Irã diz estar pronto para responder a qualquer ameaça com força máxima
Guarda Revolucionária do Irã afirma que reagirá de forma proporcional a ataques contra usinas e infraestrutura estratégica
247 – A Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC, na sigla em inglês) afirmou nesta segunda-feira que está preparada para responder a qualquer ameaça em um nível capaz de impor dissuasão ao inimigo, em meio à rápida deterioração do confronto militar envolvendo o Irã, os Estados Unidos e Israel. A declaração foi divulgada pelo departamento de relações públicas da corporação.
Segundo a agência Tasnim News, que publicou o comunicado original, o IRGC rebateu duramente acusações atribuídas ao presidente dos Estados Unidos, descrito pela força iraniana como um “mentiroso, terrorista e assassino de crianças”. De acordo com a nota, Washington alegou que a Guarda Revolucionária pretendia atingir usinas de dessalinização na região e provocar sofrimento às populações de países vizinhos.
O IRGC rejeitou de forma categórica essa versão e sustentou que o verdadeiro responsável por ataques contra civis e infraestrutura essencial seria o Exército dos Estados Unidos. Na nota, a corporação afirma que as forças americanas iniciaram a guerra por meio do assassinato de crianças, citando especificamente o bombardeio que teria matado 180 estudantes em Minab, no Irã.
O comunicado também aponta que forças americanas já teriam atingido cinco instalações de infraestrutura hídrica, entre elas a usina de dessalinização da ilha de Qeshm, no sul do país. A referência a esses alvos foi usada pelo IRGC para contestar o discurso de Washington e reforçar a acusação de que os Estados Unidos estariam promovendo ataques contra estruturas vitais para o funcionamento cotidiano da sociedade iraniana.
Ameaça de retaliação
A Guarda Revolucionária também reagiu ao que classificou como ameaças do presidente dos Estados Unidos contra usinas de energia iranianas. Na avaliação do IRGC, um ataque desse tipo não teria apenas efeito militar, mas provocaria o colapso de serviços humanos essenciais, atingindo hospitais, postos de emergência, redes de abastecimento de água e instalações de dessalinização.
Em resposta, a força iraniana declarou que decidiu mirar usinas de energia do que chamou de “regime sionista ocupante”, além de instalações energéticas de países vizinhos que apoiem bases americanas, caso as usinas iranianas sejam atacadas. O comunicado deixa claro que, na visão da corporação, uma ofensiva contra a infraestrutura elétrica do Irã desencadearia uma reação direta e proporcional.
A nota vai além e afirma que a resposta iraniana poderá alcançar também infraestruturas econômicas, industriais e energéticas nas quais existam interesses de entidades americanas. Trata-se de uma formulação que amplia o escopo da ameaça de retaliação e sugere que Teerã pretende associar qualquer ação militar contra o território iraniano a custos materiais e estratégicos mais amplos para os Estados Unidos e seus aliados.
Discurso de proporcionalidade
Apesar do tom duro, o IRGC buscou sustentar a narrativa de que suas ações obedeceriam a um princípio de proporcionalidade. O comunicado afirma que, embora hospitais, centros de emergência e escolas iranianas tenham sido atacados pelo inimigo, a Guarda Revolucionária não respondeu atingindo esse tipo de instalação.
Ainda assim, a mensagem central da nota é de que essa contenção tem limites. O IRGC advertiu que qualquer agressão contra usinas iranianas provocará uma resposta equivalente. Ao afirmar que responderá a toda ameaça em um nível que assegure dissuasão, a corporação procura transmitir a ideia de que o custo de uma escalada adicional poderá ser elevado para o adversário.
Na parte final do texto, a Guarda Revolucionária declara, com confiança, que os Estados Unidos não conhecem plenamente as capacidades do Irã e que verão, na prática, a força da República Islâmica. A formulação reforça o caráter político e militar do comunicado, que combina defesa, intimidação e sinalização estratégica.
Escalada após assassinato de Khamenei
O comunicado situa essa nova etapa do conflito a partir de 28 de fevereiro, data em que, segundo o texto, os Estados Unidos e o regime de Israel lançaram uma ampla campanha militar não provocada contra o Irã após o assassinato do Líder da Revolução Islâmica, aiatolá Seyed Ali Khamenei, além de vários comandantes militares de alto escalão e civis.
Ainda segundo a declaração, a ofensiva incluiu ataques aéreos de grande escala contra alvos militares e civis em várias partes do território iraniano. O resultado, de acordo com o IRGC, foi um número elevado de vítimas e danos generalizados à infraestrutura do país.
Como resposta, as Forças Armadas iranianas teriam executado operações retaliatórias contra posições americanas e israelenses em territórios ocupados e em bases regionais, utilizando sucessivas ondas de mísseis e drones. O comunicado apresenta essas ações como parte de uma estratégia de reação calculada diante da ofensiva inimiga.
Infraestrutura civil no centro do conflito
Um dos aspectos mais relevantes do comunicado é a centralidade da infraestrutura civil no discurso militar. Ao destacar redes de água, dessalinização, energia, hospitais e escolas, o IRGC tenta enquadrar o conflito não apenas como confronto armado entre Estados, mas como uma disputa que já afeta diretamente a sobrevivência da população e o funcionamento básico do país.
Essa ênfase também tem peso político. Ao acusar os Estados Unidos de atacar instalações essenciais e, ao mesmo tempo, declarar que não atingiu centros como hospitais e escolas, a Guarda Revolucionária procura legitimar sua posição diante da opinião pública regional e internacional, enquanto justifica eventuais futuras ações contra alvos estratégicos.
O comunicado, portanto, funciona em duas frentes. De um lado, busca responder às acusações de Washington e afastar a narrativa de que o Irã pretendia provocar sofrimento em países vizinhos por meio de ataques à infraestrutura hídrica. De outro, deixa explícito que Teerã considera legítimo ampliar sua resposta caso a campanha militar avance sobre instalações energéticas e econômicas sensíveis.
Num cenário já marcado por forte deterioração militar, o texto do IRGC aprofunda o sinal de que o conflito entrou em uma fase em que infraestrutura crítica, capacidade de dissuasão e retaliação proporcional passaram a ocupar o centro da estratégia declarada pela República Islâmica.


