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Irã atinge Dimona, cidade israelense que abriga instalação nuclear, e amplia risco de escalada regional

Ataque foi apresentado por Teerã como resposta à ofensiva contra Natanz, enquanto guerra entra na quarta semana

Irã atinge Dimona, cidade israelense que abriga instalação nuclear (Foto: Reprodução X)

247 – O Irã atingiu neste sábado a cidade israelense de Dimona, onde fica uma instalação nuclear, em uma ação que Teerã definiu como retaliação aos ataques contra seu próprio complexo atômico em Natanz. O episódio amplia o risco de uma escalada militar ainda mais grave no Oriente Médio, em um momento em que o confronto já afeta rotas estratégicas de energia, provoca alta no preço do petróleo e acende o alerta internacional para a possibilidade de um acidente nuclear.

Segundo reportagem do jornal britânico The Guardian, Dimona abriga uma instalação situada nos arredores da cidade e amplamente apontada como sede do único arsenal nuclear do Oriente Médio, embora Israel jamais tenha admitido oficialmente possuir armas nucleares. Do lado iraniano, a organização de energia atômica do país acusou mais cedo os Estados Unidos e Israel de terem atacado o complexo de enriquecimento de urânio de Natanz, mas afirmou que “não houve vazamento de materiais radioativos relatado”.

As Forças Armadas de Israel informaram à AFP que houve um “impacto direto de míssil em um edifício” em Dimona. Os serviços de emergência do Magen David Adom disseram que suas equipes atenderam 33 feridos em diferentes locais, entre eles um menino de 10 anos em estado grave, com ferimentos por estilhaços. A cena, segundo os socorristas, foi de forte destruição.

A paramédica Karmel Cohen relatou que “houve danos extensos e caos no local”. Já os militares israelenses disseram que “tentativas de interceptação foram realizadas” depois da detecção dos mísseis. Imagens divulgadas pela imprensa israelense mostraram um objeto cruzando o céu em alta velocidade antes de atingir a cidade.

A televisão estatal iraniana afirmou que a ofensiva foi uma “resposta” ao ataque anterior contra Natanz. O diretor da agência nuclear da ONU, Rafael Grossi, voltou a fazer um “apelo à contenção militar para evitar qualquer risco de acidente nuclear”. A advertência reflete a crescente preocupação internacional com o fato de instalações nucleares estarem cada vez mais próximas do centro do conflito militar.

Natanz é um dos principais pilares do programa nuclear iraniano. O local abriga centrífugas subterrâneas usadas no enriquecimento de urânio e já havia sido danificado na guerra de junho do ano passado. Questionado sobre o caso, o Exército de Israel disse que “não tinha conhecimento de um ataque” ao complexo. Ainda assim, os militares israelenses anunciaram neste sábado uma nova ofensiva contra uma instalação localizada dentro de uma universidade em Teerã, que, segundo Tel Aviv, seria “utilizada pelo regime terrorista iraniano em suas indústrias militares e no conjunto de mísseis balísticos para desenvolver componentes de armas nucleares e armamentos”.

O novo capítulo da guerra indica que três semanas de intensos bombardeios conduzidos por Estados Unidos e Israel tiveram efeito limitado sobre a capacidade iraniana de responder com mísseis e drones em toda a região. Ao contrário do que parecia ser o cálculo inicial de Washington e Tel Aviv, o Irã segue operando com poder de reação relevante, mesmo após a perda de dirigentes de alto escalão.

Essa capacidade de resistência também aparece em outra frente decisiva: o estreito de Hormuz. Os Emirados Árabes Unidos disseram neste sábado que enfrentaram ataques aéreos depois de o Irã advertir o país a não permitir ofensivas lançadas a partir de seu território contra ilhas disputadas próximas à passagem estratégica. Em tempos de paz, cerca de um quinto do comércio global de petróleo bruto passa por esse corredor marítimo, o que faz de qualquer interrupção um problema de alcance planetário.

