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Advogado promete R$ 20 mil por pergunta a ex-presidente do Banco Central e denuncia blindagem na mídia corporativa

A indagação que os “jornalistas profissionais” não fazem: Por que Campos Neto, como presidente do Banco Central, permitiu a abertura do Banco Master?

Roberto Bertholdo (Foto: Reprodução Youtube)

O advogado Roberto Bertholdo fez uma proposta inusitada e provocadora aos jornalistas e estudantes de jornalismo do Brasil. Ele promete dar R$ 20 mil a quem fizer uma pergunta ao ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto: “Por que é que você, como presidente do Banco Central, permitiu a abertura do banco Master?”.

A pergunta tem tudo a ver com o atual escândalo que envolve o Master, apontado como protagonista do maior golpe da história do sistema financeiro do Brasil, que provocou um rombo de mais de 52 bilhões de reais.

Apesar disso, a mídia corporativa blinda aquele que permitiu o funcionamento do Master e que, apesar das evidências e alertas, inclusive de outros bancos, não interrompeu a ciranda financeira da instituição.

Bertholdo decidiu transformar sua indignação em um desafio aos jornalistas. Sua indignação está relacionada à blindagem que o ex-presidente do Banco Central tem nos veículos do Grupo Globo, a maior empresa de comunicação do Brasil.

A blindagem que pode ter sido levantada devido ao fato de que Campos Neto, depois de deixar o Banco Central, assumiu o cargo de vice-chairman (vice-presidente do Conselho de Administração) e chefe global de Políticas Públicas do Nubank, banco digital do qual a Globo, através da Globo Ventures, tem participação acionária em torno de 1%, o que, em valores de hoje, representa 4,5 bilhões de reais.

Roberto Bertholdo é sócio de uma grande banca de advocacia do Brasil. Ele já foi filiado ao Partido Progressista e conselheiro de Itaipu, no primeiro governo Lula. Foi um dos alvos de Sergio Moro quando este era o titular da 13ª Vara Federal de Curitiba e acabou condenado por um crime que diz não ter cometido: a gravação clandestina do então juiz, que ele acusou de favorecer o operador financeiro Alberto Youssef, preso pelo magistrado e depois colocado em liberdade após acordo de colaboração.

Segundo doleiros que entrevistei tempos atrás, Youssef passou a extorquir dinheiro deles para não incluí-los na delação. Uma suspeita, não investigada, é de que esse dinheiro era repassado a agentes do sistema de justiça de Curitiba, que tinham influência na 13ª Vara.

Outro elemento relevante nesse contexto envolve o empresário Tony Garcia, que afirmou em entrevista ao Brasil 247 que fez acusações falsas contra Bertholdo, inclusive a da gravação clandestina, no período em que, segundo seu relato, foi coagido a atuar como agente infiltrado de Sergio Moro. Nessa condição, teria sido obrigado a cumprir ordens do então juiz para evitar a própria prisão, incluindo a realização de gravações de alvos previamente definidos.

As declarações de Tony Garcia deram origem a um inquérito que culminou em uma operação de busca e apreensão na 13ª Vara Federal de Curitiba, que, segundo relatos, teria recolhido materiais que comprovariam ilegalidades no sistema de justiça local. Entre os itens apreendidos, estaria a prova de que existe um vídeo que mostra desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região em uma confraternização com garotas de programa em um hotel de Curitiba, episódio que ficou conhecido como “Festa da Cueca”.

Tanto a atuação de Campos Neto no caso do Banco Master quanto as denúncias de Tony Garcia são ignorados pelo grupo Globo. No caso do Banco Master, inspeções do Banco Central realizadas pelo sucessor de Campos Neto, Gabriel Galípolo, detectaram fraudes contábeis, operações irregulares e práticas que provocaram o rombo bilionário no mercado financeiro.

O inquérito da Polícia Federal em curso já resultou em diversas prisões, incluindo a do presidente do Master, Daniel Vorcaro, acusado de liderar o esquema. O caso levanta questionamentos sobre a atuação das autoridades responsáveis pela autorização e fiscalização do banco, no período de Campos Neto.

A proposta de Betholdo de pagar R$ 20 mil a um jornalista ou estudante de jornalismo que não será aceita pelos jornalistas do Grupo Globo, obviamente, mas torna público que o chamado jornalismo profissional atua com parcialidade. Ou rabo preso, no caso do Master e também no de Tony Garcia.

“A iniciativa busca furar o bloqueio sistemático a questionamentos relevantes sobre a atuação do ex-presidente do Banco Central e suas conexões no setor financeiro”, diz Bertholdo.

Em declarações sobre a proposta, feita por vídeo postado no Instagram, Bertholdo afirmou: “Quero incentivar perguntas que realmente importam e que tragam respostas de interesse público”. Em outro momento, acrescentou: “Se for preciso oferecer um estímulo financeiro para que isso aconteça, estou disposto a fazê-lo”. Veja o vídeo abaixo.

De minha parte, o desafio está aceito, por outras razões: Farei a pergunta, mas não quero o dinheiro, porque a pauta é boa, é um dever profissional, e minha recompensa é a sensação do dever cumprido. Outros jornalistas deveriam fazer o mesmo.

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