EUA e Índia anunciam acordo comercial provisório, reduzem tarifas e reorientam energia para longe da Rússia
Estrutura interina prevê tarifa americana de 18% sobre a maioria dos produtos indianos e negociações para um pacto amplo até março
247 – Estados Unidos e Índia divulgaram nesta sexta-feira um marco interino para um acordo comercial que reduz tarifas, redesenha a cooperação energética e amplia a coordenação econômica entre os dois países, em um movimento que busca reposicionar cadeias globais de suprimentos e fortalecer alianças estratégicas em meio à disputa geopolítica internacional.
A informação foi publicada pela agência Reuters, que detalhou que o texto anunciado pelos governos reafirma o compromisso com negociações rumo a um acordo bilateral mais abrangente, ao mesmo tempo em que reconhece que “ainda são necessárias” novas rodadas para concluir o pacto.
Uma “estrutura interina” e o objetivo de chegar a um pacto amplo
O comunicado conjunto divulgado por Washington e Nova Déli funciona como uma espécie de roteiro: consolida compromissos já anunciados e adiciona itens técnicos — especialmente sobre listas de produtos, parâmetros tarifários e prazos de negociação. A Reuters relatou que autoridades dos dois lados indicaram que a assinatura de um acordo formal é esperada até março, etapa que destravaria a implementação de cortes tarifários indianos sobre exportações americanas.
No centro da arquitetura está a promessa de aprofundar o comércio bilateral e reduzir barreiras — tarifárias e não tarifárias — em setores sensíveis como agricultura, dispositivos médicos e equipamentos de comunicação. Ao mesmo tempo, o entendimento explicita que o processo ainda está em disputa: a Índia, segundo o texto citado pela Reuters, resistiu à pressão dos Estados Unidos para abrir de forma ampla seu mercado agrícola.
Tarifas: alívio para aliados, 18% como novo patamar e exceções em disputa
Um dos pontos mais relevantes do anúncio é a fixação de uma tarifa de 18% aplicada pelos Estados Unidos sobre “a maioria” das importações vindas da Índia. De acordo com a Reuters, essa alíquota abrangerá categorias como têxteis e vestuário, couro e calçados, plásticos e borracha, químicos orgânicos, itens de decoração, produtos artesanais e parte do maquinário.
A mudança ocorre após uma escalada tarifária anterior. A Reuters descreveu que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, havia anunciado dias antes uma redução de tarifas americanas sobre produtos indianos para 18% a partir de 50%, em troca de compromissos envolvendo energia e redução de barreiras comerciais. Metade do patamar de 50% teria sido aplicada separadamente como punição ligada às compras indianas de petróleo russo.
O comunicado também prevê, segundo a Reuters, que a Índia terá o mesmo alívio tarifário concedido a outros países aliados que firmaram acordos com os Estados Unidos no setor aeronáutico — incluindo aeronaves e partes — além de um regime de cota para importações de autopeças com tarifa reduzida.
Outro capítulo permanece condicionado: “dependendo” do resultado de uma investigação do governo Trump sobre produtos farmacêuticos e insumos, a Índia poderá obter “resultados negociados” para genéricos e ingredientes, conforme a formulação registrada pela Reuters. Em outras palavras, o tema segue pendente e sujeito ao desfecho da apuração americana.
Energia e geopolítica: a cláusula do petróleo russo e a pressão de Washington
A Reuters informou que Donald Trump assinou uma ordem executiva removendo uma tarifa adicional de 25% que incidia sobre bens indianos devido às compras de petróleo russo.
Ainda assim, a medida vem acompanhada de ameaça de reversão: autoridades americanas monitorarão o comportamento indiano e podem recomendar a reimposição da tarifa se o país retomar aquisições de petróleo de Moscou, de acordo com a Reuters. Esse desenho reforça a dimensão política do acordo: não se trata apenas de comércio, mas de alinhamento estratégico em torno da guerra na Ucrânia e da pressão de Washington para restringir vínculos energéticos com a Rússia.
Ao mesmo tempo, a Reuters observou que a declaração conjunta entre Índia e Estados Unidos não menciona explicitamente as compras de petróleo russo nem apresenta um “compromisso formal” indiano sobre o tema — um detalhe que sugere que a linguagem final foi calibrada para permitir margem doméstica a Nova Déli, sem assumir uma formulação pública mais dura.
A estrutura interina também projeta uma reconfiguração das compras indianas de energia. A Reuters relatou que a Índia concordou em direcionar a aquisição de petróleo para fornecedores como os Estados Unidos e a Venezuela, em substituição ao fluxo anterior associado à Rússia.
