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Três semanas após agredir o Irã, Trump perde totalmente o controle da guerra

Escalada militar expõe isolamento dos Estados Unidos, pressiona preços globais da energia e aprofunda o desgaste político do presidente Donald Trump

Donald Trump (Foto: Daniel Torok/Casa Branca)

247 – Três semanas após agredir o Irã e mergulhar os Estados Unidos em mais uma ofensiva de grandes proporções no Oriente Médio, o presidente Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, enfrenta uma guerra que já não consegue controlar nem no plano militar, nem no diplomático, nem no político. Reportagem publicada pela Reuters em 21 de março de 2026 mostra que a Casa Branca chega a esse ponto sob crescente isolamento internacional, alta dos preços globais da energia e preparação para novos deslocamentos de tropas à região.

Segundo a Reuters, o conflito, iniciado em 28 de fevereiro, passou a produzir exatamente o oposto daquilo que Trump prometera ao reassumir o poder, quando dizia que manteria os Estados Unidos afastados de intervenções militares “estúpidas”. Agora, o governo norte-americano se vê encurralado por uma guerra sem estratégia clara de saída, enquanto o Irã mantém capacidade de reação, compromete o fluxo de petróleo e gás no Golfo e amplia a instabilidade regional.

Na sexta-feira, Trump tentou sustentar a versão de que a ofensiva estaria sob controle e declarou que a batalha “foi militarmente vencida”. A fala, porém, colide com os fatos descritos na própria reportagem. O Irã segue resistindo aos ataques dos Estados Unidos e de Israel, bloqueando remessas de petróleo e gás do Golfo e promovendo ataques com mísseis em diferentes áreas da região.

A distância entre a retórica triunfalista da Casa Branca e a realidade da guerra expõe o fracasso político da estratégia de Trump. O presidente, que ajudou a desencadear o conflito, já não controla de forma convincente nem seus desdobramentos práticos nem a narrativa pública sobre a ofensiva. O resultado é um desgaste crescente para seu governo e para o Partido Republicano, às vésperas de eleições legislativas decisivas nos Estados Unidos.

Sem saída clara para o conflito

A Reuters ouviu Aaron David Miller, ex-negociador para o Oriente Médio em governos republicanos e democratas, que resumiu o impasse de forma contundente. “Trump construiu para si uma caixa chamada guerra contra o Irã, e não consegue descobrir como sair dela”, afirmou. Em seguida, completou: “Essa é sua maior fonte de frustração.”

A avaliação traduz a encruzilhada em que a Casa Branca se encontra. Um caminho seria ampliar ainda mais a ofensiva militar, com novas ações contra alvos estratégicos iranianos e eventual aumento do envolvimento direto dos Estados Unidos. Mas essa escolha elevaria o risco de aprisionar o país em mais uma guerra longa, impopular e custosa no Oriente Médio.

A outra possibilidade seria Trump declarar vitória e tentar se afastar do conflito. Mas esse movimento também teria alto custo político e geopolítico. Um recuo norte-americano neste momento poderia deixar aliados do Golfo diante de um Irã ferido, porém ainda hostil e com capacidade de continuar pressionando rotas marítimas e o equilíbrio regional. O Irã, segundo a própria Reuters, nega buscar uma arma nuclear.

Esse impasse reforça a percepção de que a chamada Operação Epic Fury se transformou em uma armadilha estratégica. Analistas ouvidos pela agência afirmam que Trump chegou a uma bifurcação sem mostrar qual rumo pretende seguir. A ausência de definição aprofunda a sensação de descontrole em Washington.

Isolamento internacional e desgaste com aliados

A última semana também tornou mais visíveis os limites do poder de Trump no cenário internacional. Segundo autoridades ouvidas pela Reuters sob condição de anonimato, o presidente foi surpreendido pela resistência de integrantes da Otan e de outros parceiros estrangeiros em enviar forças navais para ajudar a garantir a segurança no Estreito de Ormuz.

Essa recusa tem peso estratégico e simbólico. Não se trata apenas do medo de envolvimento em uma guerra mais ampla. Para analistas, ela também expressa a deterioração das alianças tradicionais dos Estados Unidos desde o retorno de Trump à Casa Branca, marcado por ataques recorrentes a parceiros históricos.

O próprio Trump reagiu de forma agressiva à falta de apoio e chamou outros países da Otan de “covardes” por não participarem da operação. A declaração agravou o mal-estar diplomático e reforçou a percepção de isolamento dos Estados Unidos no conflito.

