New York Times: China emerge como a grande vencedora da crise no Estreito de Ormuz
Reportagem mostra que reservas estratégicas, energia limpa e política industrial permitiram a Pequim absorver os choques provocados pela guerra
247 – A China foi a economia que melhor aproveitou, do ponto de vista estratégico, a crise provocada pela guerra entre Estados Unidos e Irã e pelo fechamento efetivo do Estreito de Ormuz. Essa é a principal conclusão de uma reportagem do New York Times, reproduzida pelo Estado de S. Paulo, baseada em um estudo da consultoria Asia Group, sediada em Washington. Segundo a análise, enquanto diversas economias sofreram com inflação, escassez de insumos e desaceleração industrial, Pequim conseguiu preservar sua competitividade e ampliar sua influência econômica.
De acordo com a reportagem do New York Times, a combinação de grandes reservas de petróleo e gás, investimentos maciços em energia limpa, planejamento estatal e instrumentos de política industrial permitiu à China amortecer os efeitos do choque energético. Ao mesmo tempo, a instabilidade internacional reforçou a demanda global por tecnologias nas quais o país já é líder, como painéis solares, baterias e veículos elétricos.
“É difícil não chegar à conclusão de que a China é a vencedora aqui”, afirmou Kurt Campbell, presidente e cofundador do Asia Group e ex-secretário de Estado adjunto dos Estados Unidos no governo Biden.
O Estreito de Ormuz é uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta. Cerca de 80% do petróleo consumido pela Ásia e aproximadamente 90% do gás natural destinado ao continente passam por essa estreita passagem entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico. A interrupção do tráfego afetou profundamente cadeias produtivas em diversos países, elevando custos de energia e comprometendo o fornecimento de matérias-primas essenciais.
Os impactos foram além do petróleo. A guerra interrompeu o fornecimento de produtos como nafta, utilizada na fabricação de plásticos e produtos químicos; hélio, indispensável para a indústria de semicondutores e equipamentos médicos; e enxofre, fundamental para o refino de cobre, níquel e outros minerais críticos empregados na produção de baterias e sistemas elétricos.
Mesmo sendo importadora desses insumos, a China conseguiu reduzir significativamente os efeitos da crise. Segundo o relatório citado pelo New York Times, o governo utilizou reservas estratégicas de energia, controlou exportações de refinarias, administrou preços internos e lançou mão de mecanismos estatais para evitar que o choque internacional fosse totalmente repassado à economia doméstica.
As importações chinesas de petróleo caíram mais de 30% em maio na comparação com o mesmo período do ano anterior, criando um excedente que acabou beneficiando outros mercados. A consultoria avalia que Pequim demonstrou capacidade de utilizar controles de exportação, subsídios, preços administrados e sua política cambial para absorver choques externos sem comprometer sua base industrial.
Além disso, a instabilidade provocada pelos Estados Unidos acabou fortalecendo a imagem internacional da China como um parceiro econômico previsível. Segundo a análise, muitos governos passaram a enxergar Pequim como fornecedor mais confiável de equipamentos para a transição energética, acelerando as compras de painéis solares, sistemas de armazenamento de energia e veículos elétricos fabricados no país.
Enquanto isso, outras economias asiáticas enfrentaram dificuldades muito maiores.
Na Índia, a alta dos preços dos fertilizantes, dos combustíveis e dos alimentos aumentou a pressão política sobre o governo. A preocupação é ainda maior porque mais de 40% da força de trabalho indiana está empregada na agricultura, setor fortemente dependente de fertilizantes.
No Japão, o aumento dos custos da energia ampliou a pressão sobre as contas públicas, já afetadas pelos elevados subsídios aos combustíveis. A escassez de alumínio e de nafta também provocou cortes e atrasos na produção das montadoras japonesas.
Os países do Sudeste Asiático foram igualmente atingidos. Muitos recorreram a empréstimos emergenciais e ampliaram subsídios para conter os efeitos da crise energética. As Filipinas chegaram a decretar estado de emergência energética nacional após greves trabalhistas relacionadas ao aumento dos preços dos combustíveis. Na Indonésia, produtores de níquel reduziram a produção devido à escassez de ácido sulfúrico, enquanto o turismo em Bali foi prejudicado pelo aumento das tarifas aéreas.
Segundo o relatório, a crise também pode desacelerar uma tendência observada nos últimos anos: a migração de fábricas da China para outros países asiáticos. Com custos maiores de energia e maior vulnerabilidade logística, parte do Sudeste Asiático pode perder competitividade justamente quando buscava atrair investimentos industriais.
Os Estados Unidos sofreram impacto relativamente menor na área energética, graças à sua elevada produção doméstica de petróleo e gás. Ainda assim, o estudo alerta que empresas americanas podem enfrentar dificuldades em setores como inteligência artificial, já que boa parte dos semicondutores, transformadores, cobre e equipamentos utilizados na construção de centros de dados depende de cadeias produtivas asiáticas afetadas pela crise.
O atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou um acordo de paz entre Washington e Teerã, e o fluxo de navios pelo Estreito de Ormuz começou a ser retomado. Entretanto, novos episódios de tensão e troca de ameaças entre Estados Unidos e Irã mantêm o risco de novos bloqueios, o que continua pressionando os mercados internacionais.
Mesmo com um eventual restabelecimento definitivo do cessar-fogo, especialistas acreditam que os efeitos econômicos da guerra devem permanecer por um longo período. O aumento dos custos de seguro marítimo, a busca por rotas alternativas e a reorganização das cadeias globais de suprimentos tendem a manter elevados os custos logísticos.
Kurt Campbell advertiu que o impacto da crise foi "profundo e intenso" para diversos países e cadeias produtivas, ressaltando que Japão, Coreia do Sul e outras economias asiáticas já consumiram boa parte de suas reservas estratégicas.
“Em muitos segmentos, desde combustível de aviação até diversos tipos de diesel, estamos praticamente com os estoques no limite”, afirmou.
A avaliação apresentada pelo New York Times sugere que a crise no Estreito de Ormuz acabou evidenciando uma vantagem estrutural da economia chinesa. Graças ao planejamento estatal, à diversificação de sua matriz energética e à liderança em setores ligados à transição energética, Pequim conseguiu transformar uma grave crise internacional em oportunidade para reforçar sua posição como principal potência industrial e tecnológica do século XXI.



