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Índia planeja cortar tarifa de carros europeus para 40% em acordo com a União Europeia, dizem fontes

Medida reduziria imposto hoje de até 110% e abriria espaço para mais importados; elétricos ficariam fora do corte por cinco anos

Carros estacionados no porto de Zeebrugge, na Bélgica 18/07/2025 REUTERS/Yves Herman (Foto: Reuters)

247 – A Índia planeja reduzir as tarifas de importação sobre automóveis vindos da União Europeia para 40% — ante níveis que chegam a 110% — como parte de um acordo de livre comércio que pode ser anunciado já nesta terça-feira, 27 de janeiro de 2026. As informações foram publicadas pela Reuters, com base em fontes familiarizadas com as negociações.

Segundo duas pessoas informadas sobre as conversas, o governo do primeiro-ministro Narendra Modi concordou em cortar imediatamente o imposto para um número limitado de carros do bloco de 27 países, desde que o preço de importação seja superior a 15 mil euros. Com o tempo, a tarifa poderia cair gradualmente até 10%, ampliando de forma inédita o acesso de montadoras europeias ao terceiro maior mercado automotivo do mundo em volume de vendas, atrás apenas de Estados Unidos e China.

As fontes ouvidas pela agência pediram anonimato por se tratar de tratativas confidenciais e sujeitas a mudanças de última hora. O Ministério do Comércio da Índia e a Comissão Europeia, ainda de acordo com a Reuters, não comentaram.

A “mãe de todos os acordos” e a corrida para anunciar nesta terça-feira

Índia e União Europeia são esperadas para anunciar na terça-feira a conclusão de negociações longas e complexas para um pacto de livre comércio, após o qual os detalhes finais seriam fechados e o texto, ratificado. O acordo já vem sendo descrito por autoridades e interlocutores como "the mother of all deals" — uma indicação do peso político e econômico atribuído a esse entendimento.

O possível pacto ocorre em um momento em que Nova Délhi busca ampliar exportações e blindar setores estratégicos. A Reuters registra que exportações indianas, como têxteis e joias, foram impactadas por tarifas de 50% dos Estados Unidos desde o fim de agosto, o que elevou a pressão por novos canais comerciais e por condições mais favoráveis de acesso a grandes mercados.

O que muda nas tarifas e qual seria o alcance do corte

Hoje, a Índia cobra tarifas de 70% e 110% sobre carros importados, um nível frequentemente criticado por executivos do setor por dificultar a entrada de veículos estrangeiros e encarecer preços ao consumidor. Pelo desenho relatado, o corte para 40% seria imediato, mas restrito a um contingente específico de automóveis europeus.

Uma das fontes afirmou à Reuters que a proposta indiana prevê reduzir o imposto para cerca de 200 mil carros a combustão por ano. O número, porém, também pode ser ajustado até o fechamento do texto, já que cotas e listas de produtos costumam ser um dos últimos pontos a serem lapidados em acordos comerciais.

A lógica do governo Modi, conforme a reportagem descreve, é abrir parcialmente o mercado sem desmontar de uma vez a proteção histórica dada ao setor automotivo doméstico — considerado um pilar industrial e um grande gerador de empregos. Ao mesmo tempo, ao limitar o benefício inicialmente a carros com preço de importação acima de 15 mil euros, a medida tende a atingir sobretudo segmentos médios e superiores, e não o grosso do mercado popular.

Elétricos ficam fora por cinco anos para proteger investimentos locais

Um ponto sensível do desenho apresentado pelas fontes é a exclusão dos veículos elétricos a bateria do corte tarifário nos primeiros cinco anos. O objetivo, segundo o que foi relatado à Reuters, é proteger investimentos recentes e planos de expansão de empresas indianas no segmento, como Mahindra & Mahindra e Tata Motors, num mercado ainda considerado nascente.

Após esse período, ainda de acordo com as fontes, os elétricos passariam a seguir um caminho semelhante de redução de imposto. Na prática, isso cria uma “janela de proteção” para que fabricantes locais consolidem escala e cadeia de fornecedores antes de enfrentar um choque direto de importados — um tema que, em vários países, tem sido tratado como parte de estratégias industriais ligadas à transição energética.

Quem ganha com a abertura e por que a participação europeia é tão baixa

A redução das tarifas seria um impulso importante para montadoras europeias como Volkswagen, Renault e Stellantis, além de marcas premium como Mercedes-Benz e BMW. A Reuters observa que essas empresas já fabricam localmente na Índia, mas teriam encontrado dificuldade para crescer além de certo ponto, em parte por causa do peso das tarifas sobre modelos importados e componentes.

Com impostos menores, as montadoras poderiam vender veículos importados a preços mais competitivos e “testar” a demanda com um portfólio mais amplo antes de se comprometer com novas fábricas e linhas de produção no país. Esse tipo de estratégia é especialmente relevante em um mercado diverso e altamente sensível a preço, no qual decisões de investimento costumam depender de escala e previsibilidade regulatória.

O dado central, segundo a Reuters, é que fabricantes europeus detêm menos de 4% de participação no mercado indiano de carros — estimado em 4,4 milhões de unidades por ano — hoje dominado pela japonesa Suzuki Motor, além de marcas locais como Mahindra e Tata, que juntas responderiam por cerca de dois terços do setor.

Um mercado projetado para 6 milhões de unidades e a disputa por investimento

As projeções citadas pela Reuters indicam que o mercado indiano pode chegar a 6 milhões de unidades anuais até 2030. A combinação de expansão de renda, urbanização e políticas de industrialização reforça a atratividade do país para multinacionais — mas, ao mesmo tempo, mantém acesa a disputa entre abertura comercial e proteção a produtores locais.

A reportagem menciona que algumas empresas já se movimentam para ampliar presença. A Renault, por exemplo, estaria redesenhando sua estratégia na Índia em busca de crescimento fora da Europa, onde montadoras chinesas vêm avançando. Já o grupo Volkswagen estaria finalizando um novo ciclo de investimentos no país por meio da marca Skoda.

Se o acordo avançar nos termos descritos, o capítulo automotivo pode se tornar uma vitrine do novo equilíbrio pretendido por Nova Délhi: permitir maior entrada de importados em segmentos específicos, sinalizar compromisso com integração comercial e, ao mesmo tempo, manter instrumentos de política industrial — especialmente em áreas de tecnologia e transição energética.

Próximos passos e pontos que ainda podem mudar

Apesar da expectativa de anúncio na terça-feira, a Reuters enfatiza que as tratativas seguem sob confidencialidade e podem sofrer alterações de última hora. Entre os pontos mais sujeitos a ajuste costumam estar o tamanho das cotas, o ritmo do corte tarifário ao longo do tempo e as salvaguardas para evitar impactos abruptos sobre a indústria local.

Ainda assim, se confirmado, o corte de tarifas para carros europeus representará a maior abertura do setor automotivo indiano em anos — e um recado claro de que a Índia quer ampliar sua inserção comercial em meio a um cenário internacional de disputas tarifárias, reconfiguração de cadeias produtivas e competição por investimentos industriais.

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