O chefe do Comando Central dos Estados Unidos, almirante Brad Cooper, afirmou que aviões de guerra norte-americanos lançaram bombas de 5 mil libras contra uma instalação subterrânea na costa iraniana que armazenava mísseis de cruzeiro antinavio, lançadores móveis e outros equipamentos. Segundo ele, a capacidade iraniana de ameaçar a hidrovia foi “degradada”. Em declaração em vídeo, Cooper acrescentou: “Nós não apenas eliminamos a instalação, mas também destruímos centros de apoio de inteligência e retransmissores de radar de mísseis que eram usados para monitorar os movimentos dos navios”.

Mesmo com essa ofensiva, a tensão no estreito segue longe de ser dissipadas. Líderes de países majoritariamente europeus, entre eles Reino Unido, França, Itália e Alemanha, além de Coreia do Sul, Austrália, Emirados Árabes Unidos e Bahrein, divulgaram comunicado condenando o “fechamento de fato do estreito de Hormuz pelas forças iranianas”. No texto, afirmaram: “Expressamos nossa disposição de contribuir para os esforços apropriados para garantir a passagem segura pelo estreito”.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chamou os aliados da Otan de “covardes” e os pressionou a agir para assegurar o fluxo na região. Já o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, disse que Teerã impôs restrições apenas a embarcações de países envolvidos em ataques contra o Irã e que ofereceria assistência aos demais que permanecessem fora do conflito.

O efeito econômico da crise já é expressivo. O barril do petróleo Brent do Mar do Norte subiu mais de 50% no último mês e passou com folga da marca de US$ 105, em um movimento que recoloca a energia no centro das preocupações do mercado internacional. A disparada dos preços reflete não apenas o temor de interrupção no abastecimento, mas também a percepção de que o conflito se prolonga sem solução próxima.

Analistas avaliam que o governo iraniano demonstrou maior capacidade de sobrevivência do que muitos esperavam. Neil Quilliam, da Chatham House, afirmou em podcast do centro de estudos sediado em Londres que “eles estão mostrando muita resiliência que talvez não esperássemos, que os Estados Unidos não esperavam, quando assumiram isso”, acrescentando que o Irã possui raízes profundas.

Enquanto isso, Teerã viveu o fim do Ramadã sob o peso da guerra entrando em sua quarta semana. Tradicionalmente, o líder supremo iraniano comanda as orações do Eid al-Fitr, mas Mojtaba Khamenei, que assumiu o poder no início deste mês após a morte de seu pai, Ali Khamenei, permaneceu fora de cena publicamente. Em seu lugar, o chefe do Judiciário, Gholam-Hossein Mohseni-Ejei, participou das orações na mesquita central Imam Khomeini, em Teerã, que ficou lotada.

Relatos de moradores traduzem o impacto humano e psicológico do conflito. Farid, executivo de publicidade ouvido pela AFP por mensagem online, disse que “a atmosfera do novo ano estava se espalhando pela cidade”. Mas acrescentou: “o pensamento de que algumas pessoas poderiam estar morrendo bem na mesa de jantar do ano novo era doloroso”.

Shiva, uma pintora de 31 anos, também ouvida pela AFP, resumiu o sentimento predominante no país: “O único sentimento comum nestes dias é a incerteza”. Em seguida, fez um desabafo que expressa a brutalidade do ambiente político e militar vivido pelos iranianos: “A única noite em que nos sentimos genuinamente felizes foi a noite em que Ali Khamenei teria sido morto”.

O ataque a Dimona, a disputa em torno de Natanz e a crise em Hormuz mostram que a guerra deixou de ser apenas uma troca de bombardeios entre adversários históricos. O confronto agora combina risco nuclear, ameaça à segurança energética global, deterioração humanitária e um impasse estratégico que, até aqui, nem a força militar conjunta de Estados Unidos e Israel conseguiu resolver.

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