Custo da energia preocupa brasileiros e supera questão climática, indica pesquisa Ipsos
Levantamento revela que alta nas tarifas pesa mais que emissões e expõe dilema entre economia doméstica e combate às mudanças climáticas
247 - Quase metade dos brasileiros prioriza o custo da energia em detrimento das metas ambientais, segundo levantamento do instituto Ipsos divulgado recentemente. A pesquisa aponta que 46% da população defendem que o governo mantenha preços mais baixos de energia, mesmo que isso implique maior emissão de gases poluentes, evidenciando o conflito entre o orçamento das famílias e as políticas climáticas, conforme reportagem do jornal O Globo.
De acordo com o estudo “People and Climate Change”, o aumento da tarifa de energia é motivo de preocupação para 77% dos brasileiros. Para Priscilla Branco, diretora de Opinião Pública da Ipsos no Brasil, o cenário reflete um dilema crescente: “Isso ressalta a tensão entre a ambição climática e as realidades econômicas das famílias, dado o aumento dos custos de energia”.
Apesar da preocupação com os custos, a população também cobra mais ações do governo na agenda ambiental. Sete em cada dez brasileiros (71%) avaliam que o país deveria intensificar seus esforços no combate às mudanças climáticas, percentual superior à média global de 59%. A percepção é mais forte entre pessoas nascidas entre 1946 e 1964, com 77% de concordância, enquanto entre os mais jovens, nascidos entre 1997 e 2012, o índice é de 67%. Entre as mulheres, a expectativa por maior atuação governamental chega a 75%, contra 66% entre os homens.
O levantamento também indica mudanças no comportamento individual diante da crise climática. Embora os últimos anos tenham registrado temperaturas recordes, o desejo de agir de forma urgente diminuiu em diversos países desde 2021. No Brasil, a queda foi mais moderada, com recuo de sete pontos percentuais em um ano, alcançando 70%, ainda acima da média global de 61%.
Segundo a Ipsos, essa redução não indica desinteresse, mas uma mudança na percepção de responsabilidade. “Os cidadãos estão, cada vez mais, buscando a liderança dos governos e das empresas, por entenderem que o peso da ação não pode recair apenas sobre os indivíduos. Nesse sentido, os dados nos mostram não uma história de indiferença, mas de exaustão e mudança de expectativas”, afirmou Branco.
O relatório também destaca diferenças entre países de acordo com o nível de renda. Em nações de renda média, 71% dos entrevistados defendem mais ações contra as mudanças climáticas, enquanto em países ricos esse percentual cai para 53%, apesar da maior responsabilidade histórica dessas economias nas emissões globais.
No cenário internacional, cresce o temor em relação aos impactos climáticos. Entre os principais riscos apontados estão ondas de calor e tempestades severas, ambos citados por 63% dos entrevistados, além de secas (60%) e poluição do ar (59%).
A pesquisa identificou ainda uma percepção de falta de liderança global no enfrentamento da crise climática. Apenas 27% dos entrevistados, em média, consideram que seus países exercem protagonismo no tema, enquanto 34% discordam dessa avaliação. No Brasil, 34% enxergam o país como líder, contra 31% que não compartilham dessa visão.
O tema ganhou destaque durante a COP30, conferência da ONU sobre mudanças climáticas realizada no Brasil. Um dos principais pontos debatidos foi a transição energética. O governo federal determinou a elaboração de um plano nacional para reduzir o uso de combustíveis fósseis, mas divergências internas têm dificultado o avanço da proposta. Paralelamente, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, busca construir um consenso internacional para um plano global, enfrentando resistência de países produtores de petróleo.
A pesquisa Ipsos foi realizada entre 23 de janeiro e 6 de fevereiro de 2026, com 23.704 adultos em 31 países. No Brasil, cerca de mil pessoas participaram do levantamento, com dados ajustados para refletir o perfil demográfico da população adulta.


