prevista para a segunda-feira seguinte, mas em condições excepcionais.

De acordo com o professor, “na próxima semana será como durante a كورونا”, numa comparação com o período da pandemia, indicando que escolas e universidades devem operar de forma remota, enquanto muitos servidores públicos poderão trabalhar de casa. A observação reforça a tentativa iraniana de preservar alguma normalidade administrativa, ainda que sob forte pressão militar.

Ele também relatou diferenças entre Teerã e outras cidades do país. Enquanto a capital estaria mais vazia, outras localidades se tornaram mais cheias com o deslocamento de pessoas que viajaram para férias ou buscaram abrigo junto a familiares, longe dos ataques aéreos. Ainda assim, Marandi sustentou que o quadro geral não é de pânico.

Chanceler nas ruas e a imagem de unidade nacional

Um dos pontos centrais da entrevista foi a repercussão de imagens do ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, caminhando entre a população em Teerã. Napolitano leu a transcrição da fala do chanceler, registrada por uma repórter nas ruas da capital.

Na declaração, Araghchi afirmou: “Eu só vim para levantar meu espírito. Ver essas pessoas באמת dá a todos um grande senso de moral, e eu sou apenas uma gota entre essas pessoas”. Em seguida, acrescentou: “Quis vir até elas, participar desse movimento no chão, elevar meu próprio espírito e realmente desfrutar dessa unidade e solidariedade entre o povo”.

Questionado sobre a cena, Marandi disse que ela corresponde ao que vê diariamente em Teerã e usou esse episódio para sustentar a ideia de que a República Islâmica mantém legitimidade social em meio ao conflito. Segundo ele, as manifestações populares de apoio e de coesão se repetem todas as noites, em grandes e pequenas concentrações espalhadas pela cidade.

“Todas as noites” nas ruas

Ao tentar explicar como o Irã “permanece forte” diante dos ataques, Marandi apontou para a reação popular nos primeiros dias da guerra. Segundo ele, logo após os bombardeios iniciais houve preocupação com a segurança da liderança do país, e posteriormente foi anunciada a morte de altos comandantes militares. Ainda assim, disse, o país permaneceu calmo.

“O país estava completamente calmo”, relatou. Em seguida, destacou que “não havia filas para gasolina”, que supermercados não foram tomados por compras de pânico e que “ninguém estava comprando pão ou qualquer outra coisa de maneira extraordinária ou por medo”. Em sua avaliação, prevaleceu o que definiu como “business as usual”, isto é, uma continuidade da vida social e econômica.

Marandi também afirmou que a mobilização popular é permanente. Segundo ele, “essas pessoas estão nas ruas todas as noites”, com grupos que variam de pequenas reuniões de bairro a concentrações de “dezenas de milhares” de pessoas. O professor contou ainda que esteve próximo de locais atingidos por ataques e relatou a morte de civis em aglomerações populares.

Em um dos trechos mais fortes da entrevista, disse que, três noites antes, um míssil atingiu um encontro local perto da praça Artish, a uma curta caminhada de onde ele estava, matando uma mulher. Ainda assim, segundo seu relato, “na noite passada, a praça estava mais cheia do que na noite em que ela foi morta”. A observação foi usada por ele para reforçar a ideia de que a guerra não quebrou a disposição da população.

Marandi rebate versão sobre o líder supremo

Napolitano também perguntou sobre declarações vindas do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, segundo as quais o líder supremo iraniano estaria ferido e desfigurado. Marandi rejeitou integralmente essa narrativa.

“Não, eu não acho que haja qualquer problema com ele”, respondeu. Em seguida, afirmou que o líder supremo está “bem protegido” e que outras autoridades relevantes do país também recebem segurança especial. Segundo ele, isso se deve ao fato de que “o regime israelense assassina”, acrescentando: “Eles são bons em assassinatos. Essa é a única coisa em que são bons. São bons em bombardear casas e assassinar”.

O professor também afirmou que Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, estaria tentando difundir mitos sobre uma suposta desorganização interna no Irã. Segundo Marandi, a estrutura decisória iraniana segue funcionando normalmente, com todos os cargos preenchidos e o Conselho Supremo de Segurança Nacional operando como instância central.

“Nada é diferente hoje do que era um mês e meio atrás”, afirmou. Também declarou que “não há pessoas conduzindo sua própria agenda separada” e que tudo funciona “dentro da estrutura do Conselho Supremo de Segurança Nacional”.

“Com 100% de confiança”: não há negociações

Um dos trechos mais relevantes da entrevista foi a negação, por parte de Marandi, da existência de negociações entre Irã e Estados Unidos. Perguntado diretamente se o governo iraniano estaria negociando, de forma direta ou indireta, como Donald Trump vinha alegando, ele respondeu sem margem para dúvida.

“Posso dizer com 100% de confiança que nenhuma negociação está acontecendo”, disse. E reforçou: “Nenhuma negociação aconteceu também”.

