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Invasão da Groenlândia por Trump seria a carta de morte da OTAN, diz premiê espanhol

Pedro Sánchez defende que a Europa acelere a integração e avance na defesa comum sem depender da unanimidade dos 27 países

O premiê espanhol, Pedro Sánchez - 3/9/2025 (Foto: REUTERS/Toby Melville)

247 – Os primeiros quinze dias de janeiro “transtocaram o mundo” e mudaram expectativas políticas, avalia o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, ao descrever um cenário internacional marcado por crises simultâneas e por uma escalada de tensões envolvendo Ucrânia, Gaza, Venezuela e a Groenlândia.

Em entrevista ao jornal La Vanguardia, Sánchez afirmou que política interna e política externa “estão mais unidas do que nunca” e fez um alerta direto: se os Estados Unidos recorrerem à força na Groenlândia, isso significaria “a carta de morte da OTAN”.

Ao abordar especificamente a hipótese de uma ação militar dos EUA, o premiê espanhol disse que declarações públicas devem ser levadas a sério: “Quando a gente ouve e lê determinadas declarações, é preciso levá-las a sério”.

Sánchez também relacionou uma possível invasão à guerra na Europa Oriental, apontando o efeito simbólico e político que isso teria para Moscou: “Uma invasão desse território pelos Estados Unidos faria de Vladímir Putin o homem mais feliz do mundo”, afirmou, porque “veria legitimada sua tentativa de invasão da Ucrânia”.

A proposta: segurança no Ártico via OTAN e resposta europeia com integração acelerada

Para Sánchez, se existe uma preocupação “legítima” de Washington com a segurança do Ártico, o tema deve ser tratado dentro do próprio organismo militar ocidental: “Isso deve ser colocado no Conselho Atlântico da OTAN”.

Mas, diante do risco de ruptura geopolítica, ele defendeu que a União Europeia avance mais rápido em direção a uma defesa comum: “A Europa deve avançar em seu processo de integração e se dotar de uma defesa realmente comum”.

O ponto central da entrevista é a defesa de um modelo em que um grupo de países possa liderar esse processo sem depender de unanimidade. “Para isso, não precisamos do acordo unânime dos 27 Estados-membros”, disse Sánchez. “Podemos avançar um conjunto de países nesse processo de integração rumo a Forças Armadas realmente europeias, com uma indústria de defesa realmente europeia.”

O premiê acrescentou que a Europa deveria “construir pontes com outros países do mundo” que observam com preocupação o cenário atual e reforçou que o bloco precisa reagir com rapidez: “A Europa deve se mover”.

Mercosul e sinal político de movimento europeu

Na mesma entrevista, Sánchez classificou como “grande notícia” a assinatura do acordo com o Mercosul, ocorrida em Assunção (Paraguai), citando o episódio como exemplo de que a Europa pode avançar mesmo em meio a turbulências internacionais.

Espanha, orçamento de defesa e possibilidade de enviar tropas

Sánchez afirmou que a Espanha “está caminhando” na direção defendida por ele, mencionando aumento real do orçamento militar, participação em instrumentos comuns de financiamento e o envio de tropas de dissuasão ao Leste Europeu.

Questionado sobre o envio de militares espanhóis à Groenlândia, ele evitou cravar qualquer decisão: “Não há uma decisão tomada”. Segundo Sánchez, há conversas com os países envolvidos e “singularmente com a Dinamarca a nível técnico”. Ele disse ainda que tratará do tema com o chefe da oposição e bancadas parlamentares: “A Espanha ainda não tomou uma decisão sobre essa questão”.

A reportagem registra também que Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, anunciou tarifas adicionais de 10% para países europeus que enviaram militares à Groenlândia, ampliando o atrito entre Washington e governos do continente.

“5% é inaceitável”, diz Sánchez, ao rejeitar aumento do gasto militar

No debate sobre metas de gasto militar, Sánchez voltou a se contrapor à exigência de 5% do PIB, afirmando que esse patamar é “inaceitável” e “inassumível” para a Espanha. “Não vamos cortar políticas sociais, sanitárias, educacionais e científicas” para elevar ainda mais um gasto que, segundo ele, “hoje não está concebido para reforçar a indústria europeia de defesa”.

O premiê espanhol defendeu que um gasto “um pouco acima de 2%” já atende às capacidades exigidas atualmente e citou a Dinamarca como exemplo do paradoxo que, segundo ele, a Europa vive: “A Dinamarca cumpre com os 5% de gasto militar, e os Estados Unidos a hostilizam”.

Venezuela, China e “voz europeia” no direito internacional

Sánchez disse que a Espanha quer participar do processo político que se abre na Venezuela: “A resposta é um sim rotundo”, afirmou, ao mencionar contatos entre autoridades espanholas e norte-americanas sobre o tema.

Ele também sustentou que “conter a China” é hoje o principal objetivo dos Estados Unidos e que não é possível entender os acontecimentos recentes sem esse fator. Para Sánchez, a Europa não pode abrir mão de defender o direito internacional e, ao mesmo tempo, deve manter uma relação pragmática com Pequim, vista como “rival sistêmico”, “competidor” e também “aliado” em desafios globais como a emergência climática.

Ao ser perguntado se seguirá se aproximando da China, respondeu de forma direta: “Depois da pandemia visitei a China todos os anos. Se me perguntarem se seguirei fazendo isso, minha resposta é afirmativa. Minha intenção é fazer outra viagem à China este ano, no interesse da Espanha e da Europa”.

“Não estamos sozinhos”

Por fim, Sánchez rechaçou a ideia de isolamento político ao citar posições da Espanha sobre Gaza, Ucrânia, Venezuela e Groenlândia. Disse que a crítica a Washington será “leal e construtiva” e que, em questões como o reconhecimento do Estado palestino, o tempo mostrou que Madrid não ficou sozinha: “Abrir caminho às vezes implica dizer coisas que podem parecer incômodas. Não estamos sozinhos”.

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