Estreito de Ormuz registra 24 navios atacados e colapso de 95% no tráfego após ofensiva dos EUA
Rota por onde passa um quinto do petróleo mundial está praticamente paralisada. Preço do frete dobrou e mais de 20 mil marinheiros são afetados
247 - A principal artéria do comércio global de energia está sufocada pela guerra. O Estreito de Ormuz, passagem estratégica entre o litoral iraniano e o território de Omã que conecta o Golfo Pérsico ao Mar Arábico, vive seu pior momento em décadas. Dados divulgados pela agência britânica de segurança marítima UKMTO e reproduzidos pela AFP revelam que, desde o dia 1º de março, ao menos 24 embarcações comerciais, entre elas 11 petroleiros, foram atacadas ou registraram incidentes na região desde o início do conflito entre os Estados Unidos e o Irã.
A crise se aprofunda quando se somam outros episódios de violência. A agência britânica também contabiliza quatro ataques reivindicados pela Guarda Revolucionária iraniana que, embora não tenham sido confirmados por autoridades internacionais, elevam a dimensão da instabilidade na região.
Segundo a Organização Marítima Internacional (OMI), ao menos oito marinheiros ou trabalhadores portuários morreram em incidentes no estreito. Outros quatro estão desaparecidos, dez ficaram feridos e cerca de 20 mil profissionais da navegação são afetados diretamente pelo bloqueio.
Queda histórica no tráfego
Em condições normais, o Estreito de Ormuz registra cerca de 120 travessias diárias, de acordo com o portal de inteligência da indústria naval Lloyd's List. O cenário atual é radicalmente diferente. Entre 1º e 21 de março, os navios de carga de matérias-primas realizaram apenas 124 travessias no total — uma queda de 95% em relação à média habitual, segundo levantamento da empresa de análise Kpler. Desse total, 75 viagens foram feitas por petroleiros e navios gaseiros, com a maioria navegando em direção ao leste, saindo do estreito.
A dimensão estratégica da rota é incontestável: em tempos de paz, um quinto de todo o petróleo e gás natural liquefeito consumidos no mundo atravessa esse canal. Analistas do banco JPMorgan apontam que 98% do tráfego de petróleo que ainda circula pelo estreito é iraniano, com uma média de 1,3 milhão de barris diários registrada no início de março.
Fretes e combustíveis disparam
O impacto econômico da paralisação já se faz sentir no bolso de armadores e consumidores. Os preços do combustível para navios subiram aproximadamente 90% desde o início do conflito, conforme dados do observatório setorial Ship and Bunker. A empresa de análise naval Clarksons informou que o custo de transportar um barril de petróleo bruto dobrou, chegando a US$ 10 — patamares que não eram vistos desde fevereiro de 2022, quando a Rússia lançou sua invasão à Ucrânia.
Como a crise começou
O estopim do conflito foi aceso em 28 de fevereiro, quando os Estados Unidos, sob o comando do atual presidente Donald Trump, iniciaram ataques contra o Irã após acusar o país de desenvolver uma bomba nuclear. A ONU contestou a alegação, afirmando não haver evidências que sustentassem a acusação. O governo iraniano negou as pretensões e respondeu militarmente às investidas americanas.
Ataques a Israel e ameaça ao estreito
A escalada não ficou restrita ao território iraniano. Na noite do último sábado (21), um míssil balístico iraniano atingiu um edifício em Dimona, cidade no sul de Israel, provocando incêndio e ferindo diversas pessoas, de acordo com os Serviços de Incêndio e Resgate israelenses. Teerã definiu o ataque como retaliação às ofensivas norte-americanas contra o complexo atômico iraniano de Natanz.
Outro míssil atingiu a cidade de Arad, também no sul israelense, deixando ao menos 71 feridos, conforme serviços de emergência locais. No conjunto, as ofensivas contra Dimona e Arad resultaram em cerca de 200 vítimas.
Em resposta às ameaças do presidente Donald Trump contra instalações de energia iranianas, o Irã declarou que fechará completamente o Estreito de Ormuz caso as ameaças se concretizem — uma medida que teria consequências imediatas e severas para o abastecimento energético global.


