HOME > Ideias

Martin Wolf aponta a queda da hegemonia dos EUA às vésperas dos 250 anos do país

Em artigo publicado no Valor, comentarista do Financial Times afirma que Trump acelera a crise da ordem mundial criada por Washington

JD Vance, Trump e Marco Rubio na Casa Branca (Foto: Reuters)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

247 – Às vésperas do 250º aniversário da independência dos Estados Unidos, a maior potência do século XX enfrenta uma crise histórica de hegemonia, legitimidade e liderança global. A avaliação é de Martin Wolf, principal comentarista econômico do Financial Times, em artigo publicado pelo Valor Econômico, no qual analisa a ascensão e a queda do poder norte-americano.

Segundo Wolf, os EUA chegaram ao fim da Guerra Fria como vencedores absolutos do século XX. Com o colapso da União Soviética, em 1991, Washington não apenas concentrava poder econômico, político e militar sem paralelo, como também parecia representar valores admirados em todo o mundo, como liberdade, governo constitucional e democracia liberal. “Isso não durou”, resume o autor.

A potência que venceu o século XX

Wolf reconstrói a trajetória da ascensão norte-americana desde o século XIX, quando as potências europeias, sobretudo o Reino Unido, dominavam o planeta. A segunda revolução industrial, impulsionada por eletricidade, telefonia, motores de combustão, produtos químicos, farmacêuticos, rádio e aviação, deslocou progressivamente o centro do poder mundial para os Estados Unidos.

Em 1914, antes mesmo da Primeira Guerra Mundial, os EUA já haviam se tornado a maior economia do mundo. Para Wolf, a disputa europeia entre Alemanha, Reino Unido, França e Rússia escondia a questão central do século: quando os Estados Unidos se tornariam a potência dominante.

Após a Primeira Guerra Mundial, Washington já era decisivo para o destino da Europa, mas sua retirada da cena internacional contribuiu para uma paz instável, para as convulsões econômicas e políticas dos anos 1920 e para a tragédia da Segunda Guerra Mundial.

Guerra Fria consolidou a liderança americana

Depois de 1945, os Estados Unidos não repetiram o isolamento anterior. A disputa com a União Soviética manteve o país no centro da ordem internacional. A Europa Ocidental passou a depender da proteção norte-americana, os impérios europeus ruíram e emergiu um capitalismo administrado, com forte presença do Estado e compromisso social-democrata.

Mesmo com a revolução neoliberal dos anos 1980, afirma Wolf, a estrutura básica dessa ordem permaneceu. O grande ponto de virada veio entre 1989 e 1991, com a queda do Muro de Berlim, o fim do império soviético e o chamado “momento unipolar” dos Estados Unidos.

Mas a história, escreve o autor, “deu risadas”. Em menos de 35 anos, o papel dos EUA como potência hegemônica estabilizadora começou a desaparecer, assim como havia ocorrido com o Reino Unido por volta de 1900.

China, tecnologia e extrema direita mudam o tabuleiro

Para Wolf, três forças principais explicam a transição da ordem para a desordem: a ascensão da China, a revolução digital e o avanço do populismo de direita.

A China, afastada gradualmente da aliança com a União Soviética nos anos 1970, entrou em uma nova etapa com a política de “reforma e abertura” de Deng Xiaoping. Nas décadas seguintes, tornou-se uma superpotência e, pela primeira vez em mais de um século, os Estados Unidos passaram a enfrentar um concorrente de porte equivalente.

Ao mesmo tempo, a globalização liderada por Washington foi acelerada pelas tecnologias da informação e da comunicação, produzindo ganhos econômicos, mas também rupturas sociais, crises financeiras, ondas migratórias e polarização política.

Trump é apontado como fator de corrosão interna

No diagnóstico de Wolf, Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, aprofunda a crise da hegemonia americana ao corroer as bases institucionais e simbólicas do poder dos EUA.

O autor afirma que Trump vem minando as fontes essenciais da força norte-americana: o Estado de direito, a liderança mundial em ciência, a confiabilidade das alianças e a confiança na estabilidade econômica e política do país.

“Donald Trump almeja ser um tirano”, escreve Wolf, ao lembrar que a Declaração de Independência dos EUA proclamou a libertação contra tiranos. Para ele, um governo baseado em leis vem sendo substituído por um governo baseado em caprichos.

A crise não é apenas doméstica. Wolf observa que a democracia liberal recua no mundo há duas décadas e cita o instituto V-Dem, segundo o qual apenas 7% da população mundial vive hoje em democracias liberais. Nesse cenário, afirma o comentarista, Xi Jinping “já pode abrir um sorriso”.

Um mundo parecido com o de antes de 1914

O artigo compara o momento atual ao período anterior à Primeira Guerra Mundial. Assim como no início do século XX, grandes transformações econômicas, tecnológicas e políticas estão redesenhando a disputa global.

A boa notícia, segundo Wolf, é que as armas nucleares reduzem de forma significativa o risco de uma guerra direta entre grandes potências. Além disso, nenhuma potência atual estaria tomada pelo militarismo extremo que marcou o início do século XX e os anos 1930 e 1940.

A má notícia é que os grandes desafios contemporâneos só podem ser enfrentados de forma cooperativa. Entre eles estão a crise ambiental, as consequências da inteligência artificial e a disputa entre democracia e despotismo arbitrário.

A ordem criada pelos EUA está desaparecendo

A conclusão de Wolf é dura: o mundo imaginado há 35 anos, após o colapso do despotismo soviético, está desaparecendo. E, com ele, desaparece também a versão dos Estados Unidos que liderou a construção da ordem internacional do pós-guerra.

“Nós aprendemos, sim, com a história. Mas, depois, esquecemos”, conclui o comentarista do Financial Times.

Artigos Relacionados