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Rússia cogita interromper gás para a União Europeia “já”, diz Putin

Após reunião com chanceler húngaro, presidente russo afirma que Moscou pode redirecionar volumes a “mercados emergentes”

Vladimir Putin em Moscou - 19 de dezembro de 2025 (Foto: Alexander Nemenov/Pool via REUTERS)

247 – A Rússia avalia a possibilidade de sair do mercado europeu de gás antes mesmo de qualquer proibição total da União Europeia (UE), interrompendo os fluxos “em um mês ou dois” caso a tendência de bloqueio se confirme. A sinalização foi feita pelo presidente Vladimir Putin em declaração na quarta-feira, após encontro no Kremlin com o ministro das Relações Exteriores da Hungria, Péter Szijjártó.

Segundo a RT, Putin disse que Moscou pode optar por encerrar as vendas para a UE e realocar o fornecimento a outros destinos, sem “esperar” que Bruxelas estabeleça um banimento geral de recursos russos.

“Pensando em voz alta” e ameaça de corte antecipado

Ao comentar a estratégia russa para o gás, Putin afirmou que não haveria motivação política no raciocínio, mas sim cálculo de risco diante do que descreveu como um provável desligamento europeu das importações russas. Em fala ao jornalista Pavel Zarubin, ele declarou: “Não há motivo político aqui. Mas se vamos ser desligados em um ou dois meses, seria melhor parar agora e ir para países que são parceiros confiáveis, e nos estabelecer lá. Mas isso ainda não é uma decisão, é só eu pensando em voz alta, por assim dizer. Eu definitivamente vou instruir o governo a trabalhar nesse tema com nossas empresas.”

A mensagem foi acompanhada de uma indicação sobre o possível destino desses volumes: Putin sugeriu redirecionamento a “mercados emergentes”, citando a intenção reiterada da UE de eliminar totalmente recursos russos de sua matriz de importação energética.

Energia e disputa de narrativas: crise “criada” por Bruxelas, diz Moscou

Putin também atribuiu a crise energética europeia ao que chamou de políticas equivocadas do bloco ao longo de muitos anos, reforçando a posição russa de que o problema seria consequência da orientação adotada por autoridades europeias.

Ao mesmo tempo, ele procurou sustentar a narrativa de confiabilidade do fornecedor russo, afirmando que a Rússia “sempre foi e continua sendo” uma fornecedora confiável para seus parceiros — incluindo países europeus —, desde que o outro lado também seja “confiável”.

Nesse ponto, Putin destacou explicitamente a Europa Oriental, com ênfase em Eslováquia e Hungria: “Por exemplo, com aqueles no Leste Europeu, Eslováquia e Hungria. Nós os abastecemos com nossos recursos energéticos, tanto petróleo quanto gás, e pretendemos continuar fazendo isso no futuro. E a liderança desses países seguirá a mesma política de hoje, isto é, ser confiável para nós.”

Hungria diz ter garantias e busca “rotas alternativas”

Após a reunião com Putin, Szijjártó afirmou que Budapeste obteve garantias de fornecimento de petróleo e gás e que os dois países concordaram em trabalhar para diversificar rotas de entrega.

Em vídeo publicado no Facebook, o chanceler húngaro disse: “Concordamos que, se as rotas de transporte ficarem indisponíveis por vários motivos, sempre buscaremos soluções alternativas. Por exemplo, se o transporte de petróleo por oleoduto continuar a enfrentar dificuldades, consideraremos opções de transporte marítimo.”

A movimentação diplomática reforça o esforço de Budapeste para preservar o abastecimento em meio à pressão europeia por uma ruptura acelerada com a energia russa e às tensões regionais envolvendo a Ucrânia.

Oleoduto Druzhba, Ucrânia e retaliações políticas no coração do impasse

O pano de fundo imediato para a escalada retórica é a instabilidade recente no fornecimento de petróleo por meio do oleoduto Druzhba, que abastece, entre outros, Hungria e Eslováquia. De acordo com o relato, houve interrupção após a Ucrânia interromper o fluxo no fim de janeiro. Kiev alegou que a infraestrutura teria sido danificada em ataques russos de longo alcance, o que Moscou nega.

O tema ganhou dimensão política. Budapeste e Bratislava acusaram Kiev de “chantagem”, sustentando que a interrupção teria sido deliberada por razões políticas e ameaçando retaliação. No mesmo contexto, a Eslováquia encerrou um esquema emergencial de fornecimento de eletricidade à Ucrânia, enquanto a Hungria vetou um empréstimo proposto de € 90 bilhões para Kiev e também o mais recente pacote de sanções contra a Rússia.

O que muda para a Europa se Moscou “sair” antes do banimento

A declaração de Putin adiciona um elemento novo ao tabuleiro: a possibilidade de a própria Rússia antecipar a ruptura, em vez de apenas reagir a medidas europeias. Na prática, isso tende a aumentar a volatilidade do mercado e ampliar o custo político interno para governos europeus que apostam numa transição rápida, especialmente nos países mais expostos a rotas e contratos ainda vinculados ao fornecimento russo.

Do ponto de vista político, a fala do presidente russo também funciona como recado direto às capitais europeias: se a UE pretende encerrar importações, Moscou pode escolher o momento e as condições, buscando fortalecer sua posição em outras regiões e reduzir a dependência de um comprador que anuncia publicamente a intenção de abandoná-la.

Ao mesmo tempo, Putin preservou uma porta entreaberta ao diferenciar “Europa” de governos específicos, citando Hungria e Eslováquia como parceiros “confiáveis” e sugerindo continuidade de fornecimento a esses países. Essa distinção aprofunda tensões internas no bloco, porque transforma energia em fator de fragmentação política — justamente quando a UE tenta projetar unidade em sanções, financiamento e estratégia de segurança energética.

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