As divergências com Israel, principal aliado de Washington na ofensiva, também começaram a emergir. Trump afirmou que não sabia previamente do ataque israelense ao campo de gás de South Pars, enquanto autoridades israelenses disseram que a ação havia sido coordenada com os Estados Unidos. A contradição expõe ruídos importantes na relação entre os dois governos.

Casa Branca insiste em narrativa de sucesso

Apesar do agravamento do conflito, integrantes do governo continuam defendendo a condução militar. Um funcionário da Casa Branca afirmou à Reuters que a operação foi um sucesso inequívoco, destacando a eliminação de lideranças iranianas, a destruição de grande parte da Marinha do país e o enfraquecimento de seu arsenal de mísseis balísticos.

Segundo esse funcionário, “isso tem sido um sucesso militar incontestável”. A declaração revela a tentativa da Casa Branca de sustentar uma narrativa de vitória, mesmo diante dos efeitos adversos da guerra.

Na prática, porém, o Irã segue reagindo. O país tem utilizado mísseis remanescentes e drones armados para compensar a superioridade militar dos adversários, atingindo países vizinhos e praticamente bloqueando o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial.

A interrupção dessa rota estratégica transformou a guerra em um fator central de instabilidade econômica global, elevando os preços da energia e pressionando governos ao redor do mundo.

Erros de cálculo e falhas de planejamento

A reportagem da Reuters também aponta que houve falhas na avaliação inicial do conflito por parte do governo Trump. Segundo fontes familiarizadas com o pensamento da Casa Branca, cresce o reconhecimento interno de que as consequências da guerra deveriam ter sido mais bem planejadas antes do início da ofensiva.

Essa visão é contestada por autoridades do governo, que sustentam que a operação foi cuidadosamente preparada. Ainda assim, analistas consideram que houve um erro relevante de cálculo, especialmente em relação à capacidade de reação do Irã.

O ex-embaixador dos Estados Unidos John Bass, que serviu no Afeganistão e na Turquia, afirmou à Reuters: “Eles falharam em pensar nas contingências sobre as formas pelas quais um conflito com o Irã poderia sair do controle, em que não seguiria o plano que haviam traçado.”

A análise indica que o governo subestimou os riscos de escalada e a complexidade de enfrentar um adversário que vê o conflito como uma questão existencial.

Pressão econômica e desgaste interno

Os efeitos da guerra também já são sentidos dentro dos Estados Unidos. A alta dos preços dos combustíveis e o envio de mais tropas ao Oriente Médio começam a impactar a opinião pública e a base política de Trump.

A Reuters informou que milhares de fuzileiros navais e marinheiros adicionais estão sendo enviados para a região, embora ainda não haja decisão sobre uma operação terrestre dentro do Irã.

Esse cenário pode enfraquecer o apoio político ao presidente, inclusive entre seus próprios aliados. O estrategista republicano Dave Wilson alertou: “À medida que a economia sente os efeitos, as pessoas começarão a perguntar: ‘Por que estou pagando gasolina cara de novo? Por que o Estreito de Ormuz agora determina se posso tirar férias no próximo mês?’”

A fala sintetiza o risco político para Trump: quando guerras externas passam a afetar diretamente o custo de vida, o apoio popular tende a diminuir rapidamente.

Dificuldade em controlar a narrativa

Outro ponto destacado pela Reuters é a dificuldade crescente de Trump em controlar a narrativa pública sobre a guerra. Conhecido por sua habilidade de dominar o debate político, o presidente agora enfrenta um cenário em que os fatos da guerra se impõem sobre sua comunicação.

Segundo Brett Bruen, ex-assessor de política externa no governo Obama, Trump perdeu capacidade de explicar o conflito. “Ele está tendo dificuldade em controlar o ciclo de notícias, como está acostumado, porque ainda não consegue explicar por que levou o país à guerra e o que vem a seguir”, afirmou. E concluiu: “Ele parece ter perdido sua habilidade de comunicação.”

Diante desse quadro, Trump tem reagido com ataques à imprensa, chegando a acusar veículos de “traição” por reportagens que considera prejudiciais ao esforço de guerra. A estratégia, porém, tende a aprofundar a percepção de fragilidade política.

Ao fim da terceira semana, a guerra contra o Irã se consolida como um dos maiores desafios do governo Trump, combinando riscos militares, isolamento internacional, pressão econômica e crescente desgaste interno — um cenário que indica que o conflito está longe de qualquer desfecho controlado pelos Estados Unidos.

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