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Guerra de desgaste: Irã usa drones baratos contra sistema de defesa milionário dos EUA

Ataques com drones que custam cerca de US$ 20 mil desgastam sistemas de mísseis interceptores Patriot, que podem custar US$ 4 milhões por unidade

Tel Aviv (Foto: Jamal Awad / Reuters)

247 - A escalada militar envolvendo Irã, Estados Unidos e aliados no Oriente Médio entrou rapidamente em uma fase de desgaste intenso. Ondas sucessivas de drones lançados por Teerã passaram a pressionar sistemas de defesa aérea no Golfo, levantando dúvidas sobre a capacidade de reposição de munições sofisticadas.Segundo a Bloomberg, o confronto tem sido marcado por uma equação assimétrica: drones estimados em cerca de US$ 20 mil enfrentando mísseis interceptores Patriot que podem custar até US$ 4 milhões por unidade.

Guerra de desgaste e custo bilionário

Desde o início dos ataques aéreos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, que incluíram mísseis de cruzeiro, drones e bombas guiadas, os drones unidirecionais Shahed-136 passaram a atingir bases militares estadunidenses, infraestrutura petrolífera e edifícios civis na região.

Os sistemas Patriot, fabricados nos Estados Unidos, registraram taxas de interceptação superiores a 90%, segundo autoridades dos Emirados Árabes Unidos. Ainda assim, o uso de armamentos de alto custo para neutralizar equipamentos muito mais baratos reacende um debate estratégico já observado na guerra da Ucrânia: armas de baixo valor unitário podem esgotar rapidamente estoques destinados a ameaças mais complexas.

A avaliação de analistas é que o desfecho poderá depender da resistência logística de cada lado. Quem mantiver munição disponível por mais tempo tende a obter vantagem relevante no campo militar.

Estoques sob pressão no Golfo

De acordo com Kelly Grieco, pesquisadora sênior do Stimson Center, a lógica iraniana parece centrada no desgaste prolongado. “A estratégia de desgaste faz sentido operacional da perspectiva do Irã”, afirmou. “Eles calculam que as forças de defesa esgotarão seus interceptores e que a vontade política dos estados do Golfo cederá, pressionando os EUA e Israel a cessarem as operações antes que fiquem sem mísseis e drones.”

Uma análise interna vista pela Bloomberg News apontou que o estoque de mísseis Patriot do Catar poderia durar quatro dias no ritmo atual de uso. Em nota, o Escritório de Mídia Internacional do Catar declarou que o “estoque de mísseis interceptores Patriot das Forças Armadas do Catar não foi esgotado e permanece bem abastecido”.

Estimativas indicam que o Irã possuía cerca de 2.000 mísseis balísticos após o confronto do ano passado com Israel. Já os drones Shahed estariam disponíveis em número significativamente maior. Segundo Becca Wasser, chefe da área de defesa da Bloomberg Economics, a Rússia, também produtora do modelo, tem conseguido fabricar “várias centenas por dia”. Desde o início do conflito, mais de 1.200 projéteis teriam sido disparados por Teerã, muitos deles drones, o que pode indicar a preservação de mísseis balísticos para uma campanha prolongada.

Estratégia iraniana e cálculo político

No plano interno, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que as unidades militares operam com autonomia relativa. “Nossas unidades militares agora são, de fato, independentes e, de certa forma, isoladas, e estão agindo com base em instruções gerais dadas a elas com antecedência”, declarou em entrevista à Al Jazeera.

Do lado estadunidense, analistas questionam a duração da capacidade ofensiva. Becca Wasser avalia ser improvável que os planejadores tenham deslocado munição suficiente para sustentar quatro semanas de operações, como estimou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou em coletiva que “isto não é o Iraque, isto não é interminável”.

Limitações defensivas e risco de impasse

No campo defensivo, o Irã enfrenta restrições relevantes. Ataques nas primeiras horas do conflito atingiram baterias antiaéreas, incluindo sistemas S-300 de fabricação russa. Desde então, segundo relatos, aeronaves dos EUA e israelenses operam no espaço aéreo iraniano sem dificuldades reportadas.

Além dos Patriots, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos utilizam o sistema THAAD, projetado para interceptar mísseis de maior alcance fora da atmosfera, com custo estimado em cerca de US$ 12 milhões por unidade. Os Estados Unidos também empregaram caças equipados com mísseis do Sistema Avançado de Armas de Precisão, com valor entre US$ 20 mil e US$ 30 mil, além dos custos operacionais das aeronaves.

Especialistas apontam que alternativas como lasers, canhões automáticos ou drones interceptadores poderiam reduzir custos na defesa contra ameaças de baixo valor. O sistema Iron Beam, desenvolvido pela empresa israelense Rafael Advanced Defense Systems, foi projetado com esse objetivo, mas as Forças de Defesa de Israel informaram que ele ainda não foi utilizado no atual conflito.

Caso o ritmo dos ataques se mantenha, os estoques regionais de interceptadores PAC-3 podem atingir níveis críticos em poucos dias, segundo fonte com conhecimento do tema ouvida pela Bloomberg News. Ao mesmo tempo, se o arsenal ofensivo também for reduzido, o cenário poderá evoluir para um impasse.

Para Ankit Panda, pesquisador sênior da Carnegie Endowment for International Peace, esse desfecho é plausível. “Enquanto isso, o arsenal de mísseis e drones do Irã pode diminuir e o próprio regime pode conseguir se manter intacto, mesmo que em meio ao caos”, afirmou. “Este parece ser um resultado provável com base nas primeiras 60 horas desta guerra.”

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