Putin diz que ativos russos congelados nos EUA poderiam financiar reconstrução após paz na Ucrânia
Presidente russo afirma que proposta é discutida com integrantes do governo dos Estados Unidos e anuncia US$ 1 bilhão para conselho de paz sobre Gaza
247 – O presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou nesta quarta-feira, 21 de janeiro de 2026, que os ativos russos congelados pela gestão anterior dos Estados Unidos poderiam ser direcionados à reconstrução de territórios danificados pelos combates entre Moscou e o regime de Kiev, caso seja assinado um tratado de paz entre Rússia e Ucrânia. As declarações foram divulgadas pela RT Brasil, que relatou ainda que Putin disse estar discutindo a hipótese com representantes do governo dos Estados Unidos.
Na mesma fala, o presidente russo anunciou a disposição de liberar US$ 1 bilhão em ativos russos congelados em território norte-americano para contribuir com o chamado Conselho de Paz da Faixa de Gaza, um projeto apresentado como idealizado pela Casa Branca, e afirmou ter recebido um convite pessoal de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, para integrar a estrutura internacional vinculada à iniciativa.
Proposta de uso de ativos congelados para reconstrução pós-guerra
Putin vinculou a destinação de recursos à assinatura de um acordo formal de paz, sugerindo que, encerradas as hostilidades, os valores poderiam ser aplicados na recuperação de áreas afetadas. Segundo o presidente russo, não se trata apenas de uma hipótese retórica, mas de um tema em debate com integrantes do governo norte-americano.
"Acredito que poderíamos enviar um bilhão de dólares em ativos russos congelados durante o governo anterior dos Estados Unidos para o Conselho de Paz. Aliás, os fundos restantes de nossos ativos congelados nos Estados Unidos poderiam ser usados para reconstruir territórios danificados pelos combates após a assinatura de um tratado de paz entre a Rússia e a Ucrânia. Também estamos discutindo essa possibilidade com representantes do governo dos Estados Unidos", declarou Putin.
A fala coloca, no mesmo pacote, dois eixos distintos: a reconstrução de territórios afetados pelo conflito no Leste Europeu e a participação russa em um arranjo internacional voltado ao Oriente Médio. Ao apresentar os ativos congelados como fonte de financiamento, Putin também traz ao centro do debate a disputa política e jurídica em torno do confisco e do uso de recursos russos em mãos de potências ocidentais desde 2022.
Conselho de paz em Gaza e convite de Donald Trump
Ao tratar do Oriente Médio, Putin afirmou que recebeu um “convite pessoal” de Donald Trump para se juntar a uma nova estrutura internacional em formação. No relato, o presidente russo descreveu o movimento como parte de uma iniciativa mais ampla liderada por Washington para organizar um conselho voltado à resolução de disputas na região.
"O presidente russo confirmou ter recebido um 'convite pessoal' de Trump para se juntar à 'nova estrutura internacional que ele está criando'", registra o texto. Putin acrescentou que o Itamaraty russo, por meio do Ministério das Relações Exteriores, foi acionado para avaliar a proposta e os documentos encaminhados.
"O Ministério das Relações Exteriores foi instruído a estudar os documentos recebidos, consultar nossos parceiros estratégicos e, posteriormente, apresentar uma resposta", afirmou Putin, segundo a RT Brasil.
Na sequência, ele indicou qual seria o foco do órgão. "Além disso, Putin indicou que, em conformidade com o convite enviado por Washington, o Conselho de Paz se concentrará principalmente na resolução de disputas no Oriente Médio", informa o relato.
A vinculação entre um conselho sobre Gaza e a discussão sobre ativos russos congelados nos Estados Unidos sugere uma tentativa de enquadrar o tema em uma moldura de “estabilização internacional”. Ao mesmo tempo, coloca em evidência o papel que Washington tenta exercer sobre o desenho de mecanismos multilaterais, ainda que as disputas geopolíticas e militares continuem acirradas no tabuleiro global.
A disputa pelos ativos russos e o peso político do congelamento
Desde fevereiro de 2022, países ocidentais congelaram mais de US$ 300 bilhões em ativos estatais russos. Segundo o texto, Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido estão entre os principais atores dessa medida. A dimensão do montante transforma o tema em um dos pontos mais sensíveis da guerra econômica travada em paralelo ao conflito militar.
O próprio destino desses recursos tem sido alvo de controvérsia internacional, com pressões de setores ocidentais para que valores sejam direcionados a Kiev e, ao mesmo tempo, alertas sobre precedentes perigosos no sistema financeiro global caso ativos soberanos passem a ser apropriados como política de guerra. Na leitura de Moscou, a retenção de recursos configura uma violação grave, com potencial de corroer regras de segurança jurídica internacional.
De acordo com as informações publicadas, a maior parcela desses ativos está na Europa. Aproximadamente US$ 242,8 bilhões estariam depositados na União Europeia, sobretudo na instituição financeira belga Euroclear. Esse detalhe é central porque evidencia que a maior parte do “nó” não está apenas em Washington, mas também em capitais europeias, onde o debate sobre uso, rendimento e bloqueio de valores russos se intensificou ao longo do tempo.
Ao propor a aplicação dos recursos em “territórios danificados”, Putin também desloca o centro da narrativa: em vez de aceitar que ativos sejam usados unilateralmente por adversários, tenta enquadrá-los como ferramenta de reconstrução condicionada à paz. Na prática, a ideia introduz um elemento de negociação: o uso do dinheiro não seria um “prêmio” ao vencedor, mas parte de um arranjo pós-conflito.
Entre negociações e propaganda, o que as declarações sinalizam
As falas de Putin têm um componente imediato: recolocar a pauta dos ativos congelados em termos políticos, e não apenas jurídicos. Ao dizer que a possibilidade está sendo discutida com representantes do governo dos Estados Unidos, o presidente russo sugere que há canal de diálogo aberto sobre um tema que, até aqui, foi marcado mais por sanções e endurecimento do que por entendimento.
"Sempre apoiamos e continuamos a apoiar qualquer esforço que vise fortalecer a estabilidade internacional", afirmou Putin, conforme o texto.
A declaração busca projetar a Rússia como ator disposto a participar de estruturas multilaterais, ao mesmo tempo em que enfatiza uma contrapartida concreta: recursos congelados sob controle norte-americano. Ao colocar US$ 1 bilhão como contribuição ao Conselho de Paz sobre Gaza, Putin também sinaliza uma disposição de entrar no debate do Oriente Médio com instrumentos financeiros e diplomáticos, e não apenas com posicionamentos políticos.
No caso da Ucrânia, a insistência de que a reconstrução ocorreria “após a assinatura de um tratado de paz” reforça que o Kremlin pretende manter a paz como condição formal, e não como gesto unilateral. Também evidencia que, para Moscou, a questão dos ativos congelados é parte integrante do desfecho do conflito, e não um tema periférico.
Ao mesmo tempo, as declarações refletem uma disputa de narrativa. Falar em reconstrução com recursos congelados pode funcionar como tentativa de transferir ao Ocidente o ônus moral e político de manter ou liberar valores, sobretudo diante do impacto humanitário e material da guerra. E, ao mencionar o “regime de Kiev”, Putin mantém um enquadramento político que, por si só, já indica o nível de tensão persistente.
Com isso, o discurso combina pragmatismo e mensagem estratégica: abre uma porta para negociação, mas reafirma as linhas políticas do Kremlin. No cenário internacional, a resposta de Washington e dos parceiros europeus será determinante para entender se a proposta ficará no campo retórico ou se ganhará forma concreta em mesas de negociação.