Compras de US$ 500 bilhões: aviões, tecnologia e a aposta em cadeias de suprimentos
O texto citado pela Reuters confirma que a Índia comprará US$ 500 bilhões em bens dos Estados Unidos ao longo de cinco anos. A lista inclui petróleo, gás, carvão metalúrgico, aeronaves e peças, metais preciosos e produtos de tecnologia.
No capítulo tecnológico, a Reuters destacou a referência a unidades de processamento gráfico (GPUs), tipicamente utilizadas em aplicações de inteligência artificial, além de outros itens usados em data centers. O recado é claro: o acordo não se limita a mercadorias tradicionais, mas se conecta ao reposicionamento industrial e à corrida por infraestrutura digital e computacional.
Por outro lado, o compromisso de compras nessa escala reforça uma assimetria política frequentemente presente em negociações de grandes potências com economias emergentes: metas volumosas podem funcionar como instrumento de condicionamento e de dependência comercial, sobretudo quando combinadas com exigências de padrões técnicos e de controle de exportações em tecnologias sensíveis.
Agricultura e mercado interno: “produtos sensíveis” protegidos, diz Goyal
A resistência indiana aparece com força na área agrícola. A Reuters informou que o ministro do Comércio, Piyush Goyal, afirmou em postagem na rede X que o acordo protege interesses de agricultores.
Essa formulação é central porque a agricultura é um tema politicamente explosivo na Índia, com histórico de protestos e forte peso eleitoral. O comunicado interino, segundo a Reuters, inclui redução ou eliminação de tarifas indianas para uma ampla gama de produtos alimentícios e agrícolas dos Estados Unidos — como grãos destinados à ração animal, nozes, frutas frescas e processadas, óleo de soja, além de vinho e destilados.
A combinação entre abertura seletiva e proteção de “produtos sensíveis” indica uma tentativa de equilibrar pressões externas e estabilidade interna. Ainda assim, a amplitude da lista mencionada pela Reuters sugere que o setor agrícola seguirá como um dos principais campos de batalha nas próximas rodadas.
Padrões e barreiras não tarifárias: a disputa por “regras do jogo” no comércio
Outro eixo decisivo é a agenda regulatória. Segundo a Reuters, a Índia concordou em enfrentar barreiras não tarifárias de longa data em importações de produtos agrícolas, dispositivos médicos e equipamentos de comunicação. As negociações devem ser concluídas em até seis meses para um acordo sobre aceitação de padrões de segurança e licenciamento dos Estados Unidos ou internacionais.
Na prática, a discussão sobre padrões técnicos costuma determinar quem consegue vender e em quais condições. Para economias emergentes, a adoção de normas impostas por centros de poder pode significar ganhos de acesso, mas também perda de autonomia regulatória e maior dependência de certificações externas.
A Reuters também relatou que as partes concordaram em cooperar na fiscalização de controles de exportação sobre tecnologias sensíveis e em tomar ações para enfrentar políticas “não de mercado” de terceiros, referência à China. O texto menciona "non-market policies of third parties", expressão que condensa um objetivo geopolítico: alinhar a Índia a uma agenda de contenção econômica e tecnológica de Pequim.
Reação política: governo celebra, oposição critica “termos dos EUA”
Internamente, o acordo já provoca disputa. A Reuters informou que o Partido do Congresso, principal força de oposição, criticou o entendimento por ter sido fechado “em grande parte” nos termos dos Estados Unidos, alegando prejuízos a agricultores e comerciantes e afirmando que o pacto comprometeu interesses nacionais.
A divergência aponta para um problema clássico: acordos apresentados como modernização e “acesso a mercados” podem gerar, simultaneamente, temor de desindustrialização, pressão sobre pequenos produtores e perda de margem de política econômica — especialmente quando associados a metas de compras volumosas e exigências regulatórias.
O que vem agora: negociações até março e capítulos ainda pendentes
A estrutura divulgada nesta sexta, segundo a Reuters, é um passo importante, mas não o ponto final. O próprio comunicado reconhece a necessidade de novas negociações para concluir o acordo amplo. Entre os temas que tendem a concentrar tensão estão: agricultura (nível real de abertura e proteção), saúde e farmacêuticos (resultado de investigação americana e tratamento de genéricos), padrões técnicos (aceitação de normas e licenças) e regras para tecnologias sensíveis (export controls e cooperação em fiscalização).
Ao indicar um horizonte de assinatura em março, Washington e Nova Déli sinalizam urgência estratégica, motivada — como descreveu a Reuters — por competição com a China, diversificação de cadeias e segurança energética. O desafio será converter esse impulso geopolítico em um pacto que não aprofunde assimetrias e que sobreviva às pressões internas, especialmente no campo e no comércio, onde cada concessão tende a ter custo político imediato.


