Supostas negociações de Trump com o Irã geram perplexidade e frustração em Israel
Israel se vê isolado e, agora, perto de ser abandonado também por Donald Trump, dizem analistas e autoridades israelenses
247 - A sinalização do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que pretende manter negociações com o Irã para encerrar o conflito gerou perplexidade e frustração entre analistas e autoridades em Israel, que vinham apostando em uma escalada militar mais direta contra Teerã. A mudança de tom ocorre após semanas de ameaças de ataques à infraestrutura energética iraniana, contrastando com a negativa do próprio Irã de que existam conversas em andamento, relata a Al Jazeera.
Segundo analistas, o anúncio de Trump surpreendeu o establishment político israelense, que vinha se posicionando como protagonista na ofensiva contra o Irã. Ao longo do conflito, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu reiterou que havia convencido os Estados Unidos a se engajarem no enfrentamento do que classifica como uma ameaça existencial ao país.
Em vídeo divulgado após as declarações de Trump, Netanyahu afirmou que o presidente dos Estados Unidos acredita ser possível aproveitar “as grandes conquistas obtidas [pelo exército israelense] e pelo exército dos EUA para alcançar os objetivos da guerra em um acordo… que salvaguardará nossos interesses vitais”. O premiê acrescentou: “Paralelamente, continuamos a atacar, tanto o Irã quanto o Líbano. Estamos desmantelando metodicamente o programa de mísseis e o programa nuclear, e continuamos a atacar o Hezbollah com força".
Apesar desse discurso, cresce em Israel a percepção de que os objetivos iniciais da guerra — que incluíam a possível queda do governo iraniano — não foram alcançados. Com o Irã ainda mantendo sua estrutura de poder e realizando ataques recentes contra território israelense, a perspectiva de um acordo negociado gera desconforto.
O ex-embaixador israelense Alon Pinkas afirmou que a insistência de Trump nas negociações pode indicar desconfiança em relação às avaliações de Netanyahu. Segundo ele, o presidente dos Estados Unidos pode ter concluído que “Netanyahu pode ter enganado [Trump] sobre a rapidez e a força de uma vitória, e sobre a viabilidade de uma mudança de regime”.
Já o cientista político Ori Goldberg avalia que Israel foi surpreendido pela condução das negociações, sem participação prévia nas decisões. “É uma derrota para Netanyahu? Com certeza!”, declarou. “É como se Trump estivesse essencialmente abandonando Israel. Pelo menos por enquanto, ainda seremos capazes de destruir o Líbano e matar Gaza de fome, mas qualquer ideia de que somos um ator importante com quem os EUA ou qualquer outro Estado queiram conversar desapareceu. Ninguém quer falar conosco".
A relação entre Washington e Tel Aviv tem sido marcada por oscilações desde a eleição de Trump em 2024, celebrada inicialmente por Netanyahu como o início de uma parceria estratégica mais estreita. No entanto, decisões como a imposição de um cessar-fogo em Gaza no fim de 2025 e a interrupção de ataques ao Irã já haviam gerado sinais de tensão.
Mesmo diante da possibilidade de marginalização de Israel nas negociações, alguns analistas consideram que o país ainda colhe resultados militares relevantes. O analista político Nimrod Flashenberg afirmou que Israel já não desempenha um papel central em iniciativas diplomáticas. “Não creio que houvesse qualquer expectativa de que Israel se envolvesse em esforços diplomáticos para pôr fim à guerra. Israel já não é um país que pratica diplomacia”, disse.
Ele acrescentou que os objetivos reais da campanha podem ter sido mais limitados. “Se, em vez disso, partirmos do pressuposto de que o objetivo era reduzir as capacidades militares do Irã, então ele conseguiu isso, e o fez de uma forma que garantirá o compromisso de longo prazo dos EUA em manter essas capacidades reduzidas".