Marandi reconheceu apenas a troca de mensagens por canais indiretos, como Omã, Paquistão, Rússia, Suíça e outras vias diplomáticas. Mas fez distinção clara entre esse intercâmbio e um processo formal de negociação. Segundo ele, essas comunicações “não são novidade” e existem há muitos anos.

O professor também rejeitou a versão atribuída a Trump de que o presidente iraniano teria pedido cessar-fogo em troca da manutenção da abertura do estreito de Ormuz. “Não, de forma alguma”, afirmou. Segundo Marandi, “o presidente não fez tal proposta ou pedido, nem nada parecido”.

O estreito de Ormuz e a nova linha de Teerã

Marandi afirmou que o Irã não tem interesse algum em aceitar um cessar-fogo nas condições atuais. Em sua formulação, “os iranianos não têm interesse em qualquer cessar-fogo”. Para ele, o único caminho para o fim da guerra seria uma mudança concreta nos fatos em campo.

Ao comentar o estreito de Ormuz, área estratégica para o comércio global de energia, o professor sugeriu que a guerra teria alterado de forma permanente a forma como Teerã vê a região. Segundo ele, “o status” do estreito foi modificado pelo Irã e isso “permanecerá o caso permanentemente”.

Marandi argumentou que a questão já não envolve apenas a passagem de petróleo e mercadorias, mas a própria segurança nacional iraniana. Disse ainda que Teerã concluiu que parte dos meios utilizados contra o país foi transportada por navios através do Golfo Pérsico, o que reforçaria a decisão iraniana de rever a gestão estratégica da área.

Críticas duras a Trump e expectativa de escalada

Durante a conversa, Napolitano observou que Trump teria abandonado, ao menos momentaneamente, exigências anteriores como mudança de regime em Teerã, destruição de material nuclear enriquecido e eliminação dos mísseis balísticos iranianos, passando a concentrar-se na abertura do estreito de Ormuz. Marandi reagiu com ironia.

“Mas, juiz, o senhor esquece onde está, ainda é manhã aí. Até a noite, os objetivos dele podem mudar três ou quatro vezes”, afirmou. E acrescentou: “Quem sabe?”.

Apesar do tom irônico, a avaliação do professor foi grave. Segundo ele, em Teerã predomina a percepção de que a guerra ainda vai se intensificar, com possibilidade de um grande ataque americano nos dias seguintes. Ele afirmou que há a crença de que os Estados Unidos e Israel vão ampliar ofensivas contra infraestrutura vital do país.

Marandi citou bombardeios a uma fábrica farmacêutica, que classificou como “crime contra a humanidade”, além de ataques contra indústrias e até granjas avícolas. Segundo ele, os alvos mostram uma estratégia deliberada para atingir a vida da população civil e “ferir os iranianos comuns”.

Segurança, reparações e custo da guerra

Ao tratar das condições para o encerramento do conflito, Marandi afirmou que nenhuma declaração de Trump tem hoje impacto real em Teerã. Segundo ele, o presidente dos Estados Unidos já recorreu à “decepção” em diversas ocasiões, inclusive em momentos anteriores em que havia conversações diplomáticas em andamento.

“Nada do que ele diz terá qualquer impacto em Teerã”, afirmou. Em seguida, resumiu qual seria, em sua visão, a prioridade iraniana: “A única coisa importante é que esta guerra termine de uma forma em que nos sintamos seguros e em que sintamos que nunca mais seremos atacados”.

O professor ainda defendeu que haja reparações e disse que o Irã vai buscar responsabilização também dos países árabes do Golfo que, segundo ele, teriam sido cúmplices da ofensiva. “Se os EUA não vão pagar por isso, eles pagarão”, declarou, referindo-se a esses países.

Na parte final da entrevista, Marandi também afirmou que a segurança dos aliados regionais do Irã precisará ser garantida em qualquer cenário pós-guerra, o que amplia o alcance estratégico de suas declarações e sugere que Teerã enxerga o conflito para além de suas fronteiras imediatas.

Um retrato da narrativa iraniana em tempo de guerra

A entrevista de Mohammad Marandi oferece um retrato nítido da narrativa defendida por setores ligados ao establishment iraniano neste momento de guerra: o país estaria coeso, o governo seguiria operando normalmente, não haveria espaço para negociações sob pressão militar e o objetivo central seria encerrar o conflito com garantias duradouras de segurança.

Ao longo da conversa, Marandi insistiu que a força do Irã reside menos em manobras diplomáticas imediatas e mais na resistência social interna, expressa nas ruas, nos serviços em funcionamento e na ausência de pânico coletivo. A mensagem central de sua fala é que, apesar dos ataques, Teerã não se vê à beira do colapso — e tampouco disposta a aceitar um desfecho ditado por Washington.

Nesse sentido, a entrevista combina denúncia dos bombardeios, contestação direta das versões emitidas pela Casa Branca e uma tentativa clara de projetar estabilidade institucional em meio à guerra. Trata-se, ao mesmo tempo, de um testemunho sobre a vida sob ataque e de uma peça política voltada a afirmar que o Irã segue de pé.

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